Gostaríamos de poder escrutinar todas as justificações, todos os argumentos, para além dos nossos, que estiveram no sentido de voto deste segundo inquérito, cujo tema se prende com a implantação de uma ponte pedestre na principal zona das ribeiras de Gaia e do Porto.
Mas para além de tudo isso sobrou apenas a seguinte pergunta:
Considera necessária a ponte para peões, a ligar as duas margens da Ribeira do Douro?
Também neste inquérito se impunha uma intencionalidade não revelada e que desejamos trazer à discussão, sobretudo porque julgamos ser esse o melhor caminho: a discussão pública dos grandes projectos, cujo impacte seja relevante para a comunidade!
Este escrutínio, esta auscultação da opinião pública, quando existe é apenas quando os dirigentes políticos julgam que com ela irão lucrar alguma coisa e grande maioria das vezes resultam em violentos fracassos, não só políticos como também alguns bons projectos que se perdem.
Há muitos anos atrás discutimos na televisão pública a intervenção do arquitecto João Carreira na Fortaleza de Sagres, com o Adriano Cerqueira como moderador e uma plateia cheia de figuras públicas onde se incluía Mário Soares (que como sabemos, já nessa altura falava muito…).
Mais recentemente, a intervenção do arquitecto Adalberto Dias para o Castelo de S. Jorge em Lisboa, mereceu a sua intrincada e acesa ‘opinião pública’, com holofotes e câmaras.
Entre nós, a proposta de requalificação da Rua de 31 de Janeiro, do arquitecto Carlos Prata, ou o projecto de Álvaro Siza para a Avenida da Ponte e o Museu da Cidade, mereceram igualmente a ‘melhor atenção’ dos políticos da altura, que com isso julgavam estar a marcar pontos.
Estávamos todos enquanto comunidade, mas eles não podiam dar-se ao luxo de perder votos nas urnas e de boas intenções…
Se a memória não vos faltar, saberão que estamos a falar de projectos que nunca se realizaram, pelo menos na totalidade. E dizemos nós: que excelentes projectos que se perderam, sem verem a luz do dia!
Agora, depois de preparado o caminho com leis à medida, (como diz o bastonário, feitas por grandes escritórios de advogados cujos intervenientes depois lucram com elas – como esteve para acontecer com Júdice e a frente ribeirinha de Lisboa) que permitem o ajuste directo de projectos e obras onde se esgotam os recursos de todos nós, ficamos assim, à mercê de pessoas mal formadas e outras mal orientadas, que sem escrúpulos produzem na nossa paisagem e na nossa vida, danos irreversíveis.
Poderíamos encontrar algures um porto seguro, que servisse de filtro a todos estes disparates, como por exemplo o IGESPAR, mas já sabemos que não é assim. Até porque os nossos ‘guardiões’ também têm os seus problemas para resolver.
Um desses problemas é o constante ataque e pressão nas decisões das entidades licenciadoras, que determinados grupos com interesses económicos lançam para as páginas dos jornais, numa verborreia sem limite. Exemplo disso é esta notícia que dá conta que a culpa do agravamento do custo das obras do teleférico de Gaia será na ordem dos 2,2 milhões e é toda do IGESPAR.
Não é por causa de um mau projecto que ninguém conhece nem discute, não é por causa das renegociações das clausulas do contrato cujos custos serão como sempre suportados pelos contribuintes, é porque “(…) a empresa alega a subida do custo da construção devido às imposições do IGESPAR para solicitar a mudança do acordo.(…)” e por isso “(…) a empresa pediu (e foi aceite) para estar mais anos sem pagar renda ao Município, argumentando com o custo inesperado das expropriações na Calçada da Serra face à mudança da estação do Jardim do Morro para a encosta, imposta pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR). Agora, solicita nova mexida no contrato.(…)”. Bolas!
Para uma amostra de 100 votos registámos os seguintes resultados:
não, considero supérflua! ……………………..……………………………………….. 85%
sim, considero necessária! ……………………………..……………….…………….. 14%
não sei, ando desatento! …………………………………………………………………. 1%
E assim, cá estamos nós, cidadãos minimamente atentos, usando as tecnologias ao dispor, mostrando o caminho, para que não existam desculpas.
Sabemos que não vai ser fácil mudar, pelo menos enquanto as asneiras forem pagas por nós e não do bolso de quem as comete.


