o atestado de incompetência, por ssru

Foram várias as vozes que publicamente, incluindo n’a Baixa do Portovaticinaram o fim da Porto Vivo, sobretudo devido às constantes polémicas dos últimos 2 anos, quer com a nomeação / deserção dos seus presidentes, quer com a falta de dinheiro / compromisso / empenhamento dos seus sócios. Na nossa opinião, os motivos para a SRU deixar de existir, pelo menos tal como a conhecemos, são múltiplos.

Como sabem, tínhamos grandes expectativas de mudança do estado de degradação do CHP quando ela nasceu em 2004. Passado 4 anos de inércia (em 2008), iniciámos um conjunto de crónicas que visam, principalmente, alertar os diversos intervenientes (até os colaboradores da SRU, porque eles não sabem!) para o valor patrimonial que o Centro Histórico possui e impedir o desenvolvimento de processos irreversíveis, como aqueles que vemos acontecer diante dos nossos olhos. Sem querer assumir um papel paternalista ou de castos moralistas, a nossa atenção tem sido também direccionada para os inúmeros estudantes que nos consultam e a quem procuramos transmitir esses valores, pô-los a pensar antes de agirem erradamente.

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As nossas elevadas expectativas, simplesmente, esfumaram-se e acreditamos que este modelo da Porto Vivo, tal como se apresenta, encontra-se esgotado. Não significa que deva ser extinta, mas que a sua intervenção tenha que ser diferente, sem dúvida.

As causas para o falhanço espalham-se em toda a linha: desde a sua génese, tendo sido criada sobre as cinzas das instituições que existiam, sem que pouco ou mesmo nada se tivesse aproveitado; empregando pessoal não especializado, que nada sabe (ainda!) de reabilitação, mas indicado pelos diversos responsáveis dos partidos do poder; com um modelo de financiamento com poucos resultados noutras cidades da Europa e que, como podemos agora constatar, não é à prova de crises económicas ou políticas, ao contrário do modelo que existia [mais lento ou mais rápido conforme os orçamentos, mas sedimentado porque incluía os residentes (autóctones) no seu planeamento]; porque vive do expediente, do negóciozinho com este ou aquele investidor a quem tudo se permite para não o perder, mesmo que isso signifique fechar os olhos às atrocidades que ele comete em matéria de reabilitação, com intervenções destrutivas e incompreensíveis; porque é forte com os fracos e vice-versa, capaz de se pôr de cócoras quando se trata de obrigar a CMP ou demais instituições e empresas a reabilitarem os seus prédios, ao mesmo tempo que ameaça de expropriação um proprietário indefeso por causa de alcagoitas.

A Porto Vivo (tal como o Dr. Rui Rio) tem falhado na sua missão, tem defraudado nos seus objectivos e os poderes com que foi investida servem apenas para atestar a sua incompetência.

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O caso da intervenção que se desenrola ao seu lado, no prédio vizinho, sem qualquer legalidade, pela empresa proprietária – Maranhão – é talvez o sinal mais gritante da cumplicidade e da incapacidade dos (ir)responsáveis da SRU. Entre outros edifícios que a FDZHP fez o favor de vender à empresa do Sr. Albino Gonçalves Sales, encontra-se o da Bateria da Vitória e este prédio da Rua de Mouzinho da Silveira. Soubemos então que o empreiteiro é militante do PSD, ex-autarca e ex-deputado municipal em Cinfães, o que já de si é um passaporte colorido muito importante. Mas, tem como parceiro de negócios uma pessoa influente, muito importante e que faz a música tocar mais fininho. O engenheiro Manuel Vasconcelos Pinheiro é líder do PSD de Cinfães, ex-vereador sem pelouro, ex-director regional adjunto na DREN e, dizem, responsável pelo futuro de muitos jovens de boas famílias que procuram os seus estabelecimentos de ensino privado, como é o caso do Externato Ribadouro, para obterem as notas extraordinárias que os catapultarão para as melhores faculdades do País, como por exemplo as de Medicina.

Este caso flagrante de compadrio (e sabe-se lá que mais) tem a Porto Vivo como incompetente cúmplice, mas também a CMP e a Direcção Regional de Cultural do Norte, que assobiam para o lado e que só actuam (ou não!) quando têm conhecimento oficial dos assuntos… Ao lermos o diploma que regula a relação da administração pública e os cidadãos dá uma certa vontade de rir perante os princípios gerais aí enunciados, como o da Igualdade: “Nas suas relações com os particulares, a Administração Pública deve reger-se pelo princípio da igualdade, não podendo privilegiar, beneficiar, prejudicar, privar de qualquer direito ou isentar de qualquer dever nenhum administrado em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica ou condição social.”

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Assim, é justo que este caso sirva de exemplo para todos aqueles que necessitem de uma justificação para realizarem qualquer intervenção em edifícios desta cidade, sem o respectivo controlo prévio e sem o pagamento das devidas taxas.

