o combate desigual, por ssru

“A força do anonimato não reside no seu expandir-se, mas antes no seu voltar-se sobre ela mesma. Então, e precisamente por isso, torna-se necessário falar de uma interioridade comum. A interioridade comum não é, contudo, um espaço interior a descobrir, uma verdade a revelar. A interioridade comum é tensão, o auto-dinamismo do que é inacabamento, o formalismo do querer viver. Por isso o nosso propósito não deve ser desvelar a interioridade comum como se de algo de obscuro se tratasse, mas sim activar o formalismo. Activá-lo para podermos reinventar-nos como seres anónimos no interior de cada um de nós.” Santiago López-Petit, “A Mobilização Global”, tradução e comentários de Rui Pereira, Deriva Editores, Abril 2010.

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[Em que momentos da nossa História, dos últimos cem anos, nos perdemos enquanto Povo? Terá este ano de 1958 sido um deles?]

O centésimo artigo agora publicado neste sítio, na mesma data em que se comemora o centenário da Republica, pretende ser um marco introspectivo da nossa intervenção no espaço público, enquanto cidadãos.

Não são poucas as vezes em que os membros da SSRU se interrogam sobre a sua participação na Sociedade. Desde logo, porque a intervenção de cada um na “rés publica” não é tarefa fácil, porque se sente simultaneamente livre, mas cercada, pela sua “estatutária” condição anónima. Perde-se, assim, na dúvida da sua autêntica produtividade cívica.

Na antiga Cidade, os cidadãos, aqueles que acediam à discussão pública e à deliberação, eram livres e iguais. A política fazia-se à vista de todos, o que se escondia e protegia das vistas alheias era a intimidade. A Cidade contemporânea não é assim. O que percebemos é que, pelo contrário, a Cidade contemporânea inverteu tudo isto. Estamos, por um lado, entregues à publicidade do íntimo e do privado que transforma a nossa vida quotidiana numa constante novela cor-de-rosa, enquanto o público e o político, essa construção da Cidade que deveria interessar e envolver todos, se faz na falta de transparência quando não mesmo na escuridão absoluta dos gabinetes, e no acesso privilegiado de uns poucos aos processos de tomada de decisão.

A política está, pois, transformada num jogo de gato e rato, do qual apenas vem a público aquilo que ou é de compreensão fácil, logo, facilmente absorvido pela massa popular (especialmente atraente, para os políticos, quando, num rápido passe de mágica, lhes melhora a “imagem pública”), ou o que é tão complexo, que a massa popular alegremente prefere deixar aos políticos para que decidam. E assim se perpetua um domínio dificilmente escrutinável dos processos de decisão quotidianos, perante uma massa que se deixa adormecer pelo canto da sereia populista e se entrega docilmente nos braços de quem, realmente, tem o poder de tomar decisões complexas que deveriam envolver todos.

Há, depois, aqueles que, percebendo também como é que estas decisões se tomam, poderiam assumir a condução pública da sua discussão. O problema é que esses têm, invariavelmente, de se remeter ao anonimato, sob pena de fazerem perigar irremediavelmente o seu próprio futuro pessoal, profissional e social. O preço a pagar pode ser, muitas vezes, demasiado alto.

Esses têm uma de duas alternativas: ou se calam ou se manifestam. A maioria será mesmo silenciosa, cala porque é mais fácil, cala porque o lavar das mãos é mais higiénico e dá menos dores de cabeça. Mas há uma minoria inquieta que se pergunta, constantemente, como é possível que os cidadãos sejam tantas vezes, e de forma tão escandalosa, enganados pelas supostas bondades dos decisores políticos. Essa minoria inquieta manifesta-se, mas raramente o pode fazer sem se defender sob a máscara do anonimato. Sem se esconder. E é aí que está o problema que aqui decidimos reflectir. Valerá mesmo a pena a denúncia anónima da realidade? Não será, apenas, a denúncia anónima da realidade uma forma de aligeirar o peso de uma consciência que não se consegue libertar, de facto, para agir? Não será a denúncia anónima da realidade a forma mais cómoda do “status-quo” se perpetuar, gozando da sua posição privilegiada, pública, que lhe permite classificar os outros como “cobardes”, quando a verdadeira cobardia reside nos que escondem as verdadeiras intenções e projectos subjacentes às suas tomadas de decisão?

Estas são, também, inquietações que percorrem os membros desta Sociedade. Porque ela não é eficaz sendo anónima, mas desaparecerá rapidamente se não o for.

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