a passadeira assassina, por ssru

Como vulgares indigentes, o Presidente da Câmara do Porto e restante comitiva “grafitaram” o lancil de uma passadeira da cidade. Os grafitos destinados aos peões, lembrando-lhes aquilo que os automóveis são capazes de fazer quando andam todos descuidados – condutores e peões – surgem no âmbito do programa “Atenção, somos todos peões”, uma iniciativa do ACP (claro!) que decorreu na Semana Europeia da Mobilidade, de 16 a 22 de Setembro.

“(…) Segundo declarou o Presidente da CMP – “a primeira acção efectuada justamente nesse âmbito” e de acordo com “uma ideia importante e meritória do ACP” que visa “assinalar um conjunto de passadeiras de peões, chamando a atenção para o facto de muita gente ainda hoje morrer atropelada. “Ao chocarmos as pessoas com essa mensagem estamos a protegê-las e a ajudar que elas próprias se protejam”, acrescentou. (…)”

Não havia necessidade…! Se bem que todas as ajudas são poucas para evitar tamanha desgraça que é morrer na estrada como um animal, longe dos entes queridos, sem ninguém poder fazer nada, mas não… não havia necessidade! Com tanto para fazer de prioritário e realmente útil em defesa dos peões e dos automobilistas e andam a grafitar os lancis de granito das passadeiras, juntando-se na esquina a bater palmas uns aos outros e a proferir uns disparates.

Importante é aquele estudo sobre “Segurança Rodoviária no Porto” que encomendaram ao Instituto da Construção, onde são assinalados cerca de 20 pontos negros da cidade e propostas formas de resolução. Deveras útil é aquele outro que revela que um em cada cinco condutores do Grande Porto admite ter cometido infracções rodoviárias, como atender o telemóvel em viagem, conduzir em excesso de velocidade ou estacionar irregularmente. Um quinto é muita gente!!!

Efectivamente, dizem os especialistas que o automóvel já conquistou 70% do espaço público existente nas cidades, onde apenas coabitam condutores e peões, em vez de cidadãos. Num artigo do Público, do passado fim-de-semana, com uma entrevista a Francisco Cárdenas que, com a Agência de Ecologia Urbana de Barcelona tem trabalhado com cidades portuguesas, retivemos as seguintes perguntas e respostas:

O que propõe? Para que um carro não passe numa rua há muito poucas soluções. A única que vejo, na verdade, é impedindo-o, fisicamente. O estacionamento e as portagens já são utilizados (estas de forma algo injusta). As outras são repensar as vias, de maneira que os veículos não passem por onde querem. É a ideia dos quarteirões – à volta deles é possível circular, dentro não.

De quem é a responsabilidade? É um pouco de todos. Dos políticos em primeiro lugar, claro, mas é uma decisão que muitas vezes nem no Governo do país está, diz respeito à Europa. A grande dificuldade é que é um projecto a longo prazo e os políticos não têm coragem de assumir esse compromisso. Perderiam eleições.

Que parte cabe ao cidadão? Cabe a parte de reivindicar a cidade para si, de reivindicar o direito de sair à rua sem medo de ser atropelado, de poder caminhar numa cidade com qualidade de ar, sem ruído excessivo. É preciso consciencializarem-se de que não podem circular por todo o lado e ainda ter tudo.

O que prevê que aconteça, caso este modelo de cidade se mantenha? Será insustentável. Gostaria de saber o que vai acontecer quando o barril de petróleo estiver outra vez a 200 euros, quando for um bem escasso… e nós continuarmos a depender dele. Em menos de 20 anos os recursos acabam. Agora, vivemos como se os recursos fossem infinitos, fazemos cidades como se a energia fosse infinita, como se a tecnologia resolvesse tudo. E olha-se para o PIB e parece que está tudo bem. Se se vendem mais carros, é possível que ele cresça. A ver se começamos a mudar mentalidades. Não é nada fácil. É que há pessoas que aqui [aponta para a cabeça] a única coisa que têm é um automóvel.

