o primeiro inquérito, por ssru

Este primeiro inquérito (na coluna lateral) pretende ser simples e sem entrelinhas. Destina-se, num primeiro momento,  a desmistificar a noção preconcebida que a maioria dos administradores da SSRU tem sobre este assunto (que por agora não será revelada, para não estragar nada), para mais tarde analisarmos os resultados e confrontarmos as ideias que daí possam surgir…

A votação é livre e sem encargos, mas não se deseja que seja inócua. O objectivo é criar no futuro, dependendo de cada resultado, novos inquéritos aos leitores deste sítio, de forma a estimular as atenções do público alvo para o primeiro e maior motivo desta existência: A DEFESA E SALVAGUARDA DO CENTRO HISTÓRICO DO PORTO.

Agradecemos a atenção e a bondade de todos.

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o não-património #3, por ssru

A Rua da Vitória é uma via singular, sem dúvida, bastante ‘sui generis’. Para além disso também nos diz muito, toca-nos ao coração, bem como toda a Freguesia com o mesmo nome (que já de si é um nome fantástico), uma das que aglomera um grande número de património classificado monumental da Cidade.

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Comparando morfologicamente o actual traçado com a planta de 1892, verificamos que pouca coisa mudou. É quase uma ‘estrada’ rural, cheia de muros altos que guardam jardins e logradouros dos edifícios situados nas ruas contíguas.

Um desses altos muros (que pertence à extinta FDZHP) possui uma das mais estonteantes paisagens urbanas, uma vista de cortar a respiração, digna de um Património da Humanidade. Durante a guerra civil portuguesa, serviu de ponto estratégico de defesa da Cidade às tropas de D. Pedro que combatiam o seu irmão D. Miguel – a Bataria da Vitória (na face do muro ainda encontramos algumas mossas provocadas pelas balas dos canhões miguelistas que disparavam do lado sul, de Gaia).

Esta é uma das ruas do Porto de difícil acesso a uma viatura de emergência, certamente uma das 40 de que se falou nos ‘media’ recentemente, mas nem assim advogamos a destruição do património edificado para melhoria da circulação.

Os veículos de emergência devem adaptar-se e  terem as dimensões adequadas para permitir uma rápida intervenção, para além dos meios passivos de resposta, e das acções de prevenção, que não se vêem. Porque por aqui não faltam casas em ruína para arder mais rapidamente, o lixo que vizinhos pouco civilizados atiram para as propriedades desertas… e automóveis, por todo o lado, a impedir a circulação!

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Estas imagens mostram, apesar do que dizem os responsáveis por esta cidade, que o Centro Histórico merece mais e melhor do que aquilo que tem!!!

o melhor exemplo, por ssru

“Os bons exemplos vêm de cima”, diz o ditado popular.

Um dos sinais mais representativos da evolução da espécie humana é a sua capacidade para, de uma forma altruísta, proteger e acarinhar as suas crianças, compreender e usufruir do saber dos seus idosos.

Hoje soubemos que existem cerca de 11.000 crianças institucionalizadas em Portugal. Todos os dias os nossos idosos são marginalizados e abandonados, até nas camas dos hospitais. Isto faz de nós, em termos gerais, uns canalhas. Negligenciamos as nossas crianças e desprezamos os nossos idosos.

Por isso “de cima”, onde quer que isso seja, o que nos chega é muito pouco e para nada tem servido. Porque efectivamente o melhor exemplo deverá ser dado por todos, cada um de nós.

Lembramo-nos disto ao lermos o blogue A Baixa do Porto, na última discussão sobre ‘sociedade civil’, ‘alma portuense’, ‘passado e futuro’ e consideramos, sem originalidade, que o exemplo deve vir de qualquer lado e chega-nos por vezes donde menos esperamos.

Nunca saberemos realmente o impacte que, até os mais pequenos gestos, poderão ter na nossa vida e na daqueles que nos rodeiam e por isso fomos ao arquivo e sacámos alguns exemplos que não deveriam vir de quem vêm (quem sabe não iniciámos aqui uma nova rubrica?!).

Há dias, um jornalista perguntou-nos “qual o impacte que temos sobre as ‘forças vivas’ da cidade?”

