o enorme desvio, por ssru

O ministro das Finanças de Portugal, Vitor Louçã Rabaça Gaspar, ‘homem-forte’ do Governo, grande conhecedor da História deste País e consciente da importância do seu cargo, em diversos momentos tristes da nossa vida democrática, afirmou na passada semana que “existe aparentemente um enorme desvio entre aquilo que os portugueses acham que devem ter como funções sociais do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar para assegurar essas mesmas funções”.

foto @ diário económico

Instado a explicar-se o ministro terá respondido que “a verdadeira carga fiscal é a despesa pública. Consequentemente, quando existe descontentamento – que eu partilho – com o aumento carga fiscal, a solução é uma só: reduzir a despesa pública. Mas é uma redução difícil, exige repensar as funções do Estado e alterar profundamente a forma como o Estado opera. Considerar que é possível encontrar uma solução milagrosa é enganar os portugueses”. E concluiu que “é necessária uma grande maturidade da democracia e do sistema político português para ser capaz de resolver esta questão fundamental”.

O que parece não estar percebido (talvez o Dr. Rui Moreira consiga explicar com a sua última publicação: Ultimato”) é que aqueles que expressam o seu descontentamento nas ruas – o povo português, literalmente representado – não quer ser o único a pagar uma factura para a qual, pouco ou nada têm contribuído. Se existe ‘despesa privada’, que cada um pague a sua e seja capaz de se adaptar aos novos tempos de maior austeridade (algo a maioria já demonstrou ser capaz, cortando até na alimentação). Se existe despesa pública, que seja justificada para que possamos estar dispostos a pagá-la, conscientemente.

Ora, o que a maioria já percebeu é que a crise e a austeridade ainda não chegaram a uma minoria de pessoas e grupos, castas da sociedade e da nossa vida pública, que insiste em nos mostrar, diariamente, que a factura apenas deve ser paga pelos mesmos do costume. Ainda ontem veio publicada a notícia que referia mais uma excepção ao esforço comum, favorecendo uma classe especialmente favorecida, a dos juízes, que a julgar pelo estado dos nossos tribunais e da qualidade da Justiça, gostaríamos que nos fosse explicada com “grande maturidade democrática”.

Maturidade democrática é precisamente aquilo que falta ao grupo parlamentar do Partido Socialista com a história do recém-renovado parque automóvel. Neste tal País em crise, onde andamos todos a viver acima das nossas possibilidades, os senhores deputados vieram ao ‘saco do dinheiro’ dos nossos impostos tirar o bastante para renovar a frota automóvel, à nossa custa. O que se exigia era que, com a necessária maturidade política, tudo fosse repensado para que a despesa fosse adequada àquilo que os portugueses são capazes de pagar, pois temos a certeza que não estão dispostos a saldar todos os gastos e todas as mordomias que os políticos irresponsáveis julgam poder fazer. Neste espaço não vão faltando indicações para os caminhos  a trilhar. Podem pois começar a comprar os passes sociais e a partilhar um carrinho mais modesto, de acordo com a bolsa austera do País.

Não queremos que Portugal seja como o Uruguai ou qualquer outro país do Mundo. Mas quem nos dera que não existisse um tal “enorme desvio entre aquilo que os políticos portugueses acham que devem ter como funções no Estado e aquilo que estão dispostos a sacrificar para assegurar essas mesmas funções”. Podem começar por aprender com o Presidente Pepe Mujica, se forem capazes!

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