o povo ainda sereno, por ssru

O Primeiro-Ministro da Bulgária demitiu-se recentemente dizendo, “não participarei num Governo quando a polícia bate no povo e quando as ameaças de protestos substituem o debate político”, motivado pela escalada da violência nas manifestações contra a austeridade e aumento dos preços. Mas em Portugal tudo é diferente, existindo mesmo uma forte corrente filosófica que advoga que a cidadania só se deve manifestar no acto eleitoral, tendo que suportar até lá um qualquer defectível governo, como o actual. Dizem-nos que está no nosso ADN sermos assim, serenos e que as lutas, a existirem, devem ser travadas com cravos e abraços. Bardamerda!

Numa notícia de Maio de 2011 (quase dois anos), a TVI24 dava conta que nos últimos 11 anos o Estado português tinha sido condenado 13 vezes pelo TEDH, por violação do direito à liberdade de expressão dos seus cidadãos.

«Essencialmente os casos são à volta de condenações de jornalistas ou políticos à volta de críticas políticas e de expressões violentas e contundentes utilizadas, como aldrabão ou grotesco». «São expressões que os tribunais portugueses consideraram que deviam criminalizar, mas que o TEDH considerou que no âmbito do debate político e sendo sobre figuras públicas estavam protegidos pela liberdade de expressão», explicou Francisco Teixeira da Mota. «A liberdade de expressão não é um direito só individual, mas um direito de uma sociedade democrática, onde é preciso que haja liberdade de expressão e de opinião. Uma pessoa só pode ter uma opinião livre e esclarecida se ouvir muitas outras opiniões», sublinhou o advogado.

Vem isto a propósito, precisamente, da transformação de um protesto popular em forma cantada, numa suposta violação da liberdade de expressão de um ministro, o Relvas. Ou de qualquer outro membro do Governo. Já Paulo Portas disse há dias, a “Grândola, Vila Morena” sempre se cantou. E à falta de melhor “Parva que sou”, a grandolada, como ousaram chamar aos cânticos, serve na perfeição ao propósito de protestar contra quem tanto nos agride das mais variadas formas, a começar com a sua própria existência.

Na nossa infância decorávamos o refrão não só desta canção mas de tantas outras: como a “Somos Livres (Uma Gaivota)” de Ermelinda Duarte, gostamos especialmente do último verso [Somos um povo / que cerra fileiras, / parte à conquista / do pão e da paz. / Somos livres, somos livres, / não voltaremos atrás.]; ou como a “Jornada” de José Gomes Ferreira [Vozes ao alto! Vozes ao alto! / Unidos como os dedos da mão! / Havemos de chegar ao fim da estrada, / ao Sol desta canção!], tudo isto entoava nas paredes da escola, nos recreios, nos caminhos da nossa casa.

O Dr. Rui Moreira (ainda se lembram dele, certo?) escreveu há uns meses uma crónica no JN, que intitulou de “Os Linchadores”, projectando a sua destilada visão cataclísmica para o futuro da democracia caso continue a “intolerância” dos manifestantes, ou seja, caso os cidadãos se proponham a manifestar a sua revolta, o profundo desespero e a maior das indignações, que têm o direito de exteriorizar. Vejamos (atentem à semântica! Por favor leiam o texto na íntegra e se forem frágeis do estômago é melhor tomar já um protector):

Para gáudio de alguns abutres que empunham microfones, e de algumas hienas, cujo riso equivale a uma ameaça, passou a ser moda insultar os dirigentes políticos. Hoje, são os que estão no Governo que são vilipendiados. Amanhã, serão os seus sucessores que, defendendo ideias diferentes, estarão à mercê dos necrófagos. Os agentes de segurança têm sempre de suportar todo o género de provocações, sem merecerem, sequer, um agradecimento daqueles que protegem.

(…) Este é um país de linchadores que se infiltram na multidão ordeira para perturbar a ordem pública e para agredir polícias. De jornalistas que esquecem os princípios éticos e o código deontológico da sua profissão. De governantes que não têm sentido de Estado e transportam para o poder os seus ódios de estimação.

Em Novembro do ano passado (5 semanas depois da crónica anterior), cinco mil polícias gritaram “gatunos, gatunos” em frente ao Parlamento, manifestando-se contra as medidas de austeridade, cantando o “Hino Nacional” e, imagine-se, a “Grândola, Vila Morena”. Na escadaria em frente à Assembleia da República, a proteger a democracia e os democratas, encontravam-se os seus colegas, elementos das equipas de intervenção rápida da PSP.

Não são só os polícias que contradizem o Dr. Rui Moreira, pois também alguns jornalistas, em sentido oposto, se mostram predispostos para o contrariar. Foi o caso de Henrique Monteiro e de Henrique Raposo, ambos jornalistas e comentadores do Expresso que nas suas habituais crónicas abordaram o assunto da falta de democracia, da liberdade de expressão do ministro, do fascismo da grandolada (?), do exercício deste tipo de democracia apenas no acto eleitoral, etc. Tal como o Dr. Rui Moreira, há ainda muita gente que não percebeu a razão dos protestos, uma vez que tais iniciativas colidem com o sentido da vidinha privilegiada que usufruem e com o desconhecimento do grau de privação que a grande maioria do povo português, cada vez menos silenciosa, tem que aguentar diariamente. Para vos explicar o fundamental do protesto poderíamos ler alguns artigos do Texto Fundamental, a começar pelo artigo 1º [Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária], mas isso iria maçar-vos em demasia.

Lamentavelmente, ainda não perceberam que os protestos apenas pretendem reafirmar a nossa vontade para que desapareçam de vez os linchadores deste sereno povo e reivindicar o nosso “direito ao silêncio”?

manife

nota a 2 de Março de 2013: Num dos parágrafos da sua crónica no JN, o Dr. Rui Moreira ensaia a defesa de Armando Vara por este ter sido confrontado, em pleno átrio de um tribunal, por um cidadão/herói que ousou demonstrar a sua repugnância perante a cadastrada personagem.

Ousássemos todos e a política deste País seria bem diferente. Não tenhas medo Rui Moreira!

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