Nós não pretendemos mudar o mundo, nem ninguém em especial, mas uns gestos de cada vez… talvez!

os pormenores que contam #3, por ssru

Desde que o actual executivo tomou posse (7 anos!!!) que temos a sensação de conviver com o lixo mais perto de nós. Isto não é uma ‘figura de estilo’, referimo-nos mesmo aos detritos urbanos que produzimos e com os quais nos cruzamos diariamente. Eles agora, mais do que anteriormente, parecem fazer parte do nosso dia-a-dia, marcam presença quando saímos de casa, quando entramos no restaurante para almoçar, quando vamos buscar os nossos filhos à escola, quando andamos a pé pela cidade ao fim-de-semana (é verdade, nós ainda fazemos isso, por incrível que pareça!), em todo o lado.

esta foto não só ilustra um contentor no passeio em frente a uma passadeira, como é uma figura de estilo, o lixo "agarrado" ao património da humanidade

esta foto não só ilustra um contentor no passeio em frente a uma passadeira, como é uma figura de estilo, o lixo “agarrado” ao património da humanidade

Há sete anos atrás, como cogumelos, vimos nascer nas ruas da cidade uns verdes contentores com quatro rodinhas e um tubinho por baixo que pinga toda a espécie de líquidos vindos do seu interior. Havia contentores em passeios, entre as árvores, em lugares de estacionamento, aos pares, muitos, pareciam comprados em saldo ou coisa parecida… depois vieram as barras em aço inox para os prender ao lugar!

Depois vieram os ecopontos, todos juntos fazia impressão vê-los e numa rua longínqua deste centro, com apenas uns cento e cinquenta metros, chegámos a contar uns bonitos 21 daqueles recipientes, provavelmente porque eram necessários, indiscutivelmente.

Desde esses tempos que o lixo passou a tema de notícia, ou pelas auditorias aos funcionários, ou pelas greves, ou pela entrega à gestão particular, ou pelo amontoado constante, cíclico, como aparece nas nossas ruas, estas ruas onde moramos e nos cobram os impostos autárquicos mais altos que podem por isso. Tememos silenciosamente por um fenómeno à americana onde as máfias consideram o lixo um bom negócio de ‘família’, tal como vemos nas séries televisivas.

Interessam-nos menos as questões políticas e por isso não desejamos fazer “aproveitamento político” da situação, pelo que vamos debruçar-nos neste artigo sobre o mobiliário urbano, recordando como era quando colocávamos os baldes em determinadas horas da noite, antes da passagem do camião (conforme previsto ainda no regulamento municipal).

Preocupa-nos antes a falta de rigor, a total ausência de sensibilidade, o despropósito como se lida com este assunto de importância vital para a saúde pública. Não é só o desrespeito pelo património classificado, por se colocar o equipamento em qualquer local, sem qualquer critério, sem condições de higiene e manutenção dos espaços envolventes. É também a saúde de todos, é um cartaz turístico humilhante, é a evidência que estamos a milhas de distância de saber gerir o Bem Comum, como ele deve ser gerido.

Não sabemos resolver este problema e admitimos isso. No entanto, sugerimos que se tente o que ainda não foi feito: uma campanha educacional promovendo a utilização sustentada e cívica de todos os recursos, que se ensine nas escolas da cidade, que se promovam iniciativas lúdicas que envolvam a comunidade, por exemplo, do tipo “o meu bairro é mais limpo e bonito que o teu”.

mesmo quando o cidadão dispõe do melhor equipamento, o tratamento dado é a total indiferença...

mesmo quando o cidadão dispõe do melhor equipamento, o tratamento dado é a total indiferença…

Os políticos estão de tal forma desligados da população, que nos interrogamos se seria possível um dia termos a cidade limpa que merecemos!!!

nota a 28 Março 2009: Pelo que lemos nesta notícia do JPN, a iniciativa da população não falta. Será que os políticos saberão, desta vez, mudar a situação ou tudo se perderá para não terem de admitir que são incapazes?

a estação central, por ssru

Durante quase toda a segunda metade do século XIX, a cidade vive um momento de grande desenvolvimento económico, motivado pela notória concentração industrial e comercial. A isto corresponderá um galopante aumento da população e o Porto, tal como todas as cidades em acelerado processo de industrialização, verá agravados os problemas de alojamento da população operária.

