a não-cidadania #6, por ssru

O Dia Mundial dos Correios foi, na semana passada (11-10-2011), assinalado em Portugal, pela Fundação Portuguesa de Comunicações, com uma cerimónia que incluiu a atribuição de prémios do concurso “A Melhor Carta 2011”, a emissão de uma colecção filatélica e a inauguração de uma exposição “Luiz Duran – Uma vida com selos dentro”. Nos restantes países do Mundo este dia comemora-se a 09 de Outubro, correspondendo ao aniversário da criação da União Postal Universal (UPU) em 1874, em Berna (Suíça).

Acreditamos que poucos tivessem notado, pela evidente falta de notícia, até porque Terça-feira foi dia de futebol, com o (desgraçado) jogo entre a Dinamarca e Portugal e o Domingo anterior foi dia de eleições, com a (vergonhosa) perpetuação da boçalidade na Madeira. Note-se que na mesma semana foi notícia, bastante mais visível, a prisão efectuada pela PSP, de um indivíduo do sexo masculino, por prática de onanismo nas escadarias do Metro da Trindade. Estamos de acordo com a prioridade.

reunião de trabalho ou distribuição postal? ponto de situação!

Mas o Serviço de Correio Público de Portugal sempre foi algo a que demos muita atenção, até porque a sua missão é diariamente cumprida nas nossas casas, nem que seja para deixar as contas que devemos pagar de seguida… Os Correios, assim por todos carinhosamente tratados, remontam a 1520, ano em que o Rei D. Manuel I criou o primeiro serviço público em Portugal. Os modernos CTT têm origem na fusão das Direcções-Gerais dos Correios e dos Telégrafos num único departamento, denominado Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos e Faróis. Em 1911 a instituição passa a ser dotada de autonomia administrativa e financeira, denominando-se Administração-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones, adoptando a sigla CTT que mantém até aos dias de hoje, apesar das posteriores alterações de denominação oficial. Em 1969 os Correios são transformados em empresa pública, como CTT – Correios e Telecomunicações de Portugal, E. P. Finalmente em 1992 sofrem a sua última alteração para sociedade anónima, com a designação CTT – Correios de Portugal, S. A.. Ao mesmo tempo a área das telecomunicações é separada, formando uma empresa autónoma.

Não obstante tratar-se de uma empresa com tão longo historial, a gestão feita pelas últimas administrações, mas principalmente desde a transformação em sociedade anónima, tem vindo a denotar um défice na qualidade do serviço prestado aos clientes particulares, com o consequente aumento da insatisfação e do desagrado dos mesmos. As notícias que chegam até ao público, alimentam as mentes que defendem mais uma teoria da conspiração, argumentando que os sucessivos actos de desagrado pretendem distanciar e diminuir as ligações identitárias que o povo tem relativamente à instituição, facilitando a sua transformação em empresa privada, algo que ainda não se percebe o fundamento. Os Correios fazem, pois, parte da lista de “empresas” a privatizar, vá-se lá saber porquê! Se há serviços que o povo português não se importa se dá lucro ou prejuízo, parece-nos que este é um deles e para ele existir colabora alegremente com os seus impostos. O que nem é o caso porque os lucros são astronómicos, compreendendo-se ainda menos tão parva atitude anti-contribuinte.

Mas vejamos o que uma rápida busca pela Internet pode fornecer à palavra CTT:

– Como qualquer empresa, do Sector Empresarial do Estado, que se preze, “os carros dos administradores derrapam… nos custos”.

– Tem administradores com uma capacidade de raciocínio e tacto que lhes permite dizer “(…) no caso das empresas públicas, os gestores perdem independência e estão limitados «violentamente» por regulamentos de transparência e de concursos públicos. (…)”, concluindo nós que o que o senhor Vice-Presidente queria era opacidade e liberdade total para o desmando.

“CTT é a empresa pública com a maior despesa de pessoal”, mas que diabo, parece-nos que a mão-de-obra, neste caso, é bem necessária. E em médias aritméticas de merceeiro, isto significa que cada trabalhador dos CTT ganhou em 2010, pelos 14 meses da praxe, cerca de 1930 euros cada um. Alguém acredita nisto, ou acham que afinal o dinheiro anda mal distribuído?

– Numa empresa assim, com tanta gente e muito pão, é natural que se ralhe e enquanto o “Sindicato denuncia centenas de promoções “imorais”, administração garante que salários não sobem”.

– Mas os trabalhadores não desistem e partem para as greves… “em protesto, entre outras situações, contra a diminuição e congelamento de salários, a diminuição dos postos de trabalho e o encerramento de estações.”

– A austeridade quando vem é só para alguns e por isso os planos eram para se cortar pelo elo mais fraco. Só no “Porto: CTT vão fechar seis estações, inclusive a da Loja do Cidadão.”

– Mas como o povo do Porto não se deixa vergar facilmente, sobretudo quando estão em causa direitos de cidadãos mais idosos, altamente dependentes dos serviços dos correios para poderem sobreviver, “CTT diz que não fecha estações de correios”.

– Só fecharão aos Sábados e aos Domingos, por falta de afluência. Como se algum de nós soubesse que a estação do Município estava aberta ao Domingo, porque se soubéssemos dávamos lá um saltinho, à vinda do domingueiro passeio!

Para nós, tal como as atitudes expressas nas fotografias que percorrem este artigo, tudo não passa de acto de “não-cidadania”. Toda esta pressão se reflecte nos actos dos trabalhadores dos Correios, que não passam de comuns cidadãos, que já não percorrem as estradas montados a cavalo, faça chuva ou sol, nem trazem o seu gato preto-e-branco a acompanhar como o simpático “Carteiro Paulo”.

A última foto foi-nos enviada por um leitor deste sítio, que nos relata uma situação grotesca quando interpelado pelo carteiro, cujas últimas palavras proferidas foram (relevem as obscenidades, façam de conta que estamos numa sala de audiência ou a prestar declarações): “Estás a tirar fotografias para quê? Tira-me antes a mim, que sou mais bonito! Estás a ouvir, ò seu cabrão, filho da puta?” Apenas um sintoma da nossa enfermidade, não acham?

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