o ensino da utopia, por ssru

Para a maioria das pessoas, Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro, 15 de Dezembro de 1907 – Rio de Janeiro, 5 de Dezembro de 2012), foi um brasileiro que se tornou num dos maiores arquitectos mundiais de século XX. Para nós será ainda um dos maiores “obreiros” do século XXI. Para este nosso tempo o seu legado reserva-nos a possibilidade de sonhar, a utopia viável.

“Interessado em genética, considero os homens como uma casa. Uma casa pode ser melhorada mudando portas e janelas, pintando a fachada, acertando o telhado, mas continuará deficiente se o projecto foi mal concebido”. Dizia.

Como todo o grande arquitecto, considerava que a arquitectura tinha o propósito de mudar o mundo, mas que de pouco interessava alterar a paisagem se não mudassem as pessoas. Uma peça de arquitectura tem, para além da função, o dever de maravilhar e surpreender, possibilitando até aqueles que daquilo nada percebem, se sentirem tocados pela descoberta. A linha curva surge, em contraste com a rigidez severa da recta funcional do espírito da Bauhaus, fazendo lembrar as montanhas do seu País, o curso sinuoso de um rio, ou as ondas do mar, as formas de uma mulher. Como ele amou as mulheres!

Niemeyer lamentava a iliteracia dos jovens universitários, que ingressavam nas universidades para tirar um curso e se especializarem em apenas uma coisa, sem nunca terem lido sobre outros assuntos, sem o terem vivido, sem tomarem conhecimento das dificuldades da maioria da população. Acreditava que a arquitectura de nada servia perante as injustiças da vida. O importante era protestar.

No dia em que o mundo for mais justo, a arquitectura será mais simples. A sua palavra preferida é solidariedade.

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“SOBRE O ENSINO DA ARQUITECTURA”

“Na proposta que fiz para a renovação do ensino na Escola de Arquitectura de Argel, eliminava uma série de disciplinas, prevendo outras a meu ver fundamentais.

Dava mais ênfase aos problemas das artes plásticas, insistindo na prática do desenho figurativo que dá ao arquitecto maior desenvoltura ao elaborar seus projectos. E com isso a intimidade necessária com os problemas da pintura e da escultura, nos quais a arquitectura, quando possível, deve-se integrar.

E explicava que ao projectar uma parede o arquitecto deve imaginar como ela será concluída, se singela, simplesmente pintada de branco, ou enriquecida por uma obra de arte, uma escultura ou um belo mural.

Para isso ele deve conhecer os segredos das artes plásticas a fim de poder escolher o género de obra de arte adequado ao ambiente.

De outra forma ele deixaria de lado essa escolha necessária e a arquitectura comprometida, com a aplicação de uma obra de arte em local não previsto.

E insistia na ideia de que o ensino da arquitectura não se deve limitar à arquitectura propriamente dita. Mas invadir todos os sectores de cultura que a meu ver se entrelaçam e completam.

Daí referir-me à necessidade do arquitecto – mesmo pela tangente – se informar melhor, ler muito, sentir o mundo que o espera, suas mazelas e inquietações. Só assim ele poderá, desinibido, defender seus projectos e numa linguagem simples e convincente explicar o que com desenhos apenas nunca é bem compreendido.

E ter presente que a arquitectura não se pode limitar aos desejos das classes dominantes, mas atender aos mais pobres que dela tanto carecem.

E ser intransigente na defesa desse mundo sem classes que desejamos e no qual a arquitectura assumirá, um dia, sua verdadeira identidade.”

Oscar Niemeyer, in “Conversa de Arquitecto”, Campo das Letras – Editores, SA – Porto, 1997.

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