a questão da mentalidade, por ssru

Temos vindo a procurar caracterizar o momento actual, o ponto a que se chegou e que se vive no Centro Histórico do Porto, nas suas diferentes vertentes, levantando algumas questões  e ‘chocámos’ com esta nota de Rui Valente a uma notícia sobre o BPN e Dias Loureiro, do Público de ontem, 14 de Fevereiro.

É por concordarmos com o teor desta nota que gostaríamos de lhe dar eco, solicitando deste já a Rui Valente a sua anuência para esta publicação, que poderá ser lida na íntegra em http://renovaroporto.blogspot.com/. Para além de se poder aplicar de uma forma transversal a toda a sociedade, esta é também uma questão complicada para nós, esta da ‘mentalidade’.

[ Em Portugal, as normas são viciadas à nascença. A norma mental do português-tipo, é: gerar dificuldades, para vender facilidades. Foi assim que muitos funcionários do Estado enriqueceram, extorquindo dinheiro e regalias aos cidadãos, por serviços para os quais já eram pagos. O Poder, ensandece todos por igual, desde o porteiro aos quadros mais altos. É a vida, dizem.

Na hierarquia política e civil, esta mentalidade espalha-se pela população, de cima para baixo, daqui resultando a tal fuga generalizada aos impostos, o desrespeito pelas regras de transito, etc. Só à força, é que lá vão. Vimos, o tempo que levou, até as pessoas se habituarem a colocar o cinto de segurança e a pararem nas passadeiras. Consciência cívica é uma chatice, porque, para o português mediano, é uma desonra respeitar os outros, quando interioriza que o respeito existe num único sentido, isto é: dos outros, para si.

Neste ambiente de «brandos costumes», onde os julgamentos são feitos na praça pública, antes dos tribunais, é inevitável que a tendência do povo se incline para fazer precipitados juízos de valor. Mas, convenhamos, que há pessoas que se põem a jeito, e pessoas que, pelo seu estatuto deviam esforçar-se por fugir destas armadilhas com alguma dignidade. Acontece que, nem o estatuto dessas pessoas é merecido nem a ideia que elas fazem da dignidade se aproxima dos padrões mínimos. A chico-espertice, é quase sempre a opção eleita que subalterniza e enegrece a dignidade.

Dias Loureiro, em todo este imbróglio dos bancos, e das “legalíssimas” offshores, decidiu – para se defender das suspeitas – optar pela técnica do, “resistir ou morrer”, convencido que, reiterando a sua inocência e não se demitindo do cargo de Conselheiro de Estado, se enobrece a ele, e ao Estado. Mas, engana-se infantilmente e dá mais um péssimo golpe de morte na já tão depauperada reputação da classe política.

Quem sou eu, para me comparar com personalidades do gabarito destes políticos, mas, modestamente, no lugar do “respeitável” Conselheiro de Estado, Dias Loureiro, se me sentisse inocente, demitia-me calmamente do cargo e deixava que a justiça se fizesse, mesmo correndo o risco de ser mal julgado, ou seja, tardiamente. Assim, persistindo nesta birra quixotesca, do antes quebrar que torcer, DL, não só acentua as suspeitas da sua culpabilidade como as transfere para a dignidade do Estado e do próprio Presidente da República.

Mas isso, sou eu a pensar em voz alta, porque, ao contrário destes iluminados, ainda não fui capaz (como eles «têm» sido), de mostrar valor para governar o país. E muito bem, como se confirma. ]

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foto do CRUARB

A Dona Maria era uma mulher da Sé, vestia de preto e vendia meias e collants, numa cesta onde outrora deve ter vendido o peixe fresco que ía buscar ao Bolhão. Quando compraram o edifício onde ela era inquilina e também ocupava ilegalmente o rés-do-chão, ficou muito preocupada. Clamou aos céus e conseguiu uma rica casa para onde foi realojada e uma rica indemnização por algo a que não tinha direito, mas que já fazia há muito, ocupando a lojinha. Meses depois ainda lá guardava umas cestas e abria aquelas portas onde se sentava à soleira a chamar as freguesas.

Ficou triste no dia em que foram lá para lhe mudar as fechaduras e a obrigaram a sair, porque ela “estava a ver se ‘chovia’ mais qualquer coisinha”, dizia.

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