é só um adeus, por ssru

Miguel Portas | 1 maio 1958 – 24 abril 2012

“A vida não é senão um intrincado novelo de relações de poder. E a política, por maioria de razão. O paradoxo é que, quanto mais o tempo avança, mais ela é tentada pelo que não precisa e se demite do que deve.”

foto @ expresso.pt

“É da pessoa querer saber como parte: de cara lavada ou de cara pintada. Prefiro de cara lavada.”
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os pormenores que contam #5, por ssru

Estes tempos de crise económica acentuam ainda mais a agonia em que vive o chamado ‘comércio tradicional’ portuense. O comércio que se afirmou no início do século XX, com as suas lojas de ruas, as montras e vitrinas engalanadas, as especialidades e novidades dos produtos exclusivos, transformando a Baixa num prestigiado e único centro dinamizador, enfrenta agora a “tempestade perfeita”. Após a vitória da democracia (celebrada daqui a 1 dia), a entrada para a Comunidade Económica Europeia e o embate frontal da globalização que veio alterar as formas de relacionamento do cidadão/consumidor com o comércio retalhista, as medidas de austeridade no combate à crise, sob a batuta de um ‘Memorando de Entendimento’, fazem multiplicar as ruas desertas, as lojas que se fecham, as que se transfiguram.

O desaparecimento desta porção de memória colectiva e da nossa memória individual, devesse também à indiferença pública e à ausência de soluções para a dinamização de um sector importante do tecido vivo da cidade. Será expectável que em momentos difíceis e de crise profunda, a adequação de alguns procedimentos camarários possa fazer-se com decidida clarividência e bom senso, valorizando o esforço a que os comerciantes se obrigam para manterem os negócios em funcionamento. Isto, claro está, sem violação dos normativos e da legislação em vigor. Não, isso não será necessário!

Aquilo que se pede é que, em casos como este que vos apresentamos – publicidade autocolante em vidros e montras, se encontre uma forma de resolver sem complicar porque de facto, os autocolantes são como as moscas: hoje pousam, amanhã voam! Amainasse um pouco a tempestade e os serviços camarários poderiam voltar à carga e sujeitar os comerciantes ao calvário de substituir os “aberrantes” e “dissonantes” adesivos suportes publicitários por uns mais condizentes. Até porque o artigo que é usado para tal exigência é de carácter subjectivo, dependendo da “boa disposição” de quem o interpreta: “(…) O licenciamento previsto no presente Título visa definir os critérios de localização, instalação e adequação, formal e funcional, dos diferentes tipos de suportes publicitários e outras utilizações do espaço público, relativamente à envolvente urbana, numa perspectiva de qualificação do espaço público, de respeito pelas componentes ambientais e paisagísticas e de melhoria da qualidade de vida na Cidade (…)”.

Existem, então, publicidades para todos os gostos e feitios, uns mais espalhafatosos que outros, uns mais inteligentes, outros mais cómicos, muitos sem que se percebam a existência e o propósito. Mas os nossos “correspondentes de guerra”, o que nos dizem é que o Dr. Rui Rio finalmente acertou na equipa que fiscaliza e licencia este tipo de assuntos. Ali não passa nada, sem antes ser varrido a golpes de indeferimentos, pelo menos, até acertarem na receita mágica.

A magia acontece finalmente quando aqueles técnicos camarários que colocam entraves aos incapacitados munícipes, fazem aparecer do expoente mágico da tecnologia – o iphone – um contacto de um fornecedor e aplicador de publicidade, cujos conhecimentos e preços baixos dispensam qualquer consulta de mercado. Percebemos rapidamente que esta prática procedimental possa estar incluída numa daquelas propagandeadas “melhorias contínuas espirituais” dos serviços camarários. Haja paciência!