Mas desviando um pouco o tema da Mobilidade, que merece da nossa parte uma outra reflexão, remetendo para verdadeiras teorias da conspiração, foquemos o horizonte deste artigo nas passadeiras do Centro Histórico. Não sabemos ao certo quantas são. Sabemos que a sua maioria se encontra em péssimas condições de segurança e visibilidade, susceptíveis de agravar o risco de acidentes. A maioria não tem rampas ou rebaixos para pessoas com mobilidade reduzida, há passadeiras enormes sem separador central ou qualquer outra compensação, a sinalização vertical é escassa e deficiente, a horizontal no pavimento, praticamente inexistente. Apenas nas zonas que sofreram intervenções urbanas recentes, desde a Porto2001, poderão ostentar algumas melhorias em matéria de acessibilidades. Alguns casos mais caricatos presenteiam-nos um dos passeios composto e do outro lado da passadeira tudo na mesma, como é o exemplo ridículo do Largo de S. Domingos e do arranjo do passeio do Palácio das Artes. O caso da travessia da Praça de Almeida Garrett em direcção à Praça da Liberdade é também bastante paradigmático. Por alguma razão havia lá antes uma passagem subterrânea que desaguava num e noutro passeio da antiga Praça Nova, tendo desaparecido com a justificação das obras do Metro, após um envelhecimento e abandono negligentes, contribuindo para o desassossego diário de quem tem que percorrer este espaço público. Existirá, porventura melhor justificação para a existência de uma passagem subterrânea pedestre do que o próprio Metro, salvaguardando a vida e segurança dos peões, retirando constrangimentos à superfície a quem circula de automóvel, dado o afluxo constante de pessoas que sai e entra na Estação de S. Bento?

Circular nas vias de maior tráfego do Centro Histórico, quer como peões ou condutores, é uma aventura inesquecível. Estamos a falar do eixo vertiginoso formado pela Rua dos Clérigos, Praça da Liberdade, Praça de Almeida Garrett, Rua de Mouzinho da Silveira e Rua do Infante D. Henrique.

Dia após dia, ano após ano, vidas após vidas, tudo se resume a uma mera passadeira no cruzamento com a Rua de S. João, que ninguém quis ou soube ainda resolver e que tem “assassinado” a paciência e as horas de vida de tantos, quer para atravessar de e para a Ribeira, como para entrar ou sair do Túnel. Tudo o resto sofre por acréscimo.

Há aqueles que querem colocar quatro faixas de rodagem em Mouzinho da Silveira (???), os que preconizam uma rotunda (???) para o entroncamento com a Rua do Infante D. Henrique e até já houve quem desejasse demolir (???) os edifícios do lado Norte da Rua do Clube Fluvial Portuense para alargar à saída do túnel.

E por fim há aqueles (se calhar são os mesmos!) que querem construir uma “Cidade Subterrânea”, um túnel rodoviário e de estacionamento, de proporções descomunais, no subsolo dos edifícios do Morro da Vitória. Como se à superfície tudo estivesse resolvido ou assim viesse a ficar…

Por isso, não gozem com a nossa cara, deixem-se de parvoíces, mandem limpar o lixo que fizeram e aproveitem para marcar a diferença e melhorar o inferno em que vivemos. Isto é uma reivindicação!!!

a esplanada ali parada, por ssru

Estando ali parada aquela esplanada, à espera que alguma desgraça lhe aconteça, ainda assim, menor do que o mal de ter sido feita, enquanto tantos falam e ajuízam, muitos sem a correcção e rigor que se exige, nós preferimos esperar por este momento mais propício para dela vos falar, numa história de escárnio e maldizer.

foto@live search maps

Corria o ano de 2005, quando chega a esta mui nobre e sempre leal cidade um casal de imigrantes, iludidos pelo pregão que andava por todo o lado – “AMAR A BAIXA” – um dos primeiros utilizados para “embrulhar” aquilo que a Porto Vivo chama de reabilitação urbana. Chegaram dispostos a adquirir um edifício na Praça de Parada Leitão, com os soldos amealhados, para nele viverem e trabalharem, tal como há um século atrás se fazia. Passado que estava o “cabo das tormentas” que representa sempre um licenciamento camarário e a realização de uma obra nesta Cidade, eis que surge uma estrondosa inauguração com a comparência da nata da sociedade portuense. Nessa noite de chuva, a concorrência vizinha tremeu pela primeira vez!

O negócio corria bem, a esplanada de estilo parisiense (com os seus aquecedores exteriores a gás) estava sempre bem composta e a adesão do público era perfeita. A concorrência voltou a tremer. Pouco tempo depois, preocupada com a situação e sob o pretexto do centenário que se aproximava, a concorrência foi falar com os amigos da câmara, Rui e Lino (Lino e Rui), à procura de uma solução para tão grave desfeita. Avançaram os fiscais para mandarem desmontar a esplanada parisiense, sempre bem composta de clientes. Mas… e esta história tem alguns, a esplanada estava autorizada pela Câmara e perante a insistência na desmontagem, foram todos para o Tribunal discutir onde estava o busílis da questão. Ao que tudo indica do Tribunal veio a sentença, mandando os fiscais recuar.