Para atestar a sua própria incompetência, a Porto Vivo não precisa de ajuda de ninguém!

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a certa incoerência, por ssru

Este lugar onde vivemos é frequentemente vandalizado das mais variadas formas. Os cartazes publicitários ou de propaganda política têm um efeito duradoiro na degradação da paisagem urbana e imagem da cidade e no entanto a sua eficácia e alcance são efémeros. Quem nos segue, consegue perceber o nosso esforço em minimizar o impacte das acções perpetradas por gente irresponsável, que não percebe as consequências negativas daquilo que faz, entidades que conseguimos identificar pois são elas próprias que se ostentam nos cartazes que mandam colar pelo Centro Histórico. A mensagem que procuramos utilizar nesse combate tenta ser criativa, incisiva e oportuna, como quando nos dirigimos à CMP, ao Hard Club ou ao Pedro Abrunhosa, entre outros. Fazemo-lo porque cada vez mais, num mundo globalizado, a comunicação pode assumir as mais variadas formas e suporte físicos, sem necessidade de nos sujeitarmos a este ambiente poluído e degradado, num total desrespeito pelos valores patrimoniais, culturais e cívicos da comunidade. Vejam estes casos que vos trazemos hoje, onde os títulos dos eventos ou os seus promotores expõem-se a uma certa comicidade, ao paradoxo e à gratuitidade.

Começando pelos jovens aprendizes que se apresentam da seguinte forma: O colectivo de estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), sob orientação científica do Prof. Doutor Manuel Mendes e co-organização da Associação de Estudantes e Direcção da FAUP, apresenta o ciclo internacional de 14 lições, intitulada “Prática(s) de Arquitectura – Projecto, Investigação, Escrita”, que decorrerá entre o final de Fevereiro e Junho de 2012, na FAUP. Esta acção é apoiada institucionalmente pela Reitoria da Universidade do Porto e pela Ordem dos Arquitectos (Secção Regional do Norte).”

O objectivo dos jovens não era modesto, mas antes “contribuir para a promoção e valorização da instrução teórica”, que desta forma não se revela o “sinal e sedimento de uma identidade não linear, talvez sejam tão só a reunião de gestos de simplicidade de quem procura (procurou) processo e pauta para a elevação da cultura do lugar, para a transformação de uma paisagem – desassossegos da arte da casa-mãe, a Arquitectura.”

Ora, por muito boas que sejam essas práticas de arquitectura (e são!), mandarem espalhar cartazes a anunciar pela cidade, pelo CHP, em tudo que é parede, caixilho ou cunhal não se afigura uma prova de “valorização da instrução”, nem um bom presságio para um futuro responsável e respeitador das vossas obrigações profissionais.

O movimento “Manobras no Porto” surgiu no CHP com o intuito de o dinamizar cultural e socialmente. É o resultado de uma candidatura submetida pela Porto Lazer EEM, aos programas de apoio ao desenvolvimento regional promovidos pela CCDR-N e apoiada pelo QREN, num investimento global de 2 milhões de euros: “Esta oportunidade surgiu no âmbito do esforço público em curso para criar e consolidar, na região Norte de Portugal, um cluster de indústrias criativas contributivo para o desenvolvimento económico nacional.”

Damos muito valor a este movimento, mesmo com iniciativas efémeras e vãs como o “jardim suspenso” ou marcantes e expressivas como a “meia de leite directa” e as vaquinhas malhadas a pastar na praça da Estação do Metro da Trindade. Mas têm mesmo que manobrar assim e poluir o local onde pretendem “convocar movimento, vida e acção, a apelar a gentes e ideias, a criar um aqui e agora que envolve os rostos e os corpos da cidade, a produzir e a evidenciar conhecimento e sentimento, a construir futuros na cidade”? É que, visto assim de relance, não parece um futuro muito risonho…

A Ordem dos Arquitectos é um caso perdido por isso mais vale passarmos logo à questão que os chamou aqui. A secção regional do norte da OA lançou uma selecção de obras – 20 – cujo motivo principal era o turismo (lojas, restaurantes, alojamentos) a que chamou Respect for Architecture, assim mesmo para inglês ver. Como vocês sabem, aquele título em português quer dizer “respeito pela arquitectura” e ainda que pareça bem que o respeito começasse por saber quantas daquelas vinte obras seleccionadas têm alvará de construção e de utilização, o objectivo do nosso artigo não é esse. Interrogamo-nos antes, como pode uma associação profissional, com estatutos e demais coisas giras, cujo ‘mobile’ da profissão é a realização da arquitectura como meio para a mudança do mundo, mostrar o seu respeito participando nesta sebenta e degradante ignomínia.

Conseguem perceber o caricato de tudo isto: arquitectos / turismo / respeito pela arquitectura / poluição urbana e ambiental / degradação. Quer como organizadora ou como parceira, a Ordem dos Arquitectos deixa o seu rasto pelo património da cidade. Se não colabora na defesa do CHP (revoltando-se contra aquilo que está a ser feito, reclamando o que não se faz, apontando o caminho), pelo menos não deveria participar na sua degradação.

