a não-cidadania #2, por ssru

Daqui da nossa janela já contámos cerca de 14 camiões carregados de lixo saídos de um prédio vizinho em ruínas. Não nos referimos ao lixo do que outrora poderá ter sido o sistema estrutural, as lajes e paredes desse edifício. É mesmo a entulheira que um “bobcat” tenta retirar, incansável, sobretudo sacos com pinturas de super e hipermercado, com detritos domésticos dentro, enviados para lá pela vizinhança que, vá-se saber (?), decide que ali é o local mais indicado, ao invés do ‘verde’ contentor do lixo urbano.

Há já algum tempo atrás e durante meses, quase sempre à mesma hora da noite, bem tarde, ouvíamos um imenso estrondo que cortava o silêncio. Descobrimos depois tratar-se de uma vizinha de um terceiro andar que, por preguiça ou por qualquer outra razão,  atirava o saco do lixo para a via pública, tentando aproximá-lo do poste onde outros o esperavam, misturando os restos de comida com os vidros acabados de partir, quase sempre espalhando toda a porcaria em redor.

É que, quer se queira quer não, este é um problema de (não) civismo, de (não) cidadania, de estupidez humana no seu estado mais puro. É também um problema de valores, ou da falta deles, uma questão civilizacional que se interliga com a descarga dos cinzeiros no meio do trânsito, entreabrindo a porta do carro; com as escarradelas despreocupadas ali mesmo à frente de toda a gente que se cruza no passeio apanhada pelos salpicos da saliva; com a limpeza dos bolsos para o chão enquanto se espera nas filas do transporte público; pelos cantos, paredes e portas marcados pelo cheiro pestilento de urina e fezes humanas; pelos restos de comida, cheia de gordura, atirada da janela para alimento dos pombos e gaivotas… e dos gatinhos vadios, etc…

Surpresos, ficamos a pensar que a Câmara do Porto já se tinha antecipado a este tipo de problemas, quando nos deparamos com um programa, no seu 2º ano consecutivo (?), chamado Porto Cívico.

“(…) A Câmara Municipal do Porto, através da Fundação Porto Social, levou a cabo, no passado sábado, e pelo segundo ano consecutivo, uma acção de sensibilização integrada no projecto Porto Cívico que teve por objectivo sensibilizar a população da cidade do Porto para a necessidade crescente de adopção de atitudes cívicas, ao nível da solidariedade, do respeito, da higiene e da tolerância. (…) No âmbito deste Projecto serão desenvolvidas, até ao final de Junho, mais duas acções de dinamização em espaço público: “Chicletes no chão, não”, no dia 30 de Maio, em Santa Catarina; e “Dejectos de animais no chão, não, no dia 6 de Junho, na Avenida Brasil.(…)”

Pois… se calhar precipitamo-nos!

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Não é que os chicletes e o ‘cócó’ dos animais não sejam importantes, uma verdadeira praga, mas… e as ratazanas que parecem coelhos e que por vezes atravessam a nossa rua a caminho do trabalho???

E os nossos vizinhos que não mudam, não trabalham e também são uma verdadeira praga? Para esses não existe um programa qualquer que os ajude a serem melhores cidadãos?


a cidade, por albano martins

Uma cidade pode ser apenas um rio, uma torre, uma rua com varandas de sal e gerânios de espuma.(...) Uma cidade pode ser um coração, um punho.

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