a perigosa austeridade, por ssru

Paul Krugman, nobel da economia, defende que a saída da crise europeia passa por uma maior solidariedade entre os países, ou seja, que, num curto prazo, os países com excedentes orçamentais, procurem produtos que possam ser fornecidos pelos países com défices e problemas de endividamento, ao mesmo tempo que estes implementem uma considerável austeridade orçamental.

Ora, a senhora Merkel, que amanhã nos visita (sabe Deus como vamos poder pagar a sua estadia, agora que não temos dinheiro, nem para comer!?), veio pedir mais cinco anos de austeridade e sacrifícios aos parceiros europeus, como forma de ultrapassar a crise financeira e monetária: “Precisamos de austeridade para convencer o mundo de que vale a pena investir na Europa”, disse.

Esta semana, o querido FMI lançou mais [uma posta de pescada] um alerta que a austeridade em países da periferia da zona euro, como Portugal, corre o risco de se tornar política e “socialmente insustentável”, numa altura em que cresce a contestação interna às medidas de contenção nas economias em dificuldades. Claro que diz isto depois de no mês passado já ter reconhecido ter calculado mal o impacto da austeridade na economia.

No fundo, andam a brincar com as vidas das pessoas pois, já há dois anos atrás o Professor Mark Blyth, do Watson Institute, explicava de uma forma criativa aquilo que neste preciso momento nos encontramos a vivenciar. Vejam o vídeo e retenham as suas palavras.

AUSTERIDADE. É grande na Europa e está a ficar grande aqui. Todos os Primeiros-Ministros têm vindo a falar nisso. Mas o que isso significa?

É o “senso comum” para a forma de pagar o enorme aumento de dívida pública provocada pela crise financeira, fazendo-o principalmente através de cortes nos serviços públicos. Primeiro fica endividado, depois paga. Parece simples, certo?

Infelizmente nunca é assim tão simples, porque a austeridade confunde a virtude com o vício. Deixem explicar porquê… Agora que supostamente o pior da crise já passou, há dívidas em todo o lado – cartões de crédito, hipotecas, dívida pública. Esta é a parte que vocês conhecem. Mas é preciso lembrar como chegamos a este ponto.

Há dois anos atrás [2008] o sistema financeiro mundial explodiu, A crise abriu um buraco de dois triliões de dólares no universo financeiro. E ao todo, os governos mais ricos do mundo gastaram, emprestaram ou financiaram entre 5 a 50% do PIB dos seus países para salvarem os bancos. Perante isto vocês podem pensar que um período de austeridade é uma boa ideia. Mas para verem como não é assim, têm que pensar no mundo como uma série de balanços patrimoniais. Ok… sigam o raciocínio.

Quer seja uma pessoa, uma família, uma empresa ou um Estado, existe um activo e um passivo: um balanço patrimonial! Antes da crise de 2008, toda a gente acumulou dívidas. Naquela época fazia sentido endividarmo-nos. Por exemplo, os 40% mais pobres da população americana não tiveram um aumento real de salários desde 1979. A sério – isto é verdade!

As empresas – sobretudo os bancos – fizeram o mesmo. Mas eles fizeram para ganhar dinheiro ao invés de pagarem as contas. É a chamada “alavancagem”. Ou seja, é a mesma dívida vista por uma perspectiva diferente.

ALAVANCAR. É um pouco como jogar o “dobro ou nada” no ‘Blackjack’. Se ficar endividado com uma hipoteca ficará à espera que o valor da sua casa aumente. Se acha que há uma grande hipótese de o seu valor subir, pode apostar um “dobro ou nada” e arriscar uma hipoteca maior. Mas, como no ‘Blackjack’, há sempre o risco de perder.

Assim, os bancos criaram montanhas de dívidas e alavancaram o seu valor umas vinte ou trinta vezes mais. É como se eles tivessem apostado todas as fichas no ‘Blackjack’. Mas cada ficha era apenas uma promessa de pagamento. Então quando as coisas correram mal, os governos acharam que tinham de entrar em cena, porque os bancos tinham-se tornado demasiado grandes para falirem.

Foi aqui que os problemas do balanço começaram e é a razão pela qual esta ideia de austeridade não é assim tão simples. Se está a alavancar uma dívida e os rendimentos perdem valor – como a casa ou o portfólio de derivados do crédito à habitação, se for um banco – o conjunto do balanço patrimonial vai afundar. Quando isso acontece, quer seja o tesoureiro da empresa ou uma mãe solteira, caso tenha rendimentos, vai querer diminuir a dívida, para ver o balanço financeiro emergir, em vez de gastar esse dinheiro. Isto significa que ninguém está a gastar. E é aí que o governo entra em cena.

Se todo o sector privado está a tentar saldar as suas dívidas, então o governo automaticamente eleva-as para compensar. A receita fiscal cai, logo o défice aumenta. Os subsídios de desemprego disparam e o consumo público assume o lugar do consumo privado.

Mas não nos enganemos: o problema é a dívida e isto tem proporções enormes – e precisamos de limpar todos esses balanços públicos e privados. Mas todas as peças estão ligadas. Se o sector público limpa o seu balanço ao mesmo tempo que o sector privado, toda a economia despenha-se. É a chamada falácia da composição: o que é bom para as famílias, para as empresas ou até para o Estado, torna-se um desastre se todos o fizerem ao mesmo tempo.

Então, porque é que a maioria dos governos do mundo decidiu fazer exactamente isso? E todos ao mesmo tempo?

Lembram-se do buraco de dois triliões de dólares? A resposta é que alguém tem de o pagar. Mas ninguém – especialmente os bancos – quer pagar.

Assim, os governos ou têm que aumentar os impostos – difícil – ou cortam nos serviços públicos – mais fácil… Especialmente quando a dívida vem com um “anel de virtude” sobre o assunto… “AUSTERIDADE”, “o sofrimento após a festa”.

Mas aqui está a chave: a ressaca da austeridade não vai ser sentida de forma igual na distribuição das receitas.

No início de 2010, o fórum dos países mais desenvolvidos do mundo – o G20 – apelou a uma “consolidação fiscal amiga do crescimento”. É como um unicórnio com um saco de pozinhos de perlimpimpim. É uma ideia simpática, mas é sobretudo uma grande treta!

Precisamente porque a “consolidação” não atingiu todos da mesma maneira. Lembram-se dos 40% mais pobres da população que nada beneficiaram com o boom financeiro? Eles são os únicos que realmente usam os serviços públicos, justamente os serviços que serão tão virtuosamente consolidados. E aqueles que estão no topo da distribuição dos rendimentos e que foram os primeiros responsáveis por toda esta trapalhada?

Esses não!

Onde é que esta força virtuosa e de senso comum, que é a austeridade, nos leva? Deixa-nos num ciclo onde aqueles que menos ganham pagam aos que ganham mais, com os mesmos rendimento estagnados e distorcidos que perderam poder de compra numa economia mais desigual e instável. Há um nome para isto: políticas de classe. E geralmente acaba mal!!!

Esta ideia de “senso comum” da austeridade, da redução da dívida pública toda de uma vez através do corte dos serviços públicos envolve uma questão de equidade: quem paga e quem não paga?

Aqueles que fizeram esta trapalhada não vão pagar, enquanto que aqueles que já pagaram o salvamento dos bancos vão pagar novamente através da austeridade. É por isso que a austeridade não é o senso comum. É um absurdo – e é perigosa!

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