a questão da responsabilidade, por ssru

Ao comentarmos um artigo no blogue “A Cidade Deprimente“, Carlos Romão, o seu autor, coloca-nos uma questão plena: que fazer perante tal? Explicávamos as intenções da Porto Vivo para o edifício fotografado (a casa onde nasceu o pintor Silva Porto) que, em perfeita “roda-livre”, prevê a sua descaracterização. Referimos: “(…) Estaremos próximos de dizer adeus a mais um exemplar da nossa memória colectiva, se tivermos em conta que o edifício é propriedade da Porto Vivo, que a própria SRU prevê no Documento Estratégico da Ponte Nova uma intervenção conjugada de diversas parcelas onde esta se incluí, sendo possível perceber a intenção, demasiado costumeira, de fachadismo que arrasa tudo o resto e ainda que, segundo notícias recentes, dinheiro não irá faltar para todo o tipo de atropelos (…)“. Carlos Romão assegura-nos: “(…) Pela minha parte fotografarei com mais afinco apesar de ter a consciência de que as imagens apenas servirão para memória futura. Uma coisa garanto, o que fotografo não se perderá, ficará em boas mãos (…)“.

À mesa com amigos, depois de respondermos a uma pergunta, exclamaram: Porque é que nunca ninguém nos explicou dessa forma!? Explicámos aos presentes, a pedido, o que pensamos sobre a intervenção que se está a operar no Quarteirão das Cardosas: um descalabro a todos os níveis. Um parque de estacionamento público (?) está neste momento a ser construído, mas ninguém explica que, uma vez que o hotel não tem espaço próprio para os lugares que lhe permite existir como tal, ele terá que afectar lugares que deveriam ser públicos, destinados a nós todos; Para se proceder a esta obra pesada e intrusiva, foi necessário expropriar um número elevado de parcelas, a maioria parcialmente, outros totalmente e podemos dizer que a quase todos os interessados deve ter saído a ‘sorte grande’, porque no final a contestação foi residual, ou seja, foram gastas somas avultadas; À superfície do parque de estacionamento nascerá uma praça interior, como se fosse aquilo que a envolvente não tivesse em excesso, com a Praça da Liberdade, a Praça de Almeida Garrett, a parte pedestre da Rua das Flores e ainda o Largo dos Lóios; Será uma praça com características especiais uma vez que a emoldurá-la estarão todas as traseiras dos prédios que a envolvem; Terá um atravessamento feito com o sacrifício de, pelo menos, esventrar dois edifícios, como se o espaço a percorrer pelo exterior do quarteirão merecesse este agravamento, quer pela distância ou pela fealdade do percurso; A emoldurar o percurso interior estarão “lojas de luxo” (?) como se a fórmula mágica para o sucesso renegasse as lojas que existem em frentes de rua (que agora definham) a favor de espaços interiores de passagem (de luxo). Há uma evidente proeminência para privilegiar os utentes do hotel e mesmo o anunciado, em alternativa, centro de acolhimento turístico (o maior da Europa?), também assim pretende induzir; Em resumo trata-se de uma intervenção “oca”, mais uma zona cinzenta para resolver no futuro. Os nossos amigos, ainda estupefactos, prometeram ficar mais atentos a estas questões.

Consideramos sempre salutar assistir a seminários e conferências para ouvir, discutir e conversar vários temas, enquadramentos e opções sobre o quotidiano social, cultural, histórico, arquitectónico, urbanístico das cidades. Contudo, sempre que o fazemos, é com alguma perplexidade que sentimos estarmos de porta fechada. E no entanto a cidade e os acontecimentos/intervenções arquitectónicas nos centros históricos, no âmbito das SRU’s, estão aí a acontecer e não se ouve o mínimo ruído contestatário, ou eventualmente abonatório, sobre a forma como decorrem essas intervenções. Diríamos que a imagem mais semelhante com o que está a acontecer foi a imagem de uma fachada sobrevivente à catástrofe da Guerra Civil Espanhola, ou, uma eventual simulação de pequenos meteoritos que caem no miolo dos quarteirões para permitir uma nova cidade ainda mais densa, escondida pelas fachadas, que na medida do possível se tentam manter, recriando um CENÁRIO, como um museu urbano em cera, profundamente vazio e falso.