É um bando esquisito esse que entra p’ra aí”, é a frase de um vizinho para definir o colectivo de artistas que ocupa um espaço num rés-do-chão da Rua dos Caldeireiros. Supostamente, uma galeria de arte e intervenção artística intitulada “Uma Certa Falta de Coerência” que deu o mote para o título deste artigo: «“Uma certa falta de coerência” define-se como um espaço gerido por artistas para apresentação e discussão de projectos em torno da arte. Este projecto surge na linha de outros de carácter semelhante que têm existido no Porto e da sua contínua necessidade.»

Ao ler a carta de apresentação da UCFC (ou acloc em inglês) percebe-se o esforço em existir e a abertura à comunidade, mas também que o mofo e a humidade são elementos importantes nos estimulantes ambientes adversos às artes. Bom! Um dia acordaram e desataram a colar aqueles cartazes amarelos pelas redondezas, como se não existisse amanhã e a comunidade fosse um bando de gaivotas que andam por ali a rapinar nos sacos de lixo doméstico depositados nos passeios.

nota: enviaremos este artigo aos protagonistas; seria interessante saber se têm algo a acrescentar…

o ensino da utopia, por ssru

Para a maioria das pessoas, Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro, 15 de Dezembro de 1907 – Rio de Janeiro, 5 de Dezembro de 2012), foi um brasileiro que se tornou num dos maiores arquitectos mundiais de século XX. Para nós será ainda um dos maiores “obreiros” do século XXI. Para este nosso tempo o seu legado reserva-nos a possibilidade de sonhar, a utopia viável.

“Interessado em genética, considero os homens como uma casa. Uma casa pode ser melhorada mudando portas e janelas, pintando a fachada, acertando o telhado, mas continuará deficiente se o projecto foi mal concebido”. Dizia.

Como todo o grande arquitecto, considerava que a arquitectura tinha o propósito de mudar o mundo, mas que de pouco interessava alterar a paisagem se não mudassem as pessoas. Uma peça de arquitectura tem, para além da função, o dever de maravilhar e surpreender, possibilitando até aqueles que daquilo nada percebem, se sentirem tocados pela descoberta. A linha curva surge, em contraste com a rigidez severa da recta funcional do espírito da Bauhaus, fazendo lembrar as montanhas do seu País, o curso sinuoso de um rio, ou as ondas do mar, as formas de uma mulher. Como ele amou as mulheres!

Niemeyer lamentava a iliteracia dos jovens universitários, que ingressavam nas universidades para tirar um curso e se especializarem em apenas uma coisa, sem nunca terem lido sobre outros assuntos, sem o terem vivido, sem tomarem conhecimento das dificuldades da maioria da população. Acreditava que a arquitectura de nada servia perante as injustiças da vida. O importante era protestar.

No dia em que o mundo for mais justo, a arquitectura será mais simples. A sua palavra preferida é solidariedade.

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“SOBRE O ENSINO DA ARQUITECTURA”

“Na proposta que fiz para a renovação do ensino na Escola de Arquitectura de Argel, eliminava uma série de disciplinas, prevendo outras a meu ver fundamentais.

Dava mais ênfase aos problemas das artes plásticas, insistindo na prática do desenho figurativo que dá ao arquitecto maior desenvoltura ao elaborar seus projectos. E com isso a intimidade necessária com os problemas da pintura e da escultura, nos quais a arquitectura, quando possível, deve-se integrar.

E explicava que ao projectar uma parede o arquitecto deve imaginar como ela será concluída, se singela, simplesmente pintada de branco, ou enriquecida por uma obra de arte, uma escultura ou um belo mural.

Para isso ele deve conhecer os segredos das artes plásticas a fim de poder escolher o género de obra de arte adequado ao ambiente.

De outra forma ele deixaria de lado essa escolha necessária e a arquitectura comprometida, com a aplicação de uma obra de arte em local não previsto.

E insistia na ideia de que o ensino da arquitectura não se deve limitar à arquitectura propriamente dita. Mas invadir todos os sectores de cultura que a meu ver se entrelaçam e completam.

Daí referir-me à necessidade do arquitecto – mesmo pela tangente – se informar melhor, ler muito, sentir o mundo que o espera, suas mazelas e inquietações. Só assim ele poderá, desinibido, defender seus projectos e numa linguagem simples e convincente explicar o que com desenhos apenas nunca é bem compreendido.

E ter presente que a arquitectura não se pode limitar aos desejos das classes dominantes, mas atender aos mais pobres que dela tanto carecem.

E ser intransigente na defesa desse mundo sem classes que desejamos e no qual a arquitectura assumirá, um dia, sua verdadeira identidade.”

Oscar Niemeyer, in “Conversa de Arquitecto”, Campo das Letras – Editores, SA – Porto, 1997.