os pormenores que contam #2, por ssru

Este artigo é destinado às fachadas dos edifícios e aos adereços e adornos que aí encontramos, maior parte das vezes sem darmos conta à primeira vista.

Também não é por acaso que escolhemos a Rua das Flores, porque se a memória colectiva não for muito curta, certamente alguns se recordarão da vida que este rua possuía, das suas joalharias e ourivesarias, das suas casas de fazendas e confecções, dos seus palacetes e casas nobres. Lembramos de cá vir comprar as meias e as camisolas interiores mais baratas que noutro lado, as nossas alianças de casamento, as colchas das camas, etc…

Quem ama esta cidade e este Centro Histórico é capaz de sentir um nó na garganta quando percorre a Rua das Flores, de tão maltratada que está: a maioria dos edifícios perdeu a entrada das habitações; agora a maioria encontra-se devoluta com a perda de negócios dos comerciantes; a ‘modernice’ dos revestimentos sobretudo do rés-do-chão, quer sejam licenciados ou não; o automóvel (como em todo o lado) a tomar conta do espaço público de uma forma implacável; o pavimento que não é substituído ou reparado há quatro décadas…

O primeiro exemplo revela-nos um dos poucos comerciantes de ourivesaria que ainda resiste, sobrevivendo até um dia. Na sua fachada possui um candeeiro “a atirar para o rústico”. O segundo já foi uma importante casa comercial e embora ocupado, evidencia grande desgaste e degradação. Esta fachada é simples e de bom gosto e no cunhal tem pequenas montras (que já não abrem por causa da ferrugem).

Estes dois edifícios encontram-se praticamente em frente um do outro. Ambos em bom estado de conservação, profusamente decorados com vasos de flores. O primeiro carrega o simbolismo religioso num nicho e pouco mais. O segundo tem holofotes, candeeiros rústicos, vasos pendurados nas grades das janelas e… encimado por uma gigantesca parabólica.

Estes exemplos são bem comuns. Os andares superiores quase vazios, muitos sem entrada, à espera que o negócio feche. Mas enquanto isso não acontece, o primeiro pintou todo o rés-do-chão a vermelho e dourado ‘bombeiro’ e de tal forma entusiasmado, pintou ainda a parte inferior da varanda em granito [espectáculo]. O segundo tem tantos holofotes (?) e está tão fechado e vazio. Estas coisas serão licenciáveis.

Este primeiro prédio cujo espaço comercial entretanto fechou (?!) em vez de vasos tem um aparelho de ar condicionado na varanda. É um daqueles casos que bem podia emparcelar com o vizinho do lado uma vez que é estreito, já perdeu o acesso aos pisos superiores, e o seu vizinho do lado direito é em tudo simétrico, como um bom exemplar do século XIX deve ser. No entanto, no projecto de Documento Estratégico da Porto Vivo isso é ignorado, obrigando antes o vizinho a juntar-se ao prédio do seu lado direito, com o qual nada mais tem que o ligue. Quem será o cérebro por detrás de uma decisão destas. O segundo caso, em frente do anterior, exibe o tão famoso estendal carregado de roupinha e ao lado, a não menos famosa, parabólica da TVcabo.

Este exemplar é bastante interessante, isto é, falta pintar as paredes, esmaltar os restantes caixilhos com madeira à vista, tirar aqueles vasinhos ‘ao dependuro’ que só ficam mal e por fim retirar aquele reclame ignóbil, junto com os holofotes e tudo. O último caso é uma pérola que guardamos para vocês todos que nos lêem. Se souberem explicar o que se passa com a fachada deste edifício, nós agradecemos antecipadamente.

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