o efeito de anunciar, por ssru

Um dos muitos factores que têm contribuído para a decadência do Centro Histórico é a crescente e progressiva submissão da Cidade ao automóvel. Para esta área as consequências têm sido dramáticas (algumas já evidenciadas em artigos anteriores), tornando-a num local de passagem ou de transbordo, um espaço pouco atractivo e não recomendável, onde sobressai o conflito entre os que privilegiam o bem estar no usufruto deste local e os que pretendem trazer o automóvel para o Centro.

Sendo um dos factores mais prejudiciais, não deixa de ser caricato ser aquele que mais facilmente pode ser atenuado.

Aquilo que os nossos dirigentes e urbanistas de pé-descalço perguntam é: “O QUE FAZER COM O CENTRO HISTÓRICO DO PORTO, SE NÃO SE PODE DESTRUIR, NEM SE PODE CIRCULAR COM FACILIDADE?”

E já agora também devemos perguntar porque é que os prédios não deixam de ter o tão característico comércio no rés-do-chão (sempre estão a morrer e estão!) para se fazerem garagens? E já agora porque é que não se desventram uma série deles para se fazerem siloautos (lembram-se de um concurso de ideias promovido pela CMP que previa isto?) para os novos habitantes?

E a resposta é: Porque assim deixava de ser o que é!!!

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Mas claro que se pode sempre arranjar um meio termo, como é o caso do Quarteirão do Corpo da Guarda, onde a Porto Vivo prevê instalar um parque de estacionamento no segundo andar do conjunto [imagine-se], onde antes havia habitação e ainda por cima em número de lugares insuficiente para as fracções que se projectam.

O que isto nos sugere é que as opções estão todas trocadas e o automóvel é uma delas. Como se fosse possível medir o valor do Património da Humanidade em “cavalos-motor”.

Viver no Centro Histórico deveria ser considerado um privilégio, não para gente rica, mas para todos aqueles que queiram ali viver e criar família, segundo critérios bem definidos e impostos à entrada, sendo dois deles: a limitação ao uso do automóvel e à marginalidade. Quem violasse estas regras não teria lugar neste património de todos nós.

Sobram ainda os turistas e como sabem os mais atentos, aqueles são os primeiros a respeitar o que é nosso, lamentando a nossa falta de cuidados.

É por isso que notícias como as do “Público” do anterior fim de semana de 08-11-2008, sobre a construção de um túnel de estacionamento em Mouzinho, nos deixam em pleno sobressalto, sendo necessária uma análise rigorosa do assunto.

Prevê a Porto Vivo para o eixo Rua de Mouzinho da Silveira/Rua das Flores o seguinte: “(…) Entre as opções que estão já previstas na candidatura ao QREN está a criação de, pelo menos, “um parque de estacionamento em túnel”, para tentar resolver um dos problemas mais complicados daquele eixo – a falta de local para deixar o carro. Um problema que se agrava perante a perspectiva da SRU de transformar a maioria dos prédios da zona em apartamentos.(…)

“(…) as duas ruas vão ser alvo de um estudo de mobilidade que deverá encontrar soluções para descongestionar a zona(…)”

Na nossa humilde opinião, qualquer projecto para a Rua de Mouzinho descongestionar deveria contemplar a redefinição do seu traçado para uma diminuição da faixa de rodagem, para colocação de baías de estacionamento definidas por tempos de utilização, para passeios de maior largura que mostrassem às pessoas que a rua é delas, para a introdução de esplanadas, árvores e bancos em zonas de estar, no fundo torná-la habitável para as pessoas, porque são estas que tornam as CIDADES VIVAS.

Por isso o anunciado aumento de capacidade de armazenamento de automóveis faz tudo menos descongestionar, pelo contrário, transmite ao cidadão que pode vir à vontade com o seu carrinho que temos aqui um parque em túnel para o servir…

Um exemplo nosso conhecido é o de Viana do Castelo e de facto aquilo parece funcionar, excepto nos dias em que está a abarrotar e os carros começam a fazer fila pelas ruas fora, congestionando todo o trânsito da Cidade e do Centro Histórico. Então em meses como Agosto é de facto uma maravilha!!!

(…) Outra das propostas da SRU é restabelecer a linha do eléctrico na área para ligar a Igreja de S. Francisco à Estação de S. Bento.(…)

BRAVO, um forte aplauso, a Porto Vivo está de parabéns – embora esta seja uma ideia que sempre esteve subjacente aquando da retirada dos carris da rua, que eles um dia voltariam junto com as obras de requalificação – é verdadeiramente uma boa notícia. E já agora deverá recuperar aquele projecto de levar o eléctrico pela Rua das Flores, que, estupidamente, os comerciantes (agora arrependidos) na altura contestaram, deixando-o cair.

E por falar na Rua das Flores: “(…) A SRU aposta ainda na reabilitação e ampliação do núcleo museológico da Santa Casa da Misericórdia, transformando-o num verdadeiro museu, na Rua das Flores.(…)”

Da Santa Casa da Misericórdia? Os Senhores estão doidos ou não têm mais onde gastar o dinheiro? Será só falta de imaginação ou também é burrice? Se calhar é camuflagem?! O Centro Histórico a cair aos pedaços e a SRU preocupada com o núcleo museológico da… Santa Casa?

Os trabalhos nos quarteirões todos atrasados, prédios a executarem obras ilegais, concursos a serem postos em causa e o que é que a SRU tem a dizer: “(…) Contactado pelo PÚBLICO, o presidente do conselho de administração da SRU, Arlindo Cunha, justifica os atrasos com duas razões centrais: “Muitas vezes, os proprietários não se mostram interessados em colaborar connosco, e preferimos alargar o tempo de negociações a recorrer à expropriação. Por outro lado, sempre que alguém avança com uma providência cautelar, demora muito tempo até haver uma deliberação”, diz, acrescentando que todos estes processos têm sido decididos “a favor da SRU”.(…)”

Muito bem! Olhe que isso não era o que dizia o Dr. Joaquim Branco. Ele achava que a expropriação devia ser efectuada no início do processo!!!

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De facto, em política uma das tácticas muito usadas chama-se “o efeito de anunciar”, que consiste em prolongar a fruição de um benefício desde o momento (ou vários momentos) em que se anuncia, mesmo que o objecto do anúncio não se venha a concretizar (em gíria comum significa “fazer render o peixe”).

Esperemos que seja só isso, que seja só um “fait divers”, porque de outra forma o Dr. Arlindo Cunha e a Porto Vivo correm o risco de inscreverem os seus nomes na lista de carrascos do Centro Histórico do Porto.

P.S. – Não é a Rua de Mouzinho da Silveira que assenta sobre o leito de um rio que desce até a Ribeira?

nota a 8 de Dezembro de 2008: Gostaríamos que lessem este texto de José M. Varela, publicado n’ A Baixa do Porto, que complementa o que atrás dissemos. Aliás, esta proposta parte do cérebro de Rui Loza, que sempre foi mau técnico e com o passar do tempo, apenas tende a piorar!

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