o lapso do tempo, por ssru

Um administrador desta sociedade precisou de um incentivo à reabilitação e nós instituímos um fundo especial chamado forro dos bolsos, donde tirámos a quantia necessária para adquirir “o apocalipse dos trabalhadores”, de valter hugo mãe, edição da Alfaguara, de 2008.

a maria da graça entristecia-se. chamava o portugal para o seu colo e passava uma hora a fazer nada senão esfregar-lhe o pêlo lentamente, absorta, sem sequer pensar em nada de muito concreto. punha-se ali meio escondida pelos estendais e não chamava a quitéria, não fosse ela estar de alegrias com o seu jovem amor e estragar-lhe a noite. o portugal, pobre bicho, emagrecia um pouco, talvez triste também, e não lhe dizia nada. não esperava que um cão desatasse a falar, mas reconhecia-lhe nos olhos um pacto tão definido de fidelidade que parecia possível que um dia abrisse a boca para lhe dizer algo. e ela ficava ternamente com o pequeno cão no colo com essa paciência de quem esperava uma voz importante. uma palavra que a salvaria para sempre e que, obviamente, estaria para ser descoberta nas meditações que passaria a fazer cada vez com mais frequência. ela perguntava, tens pulgas, não quero que andes para aí com os cães da vizinhança, que são todos uns sujos e ainda te ferram. o animal, que era mesmo uma nica de corpo, parecia fungar um pouco. ela via-lhe o pêlo castanho, muito perfeito para esconder parasitas, e imaginava milhares de pulgas ali aos saltos. que cidadania, dizia ela, haverias de ser um belo país, a coçar e a coçar e só haverias de fazer ferida. sorria. pensava pouco no escasso dinheiro que ia recebendo. com duas ou três horas de trabalho por dia não teria as condições que tivera ao tempo do maldito, que lhe entregava certinha todos os meses a parte substancial do rendimento dela. o portugal andava por ali a emagrecer talvez de não gostar dos restos que eram resto de pouca coisa. e ela mandava-o para a casa da quitéria a ver se a miséria não dava ao animal, que não teria culpa de nada e era lamentável que se finasse de fome pelos cantos. encarava o cão e pensava que um dia lhe haveria de faltar. vou faltar-te, pensava, e talvez morras de fome por mim como morro de fome por aquele maldito. o portugal por vezes pressentia aqueles pensamentos e latia, ela dizia-lhe, cala-te, palerma, onde é que já se viu um país a ladrar. punha-lhe a mão no focinho, fechava-lhe a boca, o cão divertia-se e julgava que brincavam e o perigo estaria afastado. ela distraía-se também, como um modo cruel que a tristeza tivesse de a animar de vez em quando, para a deitar ainda mais abaixo de seguida.

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