a negligente protecção, por ssru

Ainda gagos e mal refeitos do último incêndio que poucos dias antes tinha dizimado 20 casas da Zona Histórica do Porto, ali às Fontaínhas, somos confrontados com este espectáculo flamejante que reduz a cinzas dois edifícios, afectando um terceiro, na Rua da Bainharia, uma das vias medievais do Centro Histórico do Porto.

A Rua da Bainharia corresponde à antiga via veteris, a estrada romana de ligação entre Lisboa – Braga e ao longo da época medieval já se encontrava totalmente construída por edifícios de parcela estreita de frente e comprida de lote.

As três parcelas atingidas, situadas entre os números 95 e 107, correspondem a dois edifícios com o rés-do-chão em granito e os andares superiores em taipa, tipologia arquitectónica própria das edificações até ao século XVI, na Cidade do Porto. No edifício do meio, a fachada de granito foi construída em meados de 1650 e apresentava os característicos cachorros a suportarem as sacadas (varandas) e era rematado no último piso com cachorros a apoiarem uma cornija e gárgulas nos extremos. Este tipo de edifícios fazem parte integrante do Centro Histórico do Porto, classificado como Património da Humanidade e conseguiram sobreviver à tentação de alargamento da Rua da Bainharia, em parte concretizado perto da Rua do Souto.

O edifício onde se iniciou o incêndio, propriedade da Câmara Municipal do Porto, que pelo menos desde 2001 (via fotografia aérea) necessita de obras urgentes, atingiu finalmente o seu auge de degradação: aos maus-tratos acumulados pelo abandono e pelo tempo; juntamos a acção purificadora do fogo; imediatamente seguida na libertação pela água das agulhetas dos bombeiros; glorificada pela exponencial sensibilidade de segurança de um qualquer membro da Protecção Civil – a segurança sempre em primeiro lugar. É curioso constatar o “jeito” que os responsáveis pela protecção civil dão à entidade encarregue de promover a reabilitação do Centro Histórico e em particular destes três edifícios, para os quais designou em Documento Estratégico uma “intervenção conjugada”, pois desta forma ficou livre de constrangimentos de recuperação do património e poderão concretizar mais facilmente um projecto imobiliário pseudo-moderno, que no caso do Porto já existem antecedentes parolos como o “Pátio Luso”.

A fachada do edifício em granito foi empurrada para o seu interior tendo-se danificado a maioria das pedras trabalhadas. Esta fachada demolida dificilmente estaria em situação de ruína eminente porque a sua espessura corresponderia a 65 – 70 cm, situação que se verifica em vários edifícios no Porto e que até hoje não caíram. Aliás é difícil perceber, nesta senda demolidora, terem deixado ficar a parede de meação que trava as fachadas e que é sensivelmente mais estreita que a anterior, ou ainda, a razão de ter ficado a fachada para a Viela do Anjo, mesmo com pedaços de construção pendurados.

Seria útil poder confrontar estas evidências com o relatório da Protecção Civil que sustentou a demolição da fachada, dando continuidade à sequência de violações sobre um Centro Histórico classificado, cujas demolições, por esse facto proibidas, poderem ainda assim ser feitas sem o acompanhamento e supervisão de um técnico perito em património (que provavelmente a mandaria escorar!).

Sequência lógica que é retomada dias depois (a que não é alheio o mês em que estamos), na demolição de um edifício vizinho na Rua dos Mercadores, de maior valor arquitectónico, algo que justifica uma abordagem individualizada num próximo artigo.

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