a certa incoerência, por ssru

Este lugar onde vivemos é frequentemente vandalizado das mais variadas formas. Os cartazes publicitários ou de propaganda política têm um efeito duradoiro na degradação da paisagem urbana e imagem da cidade e no entanto a sua eficácia e alcance são efémeros. Quem nos segue, consegue perceber o nosso esforço em minimizar o impacte das acções perpetradas por gente irresponsável, que não percebe as consequências negativas daquilo que faz, entidades que conseguimos identificar pois são elas próprias que se ostentam nos cartazes que mandam colar pelo Centro Histórico. A mensagem que procuramos utilizar nesse combate tenta ser criativa, incisiva e oportuna, como quando nos dirigimos à CMP, ao Hard Club ou ao Pedro Abrunhosa, entre outros. Fazemo-lo porque cada vez mais, num mundo globalizado, a comunicação pode assumir as mais variadas formas e suporte físicos, sem necessidade de nos sujeitarmos a este ambiente poluído e degradado, num total desrespeito pelos valores patrimoniais, culturais e cívicos da comunidade. Vejam estes casos que vos trazemos hoje, onde os títulos dos eventos ou os seus promotores expõem-se a uma certa comicidade, ao paradoxo e à gratuitidade.

Começando pelos jovens aprendizes que se apresentam da seguinte forma: O colectivo de estudantes da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), sob orientação científica do Prof. Doutor Manuel Mendes e co-organização da Associação de Estudantes e Direcção da FAUP, apresenta o ciclo internacional de 14 lições, intitulada “Prática(s) de Arquitectura – Projecto, Investigação, Escrita”, que decorrerá entre o final de Fevereiro e Junho de 2012, na FAUP. Esta acção é apoiada institucionalmente pela Reitoria da Universidade do Porto e pela Ordem dos Arquitectos (Secção Regional do Norte).”

O objectivo dos jovens não era modesto, mas antes “contribuir para a promoção e valorização da instrução teórica”, que desta forma não se revela o “sinal e sedimento de uma identidade não linear, talvez sejam tão só a reunião de gestos de simplicidade de quem procura (procurou) processo e pauta para a elevação da cultura do lugar, para a transformação de uma paisagem – desassossegos da arte da casa-mãe, a Arquitectura.”

Ora, por muito boas que sejam essas práticas de arquitectura (e são!), mandarem espalhar cartazes a anunciar pela cidade, pelo CHP, em tudo que é parede, caixilho ou cunhal não se afigura uma prova de “valorização da instrução”, nem um bom presságio para um futuro responsável e respeitador das vossas obrigações profissionais.

O movimento “Manobras no Porto” surgiu no CHP com o intuito de o dinamizar cultural e socialmente. É o resultado de uma candidatura submetida pela Porto Lazer EEM, aos programas de apoio ao desenvolvimento regional promovidos pela CCDR-N e apoiada pelo QREN, num investimento global de 2 milhões de euros: “Esta oportunidade surgiu no âmbito do esforço público em curso para criar e consolidar, na região Norte de Portugal, um cluster de indústrias criativas contributivo para o desenvolvimento económico nacional.”

Damos muito valor a este movimento, mesmo com iniciativas efémeras e vãs como o “jardim suspenso” ou marcantes e expressivas como a “meia de leite directa” e as vaquinhas malhadas a pastar na praça da Estação do Metro da Trindade. Mas têm mesmo que manobrar assim e poluir o local onde pretendem “convocar movimento, vida e acção, a apelar a gentes e ideias, a criar um aqui e agora que envolve os rostos e os corpos da cidade, a produzir e a evidenciar conhecimento e sentimento, a construir futuros na cidade”? É que, visto assim de relance, não parece um futuro muito risonho…

A Ordem dos Arquitectos é um caso perdido por isso mais vale passarmos logo à questão que os chamou aqui. A secção regional do norte da OA lançou uma selecção de obras – 20 – cujo motivo principal era o turismo (lojas, restaurantes, alojamentos) a que chamou Respect for Architecture, assim mesmo para inglês ver. Como vocês sabem, aquele título em português quer dizer “respeito pela arquitectura” e ainda que pareça bem que o respeito começasse por saber quantas daquelas vinte obras seleccionadas têm alvará de construção e de utilização, o objectivo do nosso artigo não é esse. Interrogamo-nos antes, como pode uma associação profissional, com estatutos e demais coisas giras, cujo ‘mobile’ da profissão é a realização da arquitectura como meio para a mudança do mundo, mostrar o seu respeito participando nesta sebenta e degradante ignomínia.

Conseguem perceber o caricato de tudo isto: arquitectos / turismo / respeito pela arquitectura / poluição urbana e ambiental / degradação. Quer como organizadora ou como parceira, a Ordem dos Arquitectos deixa o seu rasto pelo património da cidade. Se não colabora na defesa do CHP (revoltando-se contra aquilo que está a ser feito, reclamando o que não se faz, apontando o caminho), pelo menos não deveria participar na sua degradação.

É um bando esquisito esse que entra p’ra aí”, é a frase de um vizinho para definir o colectivo de artistas que ocupa um espaço num rés-do-chão da Rua dos Caldeireiros. Supostamente, uma galeria de arte e intervenção artística intitulada “Uma Certa Falta de Coerência” que deu o mote para o título deste artigo: «“Uma certa falta de coerência” define-se como um espaço gerido por artistas para apresentação e discussão de projectos em torno da arte. Este projecto surge na linha de outros de carácter semelhante que têm existido no Porto e da sua contínua necessidade.»

Ao ler a carta de apresentação da UCFC (ou acloc em inglês) percebe-se o esforço em existir e a abertura à comunidade, mas também que o mofo e a humidade são elementos importantes nos estimulantes ambientes adversos às artes. Bom! Um dia acordaram e desataram a colar aqueles cartazes amarelos pelas redondezas, como se não existisse amanhã e a comunidade fosse um bando de gaivotas que andam por ali a rapinar nos sacos de lixo doméstico depositados nos passeios.

nota: enviaremos este artigo aos protagonistas; seria interessante saber se têm algo a acrescentar…

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