a festa popular, por ssru

As vizinhas mais idosas dizem-nos que a ‘festa do santo’ já teve melhores dias, era um verdadeiro arraial do Povo. Dizem-no de boca cheia, mão no peito e um brilho de tristeza no olho.

Os festejos do nosso passado mais longínquo incluíam uma jogatina de futebol pela manhã entre clubes rivais, logo seguida do almoço montado na rua perfumada a sardinha e pimentos assados.

À tarde os ranchos folclóricos enchiam as ruas de música e dança, toda a gente dançava, até os padres e os políticos, os novos e velhos, homens e mulheres, mulheres e mulheres, crianças, todos.

Na Rua Arménia assistíamos a um jogo de cartas ou bilhar e havia uma peça de teatro no ‘S. Pedro de Miragaia’ e a festa não parava, comíamos aqui e ali, em todo o lado havia um fogareiro a assar e vizinhos a cantar alto.

Não ligamos tanto a este palco onde nos presenteiam a Ana Malhoa e a Mónica Sintra, e ‘aquelas coisas’ brasileiras que nada têm de são-joanino.

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O fogo de artíficio, esse é sempre bonito, mesmo quando passou a ser barómetro político e motivo de disputa entre cidades irmãs.

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É verdade que já vimos famílias inteiras a subir e descer as ruas, de alho porro na mão a provocar o nariz e o pescoço de quem cruza num e noutro sentido.

Mas a festa também é do alecrim e das fogueiras feitas para saltar de bairro em bairro, do balão acesso no ar, das rusgas, das cascatas (as verdadeiras) e dos banhos de mar ao nascer do dia.

O Porto nunca virou as costas a uma boa festa nem a uma boa briga.

No meio deste colorido pagão e agora que o S. João já se acabou, gostaríamos de vos falar de um desses gestos simples que mudam muita coisa, esses de que falamos de vez em quando e que custam relativamente pouco, mas que significam uma imensidão na vida das pessoas, capaz de perdurar por muito tempo.

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foto Artur Machado/JN

Algo tão simples como o rosto estampado numa bandeirola, a enfeitar as ruas, quatro ou cinco ruas, muitos rostos de quem mora ou trabalha no coração da cidade e que abre a porta desconfiada, mas pronta a confiar…

Uma ovação em pé para a Dra. Ana Neto e a sua equipa, que soube tocar, não na vaidade, mas no orgulho e identidade das pessoas e fazê-las participar enquanto comunidade, num festejo de todos. Dá vontade a qualquer um de pertencer àquela rua e participar.

Lemos no artigo do JN: “(…)Era preciso conhecer as pessoas, convencê-las a cederem uma fotografia ou a serem retratadas para figurar em bandeirinhas de S. João que seriam colocadas nas ruas da Fonte Taurina e da Reboleira (na Ribeira) nas Galerias de Paris e Cândido dos Reis (aos Clérigos) e na Rua das Flores (entre o Largo de S. Domingos e a Fundação da Juventude). Inicialmente, pensaram em concentrar todas as fotografias dos moradores da Ribeira em apenas uma artéria, mas ninguém quis figurar na rua do vizinho. “Avisaram-me logo: eu? nessa rua, nem pensar”, conta Ana, rindo das dificuldades que iam surgindo. “Foram dois meses de contactos diários na Ribeira”. Mas depois da dona Odete, a gestora do projecto conheceu a dona Conceição, o Nando, o Naná, o Inácio, o sr. José e por aí fora. A ideia foi ganhando forma e, de repente, já tinham duas mil fotografias para tratar, imprimir em acetato, agrafar às bandeirinhas e pendurar nas ruas (…)”

O que fica deste pequeno gesto, que portas abriu, que continuidade se poderá dar a este tipo de projectos? Perguntas que a cidade poderia responder…


a cidade, por albano martins

Uma cidade pode ser apenas um rio, uma torre, uma rua com varandas de sal e gerânios de espuma.(...) Uma cidade pode ser um coração, um punho.

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