os blogues e a cidade, por ssru

Na Gesto teve lugar o anunciado debate sobre o papel dos blogues na discussão da Cidade, na formação de opiniões e no tipo de intervenção que esta ferramenta favorece. Promovido pelo Bloco de Esquerda, contou com a participação de João Teixeira Lopes, a moderação de Paula Sequeiros e os representantes dos blogues ‘A Baixa do Porto’, ‘Os Meus Apontamentos’, ‘A Quinta Cidade’, ‘O Verde e o Cinzento’ e ‘ACdP‘. O resumo do debate pode ser consultado aqui.

A nossa participação foi previamente acordada e aceite pela organização, com o envio de um documento que focasse os temas propostos. Gostaríamos de salientar total concordância com o comentário feito pela 5ª Cidade, sobre o carácter (ainda) “elitista” dos presentes e dos leitores deste tipo de blogues, embora se note uma maior disseminação do uso da Internet. Já no começo da nossa intervenção neste sítio, chamámos a atenção para a importância da ferramenta que a Internet disponibiliza, no artigo “o enquadramento necessário“.

cavaleiros

Sem grandes surpresas aqui ficam os nossos comentários:

– que motivações para bloggar a cidade?

Contrariando as tristes palavras de um dos pilares do sistema não “existe e vegeta em nós um colunista ambicioso ou desempregado ou um mero espírito ocioso e rancoroso”. Certamente que não fomentamos “um prolongamento do magistério da opinião dos jornais”.

O tema escolhido foi certamente aquele que maiores marcas foi deixando em todos nós, ao longo dos anos – a degradação do local onde os nossos filhos vivem. Para articularmos sobre a cidade bastará por isso, debruçarmo-nos sobre ela desde a nossa janela. Cansados da nossa passividade e depois de muito debater sobre a melhor forma de intervir, tudo se conjugou num alinhamento de circunstâncias a que não é alheio o facto do Porto já contar com excelentes precursores que nos abriram o caminho e nos acolheram.

A Porto Vivo surgiu como mais um fôlego para quem tanto esperou por uma verdadeira e cimentada reabilitação integrada do Centro Histórico – Património da Humanidade – e da Baixa do Porto. Passados cinco longos anos os resultados práticos são deveras incipientes e assentes sobre falsas premissas que consideramos importante desmontar. Assim, assistindo passivamente à extinção das poucas instituições que ainda zelavam pelo CH (como foi o caso do CRUARB e da FDZHP), considerámos importante o nascimento de um “sítio” onde se pudesse intervir e lutar pela Salvaguarda do Património Mundial, não só o edificado ou o cultural, o económico, mas sobretudo o humano.

– pode um blog influenciar a maneira de pensar/viver a cidade?

A melhor forma de o conseguir é podermos colocar em palavras aquilo que a maioria das pessoas pensa ou sente. Exemplificar uma situação, clarificá-la, torna tudo mais simples, o que nem sempre é assim tão fácil conseguir.

Não aspiramos a grandes e radicais mudanças, instantâneas, mas antes, de uma forma cimentada e duradoura, a pequenas mudanças que de facto alterem o dia-a-dia daqueles que mais precisam de ajuda, desmistificando ainda esta forma de intervir na cidade como se fosse um couto privado de alguns.

Consideramos que neste momento o CH se encontra a saque, as propriedades mudam apenas de mãos, os maiores sacrifícios são para os particulares e a reabilitação é adiada à mercê da vontade de alguns que negoceiam de forma pouco transparente e atropelando a legislação em vigor. Alguns responsáveis pelo estado em que este se encontra, perderam totalmente a vergonha de dizer e fazer aquilo que antes pensavam com mais cuidado. Se antes não era tão notório, agora a coberto da ignorância e desinteresse da hierarquia reinante, tudo fica mais exposto.

– entendem que contribuem para a formação da opinião pública? de que forma? têm interacção com leitores?

O nosso público-alvo são os quadros técnicos que desempenham cargos públicos ou privados e que têm algum poder decisório nas suas mãos ou então que em breve poderão substituir os que agora mandam.

No entanto, verificamos cada vez mais a necessidade de escrever para um público mais abrangente, desde estudantes a simples cidadãos de todas as idades para os quais a Internet passou a ser um gesto rotineiro. Tudo começou de facto nas conversas de amigos que encontramos em muitas instituições, câmaras, jornais, televisão, bancos, etc. Neste momento temos necessidade de traduzir termos e linguagem mais técnica para uma outra que todos entendam. É talvez por isso que muitos dos assuntos nos são sugeridos por leitores que nos contactam por mail e que ainda que identificados nos solicitam o anonimato.

Consideramos por isso, enquanto cidadãos mais atentos e sensíveis aos problemas do Porto, que temos o dever, diríamos, a obrigação solene, de lutar por um lugar melhor e alertar os restantes membros da Comunidade para esses problemas, a maioria deles extremamente básicos como o direito à habitação; ou outros mais rebuscados para certas mentalidades, como o direito ao património cultural comum.

– a Net apresenta condições de liberdade de expressão? porque recorreram à Internet? quais as vantagens/limites desta tecnologia neste campo?

A expansão da blogosfera com as suas novas plataformas, como a que usamos, veio simplificar tudo. Até para os mais renitentes a facilidade de utilização desta ferramenta e a possibilidade de, com alguma sensibilidade, poder cuidar esteticamente da imagem do sítio, certamente contribuíram firmemente para a melhoria da comunicação a grande escala.

Nós somos os nossos próprios editores, os nossos próprios censores (acreditem, somos mesmo) e a mensagem que transmitimos está ainda assim sujeita a um sufrágio, que se contabiliza não só nas visitas que temos diariamente, como também em todo o retorno e interacção que mantemos com os nossos interlocutores. Evidentemente que, o facto de ter como assunto principal a defesa do Centro Histórico, de alguma forma limita o interesse mais amplo que um blogue generalista poderia alcançar.

– como se distingue essa eventual formação de opinião da que se faz com base na imprensa?

A destrinça faz-se ao nível sensorial, dentro de cada um no processo de formação de convicções. Quando lemos na imprensa que já se ouvem berbequins e martelos na Rua das Flores, indicando ao leitor que a reabilitação se encontra em marcha imparável, só mesmo descendo à rua é que poderão confirmar que a nossa contradição a esses dados é verdadeira, para além das inúmeras ilustrações que sempre nos preocupamos em fornecer.

O que é que isto quer dizer? Provavelmente aquilo que todos sabem, que a imprensa não está isenta e que também faz parte, em nossa opinião, do grande grupo silencioso de instituições e pessoas que não erguem a voz e não questionam o caminho para onde nos dirigimos.

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