Por força desse contratempo, o amigo Lino convoca uma reunião com todos os comerciantes da Praça, sem que alguns soubessem ao que iam. Com o seu tom de voz, típico de quem tem que se defender daquilo que não domina, impõe a todos uma solução, vinda sabe-se lá de que cartilha e feita por um arquitecto, desencantado sabe-se lá onde. Não havia muita escolha, era aquilo ou nada. Nessa reunião, ficou então decidido que se avançaria com aquela proposta, encabeçada pela empresa que gere o “Piolho”. Os restantes empresários, cansados e desfalcados, acederam…

Em boa verdade, o que lá se encontra construído não é uma esplanada, ou seja, uma instalação de mobiliário e acessórios de exterior, de carácter precário e removível a todo o tempo, próprio para os períodos em que o clima favorece uma utilização ao ar livre. Carece de licenciamento do Departamento Municipal do Urbanismo porque o que acabou por ser ilegalmente construído são anexos (em espaço público), construções complementares dos respectivos estabelecimentos privados, envolvendo uma estrutura composta por sapatas, pilares e vigas, enclausurada por caixilhos de alumínio e vidro duplo. Corrigindo alguns erros jornalísticos e não só, a “esplanada” carece de parecer da Administração Central porque as construções se situam na Zona Histórica do Porto, Imóvel de Interesse Público, assim classificado [Portaria n.º 975/2006, DR, 2.ª, nº 113, de 12-06-2006 / Decreto n.º 67/97, DR n.º 301, de 31-12-1997], conforme se percebe na página do IGESPAR. Não apenas por se encontrarem na área de protecção das Igrejas, ou, ainda mais perto, do edifício da Reitoria. Se fosse só por estas razões cremos que a DRCN talvez não tivesse tantos argumentos para reprovar tal pedido uma vez que, segundo o PDM (esse documento que ninguém se dá o trabalho de consultar e cumprir) nem as Igrejas nem a Reitoria se encontram ainda classificadas.

Praça de Parada Leitão, Domingos Alvão - sem data

Em nossa opinião, o que interessa reter é que todos os intervenientes ficaram mal na fotografia:

1. Em primeiro lugar o ex-Vereador do Urbanismo e toda a equipa camarária, os que tiveram intervenção directa e aqueles que se encolheram, ao contrário daquilo que fazem todos os dias com os restantes cidadãos, para quem só sabem ser implacáveis. Num acto típico de “chico-esperto”, numa manobra de variedades, promoveram uma situação ilegal e dispensável para contornar o inevitável – o parecer negativo da DRCN.

2. A DRCN embora tenha mostrado que está viva e é feita de pessoas e não de máquinas que emitem pareceres, tendo ainda dado a cara, na pessoa do seu Director, da Direcção de Serviços de Bens Culturais, reagiu tarde demais porque continua a utilizar a máxima de só reagir “oficialmente”, sabendo que isso não chega. No primeiro dia de obras devia lá ter estado e impedido que se iniciassem (conforme alínea l), do n.º 1 do artigo 2º da Portaria nº 373/2007 de 30 de Março).

3. O técnico autor de tal projecto que veio, mesmo depois de todas as críticas e do “chumbo” da DRCN, defender o indefensável com argumentos próprios de quem se deixa embarcar numa aventura política destinada ao fracasso. Com isto violou dois ou três artigos dos Estatutos a que se obrigou respeitar, mas não deve temer um processo disciplinar pois tem uma Ordem dos Arquitectos perfeitamente ineficaz nesta matéria (apenas é eficaz a processar os jovens que não pagam as cotas). Deveria ter sabido estar acima da politiquice e recatar-se, pois a lei não muda só porque um vereador assim o deseja.

4. Os comerciantes que aceitaram sem hesitar uma solução imposta pelo ex-Vereador do Urbanismo, para poderem obter os maiores lucros sem olharem a meios, mesmo que isso significasse a desvalorização de um Bem Comum com o qual têm mais a ganhar se o salvaguardarem. Alguns só tiveram mais olhos que barriga…

5. Aos partidos da oposição preferimos não tecer grandes comentários, sob pena de errarmos por defeito, tal como eles têm errado. Tem sido uma mera gestão jornalística que os tem motivado, nada mais!

