a questão histórica, por ssru

Para percebermos um pouco melhor o Porto de Hoje, teríamos de recuar pelo menos até finais do século XIX, a um período durante o qual a ‘febre salubrizadora’ permitiu arrasar muito do Património do Centro Histórico.

Os princípios da corrente dominante pretendiam tornar a cidade mais funcional e utilitária, impondo para isso a demolição de edifícios e equipamentos para se desafogar, salubrizar, regularizar, alinhar.

Uma das inovações com maior impacto em matéria de urbanismo foi, no entanto, o caminho de ferro. A linha do Norte, que terminava nas Devesas, viu finalmente a sua chegada ao Porto com a construção da Ponte D. Maria à cota alta, unindo as duas margens. Foram muitas as pressões para trazer o comboio até ao centro da cidade, nascendo o ramal da Alfândega e o de S. Bento, trazendo grandes transformações ao Centro Histórico, uma hecatombe que a sua escala morfológica e regenerativa não podia suportar.

Exemplos da razia são o Bairro do Laranjal; um convento de belíssima arquitectura, imponente e interessante; e a leitura urbana em grande parte das ruas do Loureiro e da Madeira.

Esta nova entrada da Cidade provocou um aumento vertiginoso de pessoas que utilizavam a plataforma da (actual) Praça da Liberdade para se movimentarem, canalizando as atenções para a ampliação do novo centro para Norte, nascendo a Avenida dos Aliados.

Este facto relegou para segundo plano as zonas da Sé, da Vitória e da Ribeira, que perdiam paulatinamente a vitalidade de outros tempos.

Com a construção da Ponte D. Luis a Rua de Mouzinho da Silveira tornou-se a solução óbvia para canalizar o trânsito de pessoas e carros para a outra margem. Apesar de assentar sobre o leito do rio da vila, e por isso a destruição provocada por esta artéria não ter sido tão vasta, a Rua de Mouzinho destruíu um dos mais belos recantos do Porto – a capela e a escadaria de S. Roque, na Rua do Souto. Com um perfil muito superior ao das ruas medievais, tornou obsoletas as ruas de Pelames, da Bainharia e a dos Mercadores (já antes parcialmente subsistituida pela Rua de S. João), bem como a Rua das Flores, não medieval e bem mais larga que as primeiras.

A construção do Túnel da Ribeira veio materializar a ideia de uma ligação mais rápida e desafogada ao tabuleiro inferior da Ponte D. Luis, o que provocou o declínio da Praça da Ribeira, mas as suas feridas abertas no tecido urbano ainda se encontram por fechar.

No entanto, alguns dos maiores atentados à nossa memória colectiva foram a abertura da Avenida da Ponte e a destruição do antigo Bairro do Barredo, em meados do século XX, fruto de uma ideologia anti-núcleos históricos, que, quer num caso ou noutro, ignorando por completo a cidade medieval, se permitiu ‘varrer’ os edifícios do Centro Histórico. Os estragos só não foram superiores devido a uma benéfica falta de meios económicos, tão nossa característica.

Retalhado, o Porto medieval viu a sua malha cheia de novas vias muito mais largas, que desrespeitaram os anteriores traçados e que os remeteram para uma espécie de morte lenta, uma segregação urbana cada vez mais imposta pelo automóvel, ao ponto que hoje conhecemos.

Como dizia Germano Silva numa das suas últimas crónicas do JN “(…) os autarcas de Ontem e de Hoje, nunca tiveram uma faísca de bom senso artístico nas suas ideias (…)” in [a casa das ameias] – JN, 19 Outubro 2008.

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