a liberdade na praça, por ssru

Vocês poderão perguntar, sem perceber, por que razão insistir em comparecer em manifestações populares, cujo dia seguinte se revela igual ao anterior. Tal como vocês são muitos os que se interrogam, mas na verdade nunca nada fica igual, após uma estrondosa prova de cidadania como aquela em que nós participámos. Acreditamos que um cidadão deve praticar a cidadania todos os dias da sua vida e não apenas de quatro em quatro anos, nos actos eleitorais. Só isto já faz valer a pena. Mas na verdade estamos fartos… deste desgoverno!

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Em Belém uma múmia paralítica emudece com frequência para que ninguém se lembre que tudo começou nas suas mãos manchadas; em São Bento um fantoche gesticula inalterados movimentos, à espera que alguém lhe mude a cassete; e a Troika entra e sai do País das estátuas, como se aqui dentro não vivessem pessoas, mas antes números, às vezes pares outras ímpares, à medida que vão morrendo de desgosto e fome e solidão e frio e sem medicamentos e sem esperança. Nesta frente nada mudou.

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Muitos comentadores de serviço, embora conscientes do valor da voz do Povo, desdobram-se em manobras de diversão, desviando as atenções para a armadilha dos números, terão sido mesmo o milhão e meio, tapando-se assim o sol com a peneira. Mas quem ganha o nosso prémio de maior talento, é uma deputada da Assembleia da República, que representa o Povo através dos votos que o Povo depositou no seu partido, dito democrático, uma vez que vivemos em democracia. Todos em pé, em filinha, mãos juntinhas num aplauso democrático para a senhora deputada do CDS-PP (parceiro governamental), a Dra. Teresa Caeiro:

Não vou e nunca iria a uma manifestação como a que se prepara para o dia 2 de Março de 2013. Citando Paulo Portas, “ninguém são de juízo dirá que tudo está bem”. É evidente que as coisas não estão bem: uma taxa de desemprego acima dos 17% é uma calamidade; a deterioração das condições económicas maior do que se previu; a consolidação orçamental está a ser mais lenta do que se pretendia; a crise é mais profunda do que esperado e a carga fiscal atingiu o limite do suportável pela classe média. Precisamos de mais tempo para diminuir o défice, de um período mais alargado para uma redução estrutural da despesa corrente e de maior tolerância para cumprir o programa que nos devolverá a soberania plena. Precisamos de aceleradores da economia sem entrar no despesismo que nos obrigou ao pedido de resgate. Temos de ter a lucidez de compreender que o Memorando de Entendimento deve ser ajustado às realidades com que nos vamos confrontando. E há que ter noção de que não é possível exigir o esforço tremendo pedido aos portugueses sem um mínimo de compreensão da população.

Dito isto, os “lixem-se” não representam a população portuguesa e não encontro no slogan simplista “que se lixe a troika” e no entoar do “Grândola” em todas as esquinas qualquer vislumbre de pensamento ou de propostas alternativas. Aposto que a maioria dos que se reúnem hoje não lutaram pela liberdade e pela democracia: receberam-na de bandeja e beneficiam – felizmente – dessas conquistas. Tomam-na como garantida, para sempre. Mas esquecem que a liberdade implica responsabilidade, nomeadamente o dever de contribuir de forma construtiva para que ela se perdure. E a democracia exerce-se nos actos eleitorais, de quatro em quatro anos. Seria interessante saber quantos dos que se “indignam” e mandam a troika lixar–se, exerceram este direito/dever nas últimas eleições.

A contestação faz parte da democracia, e ainda bem. Mas contestar por contestar não contribui para a solução dos problemas, nem dignifica a liberdade. As grandes concentrações de 15 de Setembro, transversais a toda a sociedade e faixas etárias, tinham uma mensagem precisa e concreta: não aceitamos uma redução dos nossos vencimentos para uma medida sem retorno perceptível. E tinham razão.

