a travessia do inferno, por ssru

descemos, no final da longa via, / a última riba, sempre para sinistra; / mais viva assim minha visão podia

chegar à profundeza onde ministra / do alto Senhor, infalível Justiça, / pune os falsários que ela aqui registra.

sem conversar seguíamos, passo a passo, / vendo e ouvindo as enfermas almas postas, / incapazes de erguer o corpo lasso.

duas vi sentadas, costas contra costas, / como assadeiras postas para esquentar, / cobertas, da cabeça aos pés, de crostas.

A TRAVESSIA DO INFERNO. A Divina Comédia, Inferno, Canto XXIX. Ed. 34. DANTE ALIGHIERI

Esta alegoria de Dante que acompanha o vídeo, vem ilustrar a vida de milhares de peões e automobilistas que diariamente atravessam a Praça de Almeida Garrett a Sul, em direcção à Praça da Liberdade e vice-versa. Em horas de ponta não se consegue ver o chão, só uma mole humana que se desloca em ondas como um bando de gafanhotos, luzes vermelhas dos travões dos automóveis, buzinas, filas de autocarros, corridas loucas…

Todos os dias este inexplicável INFERNO.

O que nos propomos analisar vem na sequência do nosso artigo “a passadeira assassina”, onde levantámos uma série de questões onde esta – a travessia de S. Bento para os Aliados – se incluía. Desde que a “Metro do Porto” mudou a face desta porção da cidade, aquilo que parecia impossível piorar, agravou-se ainda mais com as mudanças.

O projecto urbano da autoria dos dois, orgulhosamente nossos, Prémios Pritzker (acreditamos que não pelos dotes de urbanistas) poderá ter respondido à encomenda feita pelo Dono de Obra (CMP/Metro), mas trouxe a maldição para o cidadão que usa a cidade, quer como peão ou como automobilista.

Aumentou o número de semáforos; os tempos de passagem privilegiam o trânsito automóvel; os ângulos das curvas são curtos para os autocarros que invadem as duas faixas de rodagem quando mudam de direcção; uma das faixas de rodagem é constantemente ocupada com autocarros que não se ficam só pelos tempos de paragem para entrada ou saída de passageiros; o acesso à Rua da Madeira é feito violando todas as regras de trânsito ou dando a volta pela Batalha, descendo a Rua 31 de Janeiro; mas… a alteração mais significativa foi a supressão das passagens desniveladas para peões.

Incompreensivelmente, os responsáveis por esta façanha atiram para as ruas da cidade, um número incalculável de pessoas que se deslocam, num movimento pendular, entre o trabalho e casa, agravando-lhes o risco de atropelamento, potenciando-o ainda mais. E este trânsito doido em Mousinho da Silveira e à volta do Quarteirão das Cardosas…?

Uns dirão que a passagem subterrânea desapareceu por causa da linha do Metro ; outros, porque estava “infestada” de indigentes; outros ainda, que se encontrava muito degradado o túnel; talvez até, porque ficavam ‘feias’ no novo desenho das nossas estrelas Pritzker, aquelas quatro saídas de peões.

foto@google

Quando nos últimos anos da década de 50 do século passado a Cidade mandou construir as passagens subterrâneas para os pões se deslocarem entre as duas praças, estaríamos longe de imaginar tal desfecho, que só foi possível neste esplendoroso Tempo de enfezado e despudorado desrespeito pelo Bem Comum. Há quem se lembre do polícia que, naquela altura, multava em 25 tostões quem atravessava a rua, violando as regras da travessia.

Hoje, com a velocidade estonteante dos automóveis e a cultivada falta de civismo dos peões, só a sorte pode impedir que o Inferno se instale na Terra.

Terminado que está o folclore de pintura de lancis de passeios, agora que as autoridades criam comissões de acompanhamento (tem graça), mais estudos técnicos e mais acções de sensibilização, a CMP começou a alterar os passeios e passadeiras a pensar na segurança dos utilizadores… da Rua do Molhe (?), “no seguimento da aposta na redução da sinistralidade rodoviária no município do Porto”.

rua do molhe@google.maps

É com o estômago às voltas que conseguimos ler que “zonas urbanas registam 75% dos acidentes mortais” e que “o ano de 2010 foi negro em termos de sinistralidade rodoviária no distrito. Ao invés da tendência dos últimos anos, houve um acréscimo da mortalidade dentro das localidades.”

A todos os sobreviventes a nossa homenagem, aos que perecem a nossa saudade!

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