a política nocturna, por ssru

“A mobilização global tritura as nossas vidas produzindo mal-estar. As doenças do vazio (depressão, ansiedade, anorexia…) alargam-se, ao mesmo tempo, diga-se, que o sofrimento directamente associado à fome ou à morte. A miséria da abundância coexiste com a abundância da miséria. O mal-estar (social) pode constituir a nova questão social. Tem apenas que politizar-se. Em mais rigor: a politização do mal-estar é a prova e simultaneamente o momento de constituição da nova questão social correspondente à época global.” Santiago López-Petit, “A Mobilização Global”, tradução e comentários de Rui Pereira, Deriva Editores, Abril 2010.

O que aconteceu ali, naqueles rossios, praças e avenidas com o nome de Liberdade, na tarde de sábado, dia memorável de Março, o 12º, foi a percepção interior de cada indivíduo que, num gesto radical, pretendeu libertar-se de um modelo de vida que lhe é imposto como se de uma dádiva se tratasse, a qual não pode recusar. O que nós fizemos foi assim enunciado pelo filósofo espanhol, considerando que todo o nosso esforço deve consagrar-se a conseguir que o gesto radical se independentize do próprio acontecimento. A chave para isto encontra-se na insistência, na sua repetição.

A forma como nos é vendida a precariedade, significa sobretudo, que não existe fuga possível quando se está amarrado à vida que se tem, cujo único antídoto é “ser precário”, fazendo com que vivamos a vida em função da própria vida. Nesta mobilização global imposta a nossa vida não pode ser simples, aspirar a coisas verdadeiras que nos preenchem – como ter trabalho, família, uma casa – para se tornar complicada, sem tempo, urgente, neurótica, esvaziada de sentido.

Estar presente na manifestação “Geração à Rasca” personificou a afirmação do nosso “querer viver”, o romper do nosso contrato com uma vida hipotecada onde viver significa pagar a dívida que se contrai por estar vivo. Quem lá esteve presente pode experienciar a sensação de fazer parte de uma mole humana anónima em torno de uma causa comum que nenhuma outra foi capaz de alcançar: a afirmação de um movimento de resistência global que, ao expandir-se de forma tão esmagadora, expõe a ridículo o poder. “MÉRITO AO PODER” é o ‘slogan’ que, para nós, melhor evidencia esse lamaçal onde o Poder se encontra.

De olhos abertos foi possível perceber os mitos que caíam. A manifestação não tinha geração porque perpassava pessoas de todas as idades, um número imenso de indivíduos não possuía conta no facebook (a ferramenta da globalização utilizada para a combater) ou sequer computador, talvez a grande maioria nunca leu o manifesto que lhe embalava a vontade, ou sequer conhecia os rostos da convocatória. Uma manifestação política mas apartidária, contestatária mas não violenta, precária mas inspiradora.

Talvez por tudo isto é que as reacções de desagrado são ainda tão ferozes. Fosse pela formação académica dos promotores, a qualidade do texto do manifesto, a marca das roupas da geração à rasca, a incapacidade dos “Deolinda” para produzirem uma canção de intervenção, tudo serviu para boicotar um movimento genuíno que não precisou de licença para se afirmar.

Que parvos que são, não percebem que foram ultrapassados…

“Uma política nocturna é aquela que rompeu com as categorias políticas da modernidade, em especial com a noção de espaço político, ou espaço de aparecimento cuja origem remonta à polis grega. Em seu lugar, a politica nocturna emprega a sequência interioridade comum/força do anonimato/espaços do anonimato. O seu objectivo é que o mal-estar social se politize, que a força do anonimato consiga aceder a exprimir-se. Mas tal expressão não deve ser confundida com a sua representação. Pela sua própria essência, a força do anonimato escapa-se e desfundamenta toda e qualquer forma de representação. Desta maneira, inaugura-se uma nova política que tenta erguer uma terra de ninguém, que tenta construir uma gramática de gestos radicais. Uma política nocturna que, por não ter horizonte é imparável.” Santiago López-Petit, “A Mobilização Global”, tradução e comentários de Rui Pereira, Deriva Editores, Abril 2010.

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