a carta aberta, por ssru

Nesta quadra festiva renovamos os nossos votos e preces, aproveitando o momento para reforça-los e desta vez dirigidos ao Pai Natal e a mais algumas Estrelas do Norte, apesar de nem sempre obtermos as melhores respostas dos nossos Entes Queridos.

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O alvo das nossas súplicas, neste ano de 2013/14 da graça de Nossa Senhora, é o incontornável Mercado do Bolhão, edifício poderoso e carismático desta cidade, símbolo de inúmeras “batalhas” – as lutas do dia-a-dia na guerra pela sobrevivência de um povo. No Bolhão sempre se respirou o ar mais puro da natureza tripeira.

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Como está muito na moda, o suporte desejado para a nossa narrativa é a Carta Aberta, na vaga protagonizada pelo Dr. Rui Rio quando este se dirigiu ao Governo de Portugal (que não lhe ligou patavina) a propósito da SRU e que recolheu a assinatura de muitos outros intervenientes com consciência pesada por efectivamente nada fazerem pela cidade. Cá vai!

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Carta Aberta ao Pai Natal
e aos outros Notáveis do Norte
Não vamos perder tempo a fazer introduções dengosas sobre o estado do País e da Cidade que sempre terminam atribuindo as culpas à Troika ou ao nosso modo de viver acima das nossas possibilidades (como na carta aberta do Ex-Autarca). Adiante…
Querido Pai Natal, o pedido que lhe dirigimos não é nada de extraordinário para alguém tão importante e uma vez que nos portámos muito bem este ano passado, gostaríamos de receber de prenda alguma clarividência para os nossos políticos e um incentivo financeiro que caia do céu e que contribua para o arranque das obras do Mercado do Bolhão! É que estamos muito necessitados de uma ajuda sua, para darmos início à empreitada de reabilitação do edifício, que tem vindo a ser adiada década após década, sem que se anteveja um final feliz. Repare que mesmo o novo Presidente já começou a ver os escolhos no caminho antes de ver um programa adequado para o edifício, pois anda perturbado com aquela coisa de colocar habitação onde ainda só cabe um uso comercial,,, E vós:
Caros Notáveis do Norte, Estrelas do Firmamento Nortenho, vocês que assinaram a carta aberta do Dr. Rui Rio, têm agora a oportunidade de fazer algo realmente importante e palpável a favor do Povo que têm vindo a explorar (de uma forma ou de outra), em vez dessa conversa fiada do costume. Reuniram-se ali num hotel de luxo para assinarem uma cartita, falaram aos microfones, cumprimentaram-se onanisticamente uns aos outros e foram-se embora até sempre!
Uma vez que não existe no horizonte outro meio de financiamento externo e já que o Dr. Rui Moreira mostrou abertura para a inclusão de privados na reabilitação do mercado, queremos propor-vos “que se cheguem à frente” para que o edifício continue a fazer parte do Património da Cidade, tal como ele é. É tudo muito simples, basta fazerem um donativo a favor do Mercado e a CMP e a DRCN organizam a execução da obra que deverá ser apenas a necessária, a mais eficaz e sustentável para um espaço temporal de 25 anos, por exemplo. Com este acto singelo evitam a degradação acelerada do esplendoroso edifício e diminuem drasticamente as hipóteses de passar para as mãos de privados através de uma concessão ruinosa ou uma PPP dantesca.
Para a realização das obras de reabilitação patrimonial do edifício do Mercado do Bolhão serão precisos uns meros 10 M de euros (ou menos), segundo uma avaliação “a olho” que realizamos tendo em conta o seguinte “caderno de encargos”, não perdendo de vista o projecto original de António Coreia da Silva: 1- não prevemos a necessidade de esventrar o edifício ou realizar qualquer outra magia supérflua para dotá-lo de estacionamento, pois como diz o Dr. Rui Moreira e diz o Dr. Manuel Pizarro, o Silo-auto é já ali e só precisa de ter preços mais justos para ser rentável, ao que acrescentamos o caminho maravilhoso pela ecléctica Rua de Sá da Bandeira para lá chegar; 2- sim, uma cobertura na nave central (não precisa ser muito rebuscada) dava imenso jeito a quem usufrui do espaço – vendedores e clientes – e podemos aproveitá-la para recolha das águas pluviais que abasteceriam o edifício, o que aumentaria a nossa pegada ecológica se juntássemos mais uns painéis solares nas empenas interiores da cobertura, viradas a Sul, para colectarem energia; 3- revisão e reparação geral da estrutura degradada, substituindo o que não seja viável, reparando o restante; 4- correcção das fachadas exteriores uniformizando-as e retirando os elementos dissonantes como os reclamos, aparelhos de ar-condicionado, estores e toldos, revestimentos estranhos ao edifício e reposição de elementos primitivos; 5- melhoramento geral das instalações interiores, impondo-se a utilização de materiais com boa resposta ao uso intensivo e menor desgaste; 6- reorganização de espaços dedicados à comercialização de produtos frescos, lojas e bancas, com possível inclusão de cafetarias/bares e similares no piso superior da galeria Sul; 7- gestão participada do espaço, com atribuição real de competências.
Em troca do vosso altruísmo ímpar (para além de uma consciência mais limpinha) existe todo um mundo de mais-valias. Desde logo o vosso nome poder ficar ligado à reabilitação de um edifício tão marcante na história da Cidade; toda a publicidade que lhe está inerente directa ou indirecta; a possibilidade de terem uma representação no local da forma que melhor se convencionar; e todo um capítulo no Estatuto dos Benefícios Fiscais dedicado a vós, Mecenas (não é massenas!).
«Por tudo isto, os subscritores apelam ao Pai Natal e aos Notáveis do Norte que ponderem toda a Vossa actuação nesta Cidade, que não permaneçam insensíveis à falência do mercado, que contribuam para a sua reabilitação, que colaborem activamente no projecto de reabilitação da Baixa portuense e de animação da actividade económica e que não desconsiderem o Porto – a Cidade não tolera desconsiderações, como historicamente sempre aconteceu.»

