a estação central, por ssru

Durante quase toda a segunda metade do século XIX, a cidade vive um momento de grande desenvolvimento económico, motivado pela notória concentração industrial e comercial. A isto corresponderá um galopante aumento da população e o Porto, tal como todas as cidades em acelerado processo de industrialização, verá agravados os problemas de alojamento da população operária.

A resposta surge na forma de uma nova estrutura habitacional, com a construção de pequenas casas no interior de quarteirões existentes, densamente organizadas, a que se chama “as ilhas”. Espalhar-se-ão um pouco por toda a cidade, mas sobretudo nas freguesias à volta do núcleo central, cujos principais agrupamentos se localizam nas Fontaínhas, S. Victor, Fontinha, Montebelo, Antas, Largo da Maternidade e Carvalhido. Esta localização está intimamente relacionada com a localização das grandes fábricas – tecelagens, curtumes, fundições, cortiça, louça, etc. – também estas interessadas nas infraestruturas de transportes entretanto melhoradas, tanto a via fluvial como o caminho de ferro.

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A Estação de S. Bento surge no início do século passado como um dos pontos de chegada da população migrante, vinda do interior rural, atraída pelo desenvolvimento industrial e comercial da Cidade do Porto.

A extensão do caminho de ferro ao centro da cidade e a construção da Estação de S. Bento remeterão definitivamente o centro urbano para uma área que desde o século XVIII se encontrava predestinada – a Praça Nova das Hortas/a Praça de D. Pedro/a Praça da Liberdade – provocando a descaracterização do burgo medieval, fazendo incidir sobre aquele local a iniciativa renovadora das primeiras Câmaras.

A beleza e imponência do edifício da estação serão as únicas atenuantes para tão grave esforço que a cidade ainda, após tantas décadas e tantas intervenções, parece não ter conseguido compensar. A obra do arquitecto Marques da Silva é uma peça requintada de arquitectura, construída, porém, à custa de um interessante convento e de parte das ruas do Loureiro e da Madeira.

A cidade sempre assistiu a uma certa euforia na apresentação de projectos inovadores, a maior parte das vezes percebendo-se uma acentuada dificuldade de concretização. As grandes obras deste período, a par do governo central (ex: estação de S. Bento), também são atribuídas à iniciativa privada (Bairro do Comércio do Porto).

Este pequeno enquadramento histórico, com esta vertente específica, vem a pretexto das notícias (por ex: [1] [2]) que surgiram ultimamente sobre a proposta de intervenção na estação e que (é sempre tão pouca a informação!) já motivou um parecer ou opinião do IPPAR e dos serviços camarários. Os locais de discussão não existem, a apresentação pública de ideias não faz parte dos planos dos nossos dirigentes e, como sempre, apenas um punhado de pessoas se permite discutir o tema, como é o caso da Baixa do Porto e particularmente nas preocupações de Teófilo M.

A velocidade e a forma como se cristalizam os disparates é tal que a nossa capacidade de reacção, já de si diminuída, nada pode para contrariar a irreversibilidade com que se dispõe do Bem Comum.

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É verdade, a estação, as ruas em redor, os passeios, os candeeiros que nos iluminam, SÃO NOSSOS. Razão pela qual deveríamos ser consultados e não apenas remetidos à resignação e aceitação de decisões elaboradas por pessoas cujas capacidades desconhecemos. A ter em conta a veia mercantilista que percorre a nossa classe política é fácil temer por dias negros, a juntar a tantos outros da história da cidade. Oportunidades desperdiçadas.

A nossa pontaria não se centra mais no conjunto edificado, mas diverge para o espaço envolvente da estação, cuja ferida provocada no tecido urbano ainda não se encontra sarada. Somos em crer que qualquer solução preconizada para este espaço da cidade deveria ter em conta o carácter histórico e urbano como forma de encontrar a melhor solução possível.

Consideramos ainda, que é tempo de compensar a população da Sé e do Centro Histórico pelo esforço que lhes foi induzido, olhar à sua volta e procurar responder às suas maiores necessidades, que muitas vezes passam por coisas simples: como um campo de jogos para os miúdos poderem brincar livremente; ou um pavilhão, uma vez que chove imenso durante o ano; um auditório ou apenas uma sala polivalente para as associações locais (as poucas que ainda subsistem) fazerem as suas peças de teatro ou os seus concertos… coisa pouca para empresas que se fartam de ganhar dinheiro com o Esforço Comum, oportunidade única para mostrarem algum Serviço Público.

Pelo meio estamos certos que não deixarão de ganhar uns trocos, umas moedas de ouro… é que estamos fartos de vendilhões neste Templo!

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