Já os que querem que “a troika se lixe” não apresentam uma única ideia. A não ser, claro… que se lixe tudo. E da pouca substância que se retira das forças políticas que os apoiam não há uma medida que não levasse o país à ruína, a uma desvalorização de mais de 80% do nosso PIB (leia-se das posses de cada um de nós) e a tornarmo-nos uns párias internacionais durante gerações e gerações.

Deixo umas perguntas, às senhoras e senhores que hoje estão num afã a pintar cartazes e a afinar as vozes: a um ano e meio do fim do programa de resgate é altura de romper tudo ou tentar cumprir a nossa parte para recuperar a nossa soberania? E preferem, hoje, estar em Portugal ou na Grécia? E preferem que se lixe a troika ou que se lixe Portugal?

Por Teresa Caeiro, publicado em 2 Mar 2013 – 03:10, em http://www.ionline.pt

Porque estamos em democracia, vamos lá responder à senhora deputada, partindo do pressuposto evidente que este governo já não tem o apoio popular há muito tempo e que as suas políticas têm de ser mudadas. Assim:

1. Ainda bem que reconhece que as coisas não estão bem, ficaram ainda piores depois desde governo ter entrado em funções. O desemprego acima dos 17% não é uma calamidade, é o fim da linha para muitos, principalmente para aqueles que se encontram numa idade cinzenta, a que os liberais chamam limbo, mas os democratas preferem apelidar de idade de ouro, de saberes adquiridos. Tem razão, aquilo que precisamos para resolver os problemas é de soberania. E de órgãos de soberania impermeáveis à corrupção e à ditadura do poder. Desde logo, precisamos de uma justiça que não se queixe de falta de meios para caçar os poderosos corruptos, mas que é diligente a tirar as casas e os empregos aos mais humildes. Sobretudo, será necessário reduzir as desigualdades que nos desunem e nos fazem sentir cidadãos de segunda, uma grande mole que trabalha e paga impostos e vota para que a senhora deputada continue a comer lagosta e lavagante nos restaurantes da Assembleia da República, a preços módicos.

2. O Povo que viu na rua no dia 2 de Março não representa a população, tem toda a razão. Aquela gente toda é a população portuguesa e com ela estava muita outra que ficou em casa ou no trabalho ou a estudar e não pôde lá estar. Aqueles todos que lá estiveram, que mandam lixar a troika e cantam as ‘grândolas’, são cidadãos que lutam pela liberdade e pela democracia – assim no singular, a menos que a senhora conheça mais que uma – e que se recusam a exercer o seu paradoxo de democracia que apenas se exerce nos actos eleitorais. Muitos até terão votado o suficiente no seu partido para que a senhora tenha sido eleita.

3. “Que se lixe a Troika” tem tudo a ver com o dito do senhor primeiro-ministro que mandou lixar as eleições e por implicação o Povo eleitor. Por isso se manda lixar o governo, os políticos como a senhora deputada e a Troika que antes da crise nos pagou umas indeminizações para destruirmos o nosso sistema produtivo e baixou os juros do crédito à habitação e nos transformou em apenas consumidores, menos problemáticos que cidadãos. Sabia ela que tudo faríamos para manter o nível de vida conquistado e venderíamos os nossos anéis ao desbarato às empresas e interesses financeiros que dão suporte à Troika. Por isso senhora deputada, a mensagem que não consegue ler da manifestação é esta: “Estamos fartos de vocês todos!”

4. E que raio de pergunta é essa “(…)preferem, hoje, estar em Portugal ou na Grécia?”. Cremos que é a senhora deputada que prefere não estar na Grécia, porque, ao que sabemos, os gregos andaram a acertar os passos dos políticos que os vilipendiaram. Queremos estar em Portugal e ser mais como os islandeses, que têm a coragem de lutar pelos seus direitos, formando assembleias populares, alterando a constituição a favor do Povo, condenando judicialmente os seus políticos, verdadeiros criminosos. Senhora deputada, saiba e repita aos seus colegas: que nenhuma tempestade dura para sempre, apenas é um pouco tarde para que tudo volte à normalidade! Portanto: “que se lixe a senhora deputada Teresa Caeiro, Viva Portugal”.

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