Um nosso leitor, na sequência do artigo anterior, da rubrica “tolerância zero”, enviou-nos o seguinte comentário: “(…) fico pasmado com a informação que nos fornecem neste vosso post. Verdadeiramente pasmado. Não há mesmo nada que nós, cidadãos comuns, possamos fazer em relação a essas obras ilegais? É inacreditável. (…)

Seria desejável que apenas uma das muitas personalidades mais influentes desta Cidade (e/ou outras) se debruçasse sobre este tema, porque a transformação profunda é actualmente muito rápida apoiada nos fundos europeus que a patrocinam. Ao tempo de Fernando Távora o País precisava de uma Voz crítica sobre “O Problema da Casa Portuguesa”. Neste tempo, HOJE, o país precisa de uma voz crítica sobre “O Problema das Intervenções nos Quarteirões dos Centros Históricos Efectuadas pelas SRU’s”. O contexto político e económico não se afigura o mais propício para que vozes se levantem a criticar. O cenário é bem mais aterrador quando damos conta que vivemos num País estruturalmente desagregado e em risco de falência, também a económica, mas com bancos a terem lucros diários de 4 milhões de euros. Vivemos ainda numa cidade que acordou sobressaltada com quatro corpos carbonizados num prédio do Centro Histórico, com vistas privilegiadas para o seu ex-libris e que apenas nos arrancou, quando muito, uma dobra na testa ou um esgar de tristeza, já esquecido. Nada mais. Nada mudou. Nada nunca muda…

A Ordem dos Arquitectos, a Ordem dos Engenheiros, os Arqueólogos, os Historiadores, as Faculdades, as pessoas de todas essas instituições a título individual, ninguém. Álvaro Siza nada diz de concreto, Souto Moura, Germano Silva, etc., gente com estatuto bastante, com idade e desimpedimento suficiente para não serem incomodados por se pronunciarem, sabendo o impacte que tem as suas opiniões. E depois temos o Conselho Consultivo da Porto Vivo: Agostinho Barrias, Artur Santos Silva, Eduardo Guimarães de Oliveira Fernandes, Emídio Gomes, Francisco José Barata Fernandes, Helder Pacheco, José Angelo Novais Barbosa, José Diogo Marques dos Santos, Luís Braga da Cruz, Luís Valente de Oliveira, Manuel Fernando Macedo Alves Monteiro, Manuel Joaquim Pinho Moreira de Azevedo, Miguel Veiga, Nuno Grande, ninguém se interroga! Temos ainda os partidos políticos, que não batem à porta da Porto Vivo e perguntam o que está a ser feito e em que condições, que mudanças se estão a operar na estrutura da Cidade, certamente de uma forma irreversível.

A comunicação social também não está isenta e faz parte, em nossa opinião, do grande grupo silencioso de instituições e pessoas que não erguem a voz e não questionam o caminho para onde nos dirigimos. Quando o faz é de forma irresponsável e atrapalhada, induzindo os públicos em erros no seu processo de formação de opinião. Atente-se no exemplo de uma notícia, de um jornal abrangente como o Metro, quando diz “Ourivesaria renovada em tempo recorde – Edifício histórico recuperado em sete dias“. Sabemos bem que não é assim, mas quem por lá passou ficou com a certeza do quanto este discurso é errado. O autor deste projecto também tem responsabilidades, sendo quem é, mas sobretudo não devia ter cedido à tentação de encapotar um licenciamento (alteração das fachadas do rés-do-chão e sobreloja) através do programa de comparticipação das obras, o RECRIA, que não o substitui.

Sem perder a honestidade mental, que é o nosso único trunfo, a nossa responsabilidade passa por expormos os assuntos dizendo verdades, podendo dizer mentiras, mas não o fazendo.

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