o nosso quintal, por ssru

No nosso quintal somos nós que mandamos e as regras são muito claras. A forma como ele se apresenta, os odores que exala para a atmosfera, as espécies da flora que dele fazem parte, as construções que o emolduram, a limpeza de todo o espaço e dos muros que o delimitam, tudo isso é da nossa responsabilidade.

Quando o limpámos pela primeira vez, parecia uma nova cidade que se desvendava ali naquele pequeno logradouro. De início foi bastante complicado mantê-lo assim e o Tempo parecia nunca mais querer virar a página. Com demasiada frequência “choviam” sacos plásticos com lixo, vindos das casas dos vizinhos, tão habituados que estavam a fazer dele um depósito a céu aberto.

Sem parar de limpar, tentamos a sensibilização que resolveu uma grande parte do problema. Depois veio a mediação para acabar com mais uma mão cheia de casos. Mais tarde, para o mais renitente dos vizinhos, a ameaça de processo judicial deu os seus frutos. Nunca devolvemos pelo mesmo modo, os embrulhos que nos chegavam por via aérea, nem mesmo quando a vontade era muita. E esse importante gesto marcou toda a diferença.

estes vidros foram recolhidos pelo dono da casa em frente, que nem é de bebidas!

A cidade tem sido invadida por um lixo manhoso, que as autoridades municipais (ou privadas) se têm preocupado por manter discretamente longe do nosso olhar. Quando o Porto acorda já as ruas estão varridas e, quando muito, vemos passar a carrinha que recolhe os sacos pretos com lixo a tilintar, ao som do vidro dos copos e garrafas partidas. Copos, garrafas, restos de bebida ou de comida, pairam na via pública como se dela fizessem parte e não da mesa de esplanada ou do interior do estabelecimento, que no final do dia são recolhidos pelo pessoal de serviço. É a chamada “noite dos pirilampos”.

Preocupada com o problema de higiene e segurança do “seu quintal”, a ABZHP veio exigir o fim do uso de embalagem de vidro no exterior, fora dos espaços concessionados: “(…) Cada vez mais se vêem vidros na rua, seja no centro do Porto, em Albufeira ou no Bairro Alto, em Lisboa. E está a atingir proporções tais que começa a preocupar. (…) A verdade é que há pessoas que largam as garrafas em qualquer lado e há quem se aproveite disto, porque uma garrafa pode ser utilizada como uma arma. Já há quem ameace com garrafas, da mesma forma que outros ameaçam com seringas (…)”, diz o seu presidente.

Agrada-nos a ideia de cada um procurar resolver os seus problemas, em vez de, denunciando uma mais ou menos explícita agenda política, “meter a foice em seara alheia”. Mesmo quando a solução encontrada não é a melhor, como neste caso acontece. Aqui a solução passou por pedir ao Ministro da Administração Interna que “limpe o quintal” da ABZHP com um documento legal, de carácter persecutório, que obrigue, que condicione, que impeça o uso de embalagens de vidro fora dos locais permitidos, como se o problema estivesse no material e não no uso indevido que se lhe dá. Como se as leis necessárias e suficientes já não existissem e apenas estejam à espera de serem utilizadas, tal como acontece em qualquer país civilizado onde os cidadãos que sujam pagam pesadas multas (alguém viu um polícia a passar este tipo de multas em Portugal?).

Sabemos bem que não é no fim da linha que reside o problema, mas sim a montante, quando os próprios estabelecimentos facilitam certo tipo de comportamentos abusivos (deixando sair os copos e garrafas de vidro) por parte de pessoas com um nível de princípios muito próximo do básico. Sim, qualquer pessoa que polui o espaço que utiliza e partilha com outros é um “basaroco”. Simples questão de cidadania.

A qualquer membro desta administração (como a tantas outras pessoas) tem sido possível frequentar as ruas e bares da cidade sem que se sinta impelido a conspurcar o espaço público, ainda que quase toda a gente o faça, ainda que o nosso lixo possa não constituir qualquer tipo de inconveniente maior ou agravante perante o mar de detritos. É mais ou menos como escarrar… ou urinar…

É que no nosso “quintal” ainda somos nós que mandamos e a rua também tem dono!

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Um pensamento sobre “o nosso quintal, por ssru

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