A resposta surge na forma de uma nova estrutura habitacional, com a construção de pequenas casas no interior de quarteirões existentes, densamente organizadas, a que se chama “as ilhas”. Espalhar-se-ão um pouco por toda a cidade, mas sobretudo nas freguesias à volta do núcleo central, cujos principais agrupamentos se localizam nas Fontaínhas, S. Victor, Fontinha, Montebelo, Antas, Largo da Maternidade e Carvalhido. Esta localização está intimamente relacionada com a localização das grandes fábricas – tecelagens, curtumes, fundições, cortiça, louça, etc. – também estas interessadas nas infraestruturas de transportes entretanto melhoradas, tanto a via fluvial como o caminho de ferro.

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A Estação de S. Bento surge no início do século passado como um dos pontos de chegada da população migrante, vinda do interior rural, atraída pelo desenvolvimento industrial e comercial da Cidade do Porto.

A extensão do caminho de ferro ao centro da cidade e a construção da Estação de S. Bento remeterão definitivamente o centro urbano para uma área que desde o século XVIII se encontrava predestinada – a Praça Nova das Hortas/a Praça de D. Pedro/a Praça da Liberdade – provocando a descaracterização do burgo medieval, fazendo incidir sobre aquele local a iniciativa renovadora das primeiras Câmaras.

A beleza e imponência do edifício da estação serão as únicas atenuantes para tão grave esforço que a cidade ainda, após tantas décadas e tantas intervenções, parece não ter conseguido compensar. A obra do arquitecto Marques da Silva é uma peça requintada de arquitectura, construída, porém, à custa de um interessante convento e de parte das ruas do Loureiro e da Madeira.

A cidade sempre assistiu a uma certa euforia na apresentação de projectos inovadores, a maior parte das vezes percebendo-se uma acentuada dificuldade de concretização. As grandes obras deste período, a par do governo central (ex: estação de S. Bento), também são atribuídas à iniciativa privada (Bairro do Comércio do Porto).

Este pequeno enquadramento histórico, com esta vertente específica, vem a pretexto das notícias (por ex: [1] [2]) que surgiram ultimamente sobre a proposta de intervenção na estação e que (é sempre tão pouca a informação!) já motivou um parecer ou opinião do IPPAR e dos serviços camarários. Os locais de discussão não existem, a apresentação pública de ideias não faz parte dos planos dos nossos dirigentes e, como sempre, apenas um punhado de pessoas se permite discutir o tema, como é o caso da Baixa do Porto e particularmente nas preocupações de Teófilo M.

A velocidade e a forma como se cristalizam os disparates é tal que a nossa capacidade de reacção, já de si diminuída, nada pode para contrariar a irreversibilidade com que se dispõe do Bem Comum.

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É verdade, a estação, as ruas em redor, os passeios, os candeeiros que nos iluminam, SÃO NOSSOS. Razão pela qual deveríamos ser consultados e não apenas remetidos à resignação e aceitação de decisões elaboradas por pessoas cujas capacidades desconhecemos. A ter em conta a veia mercantilista que percorre a nossa classe política é fácil temer por dias negros, a juntar a tantos outros da história da cidade. Oportunidades desperdiçadas.

A nossa pontaria não se centra mais no conjunto edificado, mas diverge para o espaço envolvente da estação, cuja ferida provocada no tecido urbano ainda não se encontra sarada. Somos em crer que qualquer solução preconizada para este espaço da cidade deveria ter em conta o carácter histórico e urbano como forma de encontrar a melhor solução possível.

Consideramos ainda, que é tempo de compensar a população da Sé e do Centro Histórico pelo esforço que lhes foi induzido, olhar à sua volta e procurar responder às suas maiores necessidades, que muitas vezes passam por coisas simples: como um campo de jogos para os miúdos poderem brincar livremente; ou um pavilhão, uma vez que chove imenso durante o ano; um auditório ou apenas uma sala polivalente para as associações locais (as poucas que ainda subsistem) fazerem as suas peças de teatro ou os seus concertos… coisa pouca para empresas que se fartam de ganhar dinheiro com o Esforço Comum, oportunidade única para mostrarem algum Serviço Público.

Pelo meio estamos certos que não deixarão de ganhar uns trocos, umas moedas de ouro… é que estamos fartos de vendilhões neste Templo!