 

 

 

 

Sendo certo que estes pormenores são de somenos, poderemos mesmo assim concordar que interferem decisivamente na “envolvente urbana, numa perspectiva de qualificação do espaço público, de respeito pelas componentes ambientais e paisagísticas e de melhoria da qualidade de vida”. Pormenor que realmente conta, é a reabilitação, propriamente dita, dos edifícios que servem de suporte a essa mesma publicidade, a maior parte deles visivelmente degradados. Quanto à atitude aqui relatada relativa a técnico/a camarário/a, trata-se apenas de um caso jurídico.

o esplendor de portugal, por ssru

foto @ Diário de Notícias

Preocupados com a vidinha que se avoluma no tapete de nossa casa, temos tudo em cima da mesa e nada pronto, nada que se veja dito e, no entanto… tudo permanece igual como uma matriz.

A nossa paixão incondicional por António já nos deixou horas de leituras para trás da almofada, mas hoje ao acordar concordamos todos que estamos perante um texto terreno, como um fato feito à nossa medida, que arrasta pelo chão os nossos ensaios de um mundo novo…

O Dr. António de facto esqueceu-se de Cavaco, ou talvez não se quisermos que assim seja. A confiança é a palavra-chave, dizia o presidente de buliqueime em Trás-os-Montes, logo ali, terra de gente que ainda usa a palavra com as cores da Honra, cuspe selado com o aperto de mãos. Raios o partam! “Não há de facto País altamente desenvolvido que não reconheça o valor do mérito e o valor do talento”. Matasse o cinismo… e estávamos hoje em eleições!

foto @ Expresso

Nação valente e imortal”,

de António Lobo Antunes – 8:40, Quinta-feira, 12 de Abril de 2012.

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.

Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.

Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.

Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.

Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.

Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.

Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

o dia “D” [degradado], por ssru

A eleição do Porto como o “Melhor Destino Europeu de 2012” veio apaziguar um pouco a nossa amargura. Por isso dedicamos o dia de hoje, 1 de Abril, a passear pelo Centro Histórico que contribuiu para enformar a escolha dos “European Travellers”. Dessa forma recarregamos as baterias para enfrentar a verdade do dia-a-dia, que se esconde longe dos bilhetes-postais que todos preferem ver. No nosso ‘foto-blogue’ não fazemos outra coisa senão dedicar a este recanto todo o nosso amor, uma ode chamada “oporto is beautiful”, uma face surpreendentemente oposta àquela outra que todos os dias queremos poder mudar, expondo-a aqui neste vosso sítio. Precisamos disto…

Assinalar a passagem de mais doze meses de inépcia, de inércia e de mentira não é tarefa fácil para nós e agora que o dia das mentiras, do logro, da piada fácil, chega ao fim, convém desvendar as verdades encobertas por peneiras de rede larga.

Verificamos que, finalmente, alguém começa a perceber (apesar de nós o virmos a dizer há quase quatro anos) que da menina-dos-olhos do Dr. Rui Rio – a Porto Vivo – não saem ovos de ouro, embora seja a instituição onde o Estado e a CMP têm vindo a torrar milhões de euros. Só o passivo referente à despesa com a estrutura e salários é de 4 milhões. Tal como em ‘filmes’ anteriores também aqui temos a historieta das comparticipações dos sócios ou fundadores, as nomeações da administração adiadas, as lentas agonias, as frases “coitadinho”, os impasses, a inércia dos néscios, as tristes incertezas para o futuro.

Enquanto isso encontra-se em fase de discussão pública a proposta de “Delimitação da Área de Reabilitação Urbana do Centro Histórico do Porto” aprovada em reunião camarária e elaborada pela Porto Vivo, SRU que foi objecto de parecer favorável por parte do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, I.P, nos termos do disposto n.3, do artigo 14º do RJRU, aquele diploma que vai ser revogado em breve por este Governo em mais uma estúpida e incompreensível alteração legislativa.

Assim, uma vez que os portuenses mostram todos os dias estar no grau zero da cidadania, manifestamos a nossa profunda preocupação pela aprovação de um documento que irá mudar o Centro Histórico do Porto, sem que se consiga perceber bem para onde, mas adivinhando para o torto a julgar pelas amostras que a SRU nos tem vindo a dar ao longo destes quase oito anos da sua existência.

É nossa opinião que a classificação do CHP como Monumento Nacional/Património da Humanidade, conflitua com a constituição de uma ARU e com a avidez dos Mercados por um território que deve estar sujeito às regras de controlo e ao investimento do Estado que o classificou.