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Concluindo, não sabemos se os anexos irão ser demolidos ou não, mas sabemos quem irá pagar as contas se a demolição acontecer. Uma vez que o Dr. Lino já foi castigado com um cargo executivo na Junta Metropolitana do Porto e já cá não está, só restam os do costume: os portuenses!

o combate desigual, por ssru

“A força do anonimato não reside no seu expandir-se, mas antes no seu voltar-se sobre ela mesma. Então, e precisamente por isso, torna-se necessário falar de uma interioridade comum. A interioridade comum não é, contudo, um espaço interior a descobrir, uma verdade a revelar. A interioridade comum é tensão, o auto-dinamismo do que é inacabamento, o formalismo do querer viver. Por isso o nosso propósito não deve ser desvelar a interioridade comum como se de algo de obscuro se tratasse, mas sim activar o formalismo. Activá-lo para podermos reinventar-nos como seres anónimos no interior de cada um de nós.” Santiago López-Petit, “A Mobilização Global”, tradução e comentários de Rui Pereira, Deriva Editores, Abril 2010.

foto@http://www.humbertodelgado.pt/WebFHD/Fotografias/ConsultaFt.jsp?id=2

[Em que momentos da nossa História, dos últimos cem anos, nos perdemos enquanto Povo? Terá este ano de 1958 sido um deles?]

O centésimo artigo agora publicado neste sítio, na mesma data em que se comemora o centenário da Republica, pretende ser um marco introspectivo da nossa intervenção no espaço público, enquanto cidadãos.

Não são poucas as vezes em que os membros da SSRU se interrogam sobre a sua participação na Sociedade. Desde logo, porque a intervenção de cada um na “rés publica” não é tarefa fácil, porque se sente simultaneamente livre, mas cercada, pela sua “estatutária” condição anónima. Perde-se, assim, na dúvida da sua autêntica produtividade cívica.

Na antiga Cidade, os cidadãos, aqueles que acediam à discussão pública e à deliberação, eram livres e iguais. A política fazia-se à vista de todos, o que se escondia e protegia das vistas alheias era a intimidade. A Cidade contemporânea não é assim. O que percebemos é que, pelo contrário, a Cidade contemporânea inverteu tudo isto. Estamos, por um lado, entregues à publicidade do íntimo e do privado que transforma a nossa vida quotidiana numa constante novela cor-de-rosa, enquanto o público e o político, essa construção da Cidade que deveria interessar e envolver todos, se faz na falta de transparência quando não mesmo na escuridão absoluta dos gabinetes, e no acesso privilegiado de uns poucos aos processos de tomada de decisão.

A política está, pois, transformada num jogo de gato e rato, do qual apenas vem a público aquilo que ou é de compreensão fácil, logo, facilmente absorvido pela massa popular (especialmente atraente, para os políticos, quando, num rápido passe de mágica, lhes melhora a “imagem pública”), ou o que é tão complexo, que a massa popular alegremente prefere deixar aos políticos para que decidam. E assim se perpetua um domínio dificilmente escrutinável dos processos de decisão quotidianos, perante uma massa que se deixa adormecer pelo canto da sereia populista e se entrega docilmente nos braços de quem, realmente, tem o poder de tomar decisões complexas que deveriam envolver todos.

Há, depois, aqueles que, percebendo também como é que estas decisões se tomam, poderiam assumir a condução pública da sua discussão. O problema é que esses têm, invariavelmente, de se remeter ao anonimato, sob pena de fazerem perigar irremediavelmente o seu próprio futuro pessoal, profissional e social. O preço a pagar pode ser, muitas vezes, demasiado alto.

Esses têm uma de duas alternativas: ou se calam ou se manifestam. A maioria será mesmo silenciosa, cala porque é mais fácil, cala porque o lavar das mãos é mais higiénico e dá menos dores de cabeça. Mas há uma minoria inquieta que se pergunta, constantemente, como é possível que os cidadãos sejam tantas vezes, e de forma tão escandalosa, enganados pelas supostas bondades dos decisores políticos. Essa minoria inquieta manifesta-se, mas raramente o pode fazer sem se defender sob a máscara do anonimato. Sem se esconder. E é aí que está o problema que aqui decidimos reflectir. Valerá mesmo a pena a denúncia anónima da realidade? Não será, apenas, a denúncia anónima da realidade uma forma de aligeirar o peso de uma consciência que não se consegue libertar, de facto, para agir? Não será a denúncia anónima da realidade a forma mais cómoda do “status-quo” se perpetuar, gozando da sua posição privilegiada, pública, que lhe permite classificar os outros como “cobardes”, quando a verdadeira cobardia reside nos que escondem as verdadeiras intenções e projectos subjacentes às suas tomadas de decisão?

Estas são, também, inquietações que percorrem os membros desta Sociedade. Porque ela não é eficaz sendo anónima, mas desaparecerá rapidamente se não o for.