Às práticas terroristas que procuram justificação para a destruição do Mercado do Bolhão, a resposta é um banho de realidade – o mercado está vivo e cheio de gente. Até lá vamos todos rezando à Nossa Senhora da Conceição, Padroeira de Portugal, para que vá fazendo um Milagre todos os dias!

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a ruína e o milagre, por ssru

A Ruína e o Milagre são dois apaixonados que se passeiam abraçando as ruas do Centro Histórico do Porto. Apenas o Desastre os separa e impede de se transformarem num exuberante monumento à indigência, formando um triângulo amoroso de difícil compreensão para quem coabita com tão obstinado trio. Falar-vos nestas personagens deste conto de terror, tornou-se um acto banal e, mal comparando, esta é a nossa “Banalização do Mal”.

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Contrariando um reputado jornalista que escreve no JN – Daniel Deusdado – o verdadeiro Milagre opera-se quando constatamos que os edifícios do Centro Histórico permanecem em pé, orgulhosos, mesmo depois de tantos maus-tratos pela falta de manutenção, depois de acumularem patologias com as infiltrações que corroem os materiais, depois de inesperados incêndios que lhes destroem a essência e das técnicas de combate ao fogo que lhes lava a alma em rescaldo, depois da razia protectora dos civis que lhes amputa partes despregadas do corpo, deixados à deriva das intempéries e do clima do Norte. Mesmo assim, eles insistem em permanecer de pé, estoicamente. Até ao próximo Desastre.

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Se tivermos como certo aquilo que diz o Arq. Rui Loza, “que cada caso é um caso”, este caso que vos queremos apresentar, é exemplar. Trata-se de um edifício de 1680, que está instalado numa parcela alongada com fachadas desniveladas entre a Rua de Belomonte e as Escadas da Vitória (que o circundam), o primeiro do lado par da rua. A tipologia é a comum nas edificações da burguesia comercial portuense, com um primeiro lanço de escadas longitudinal (encostado a uma das paredes de meação para libertar o espaço comercial do piso térreo), que depois se transforma numa escadaria transversal em madeira com 2 lanços paralelos por piso, iluminados superiormente por uma clarabóia (entretanto, substituída por uma trapeira). Os andares superiores tinham uma função habitacional que destacava as cozinhas para o lado Norte das antigas Escadas da Esnoga.

Em tempos teve um restaurante no rés-do-chão que nos fazia sentir em casa de tão acolhedor – a Casa Mariazinha. Numa noite de passagem de ano alguém lhe pegou o fogo, aproveitando a ausência do casal de inquilinos idosos do último andar e que foram à aldeia pelo Natal. Diz-se por aqui que tudo se deveu a uma altercação entre o dono do restaurante e os autóctones vizinhos de um outro tasco, que em resultado da acumulação de graves querelas, assim resolveram em chamas. Só por Milagre não morreu ninguém!

Os sinais estão lá todos, numa acumulação sucessiva de degradação: edifício destelhado e chuva a entrar nas paredes portantes, pelo topo e faces; deformação notória e grave da parede lateral para as escadas, sobretudo ao nível do 1º e 2º andares; vigas de travamento dos pisos e paredes ao relento e a apodrecerem, especialmente nas entregas à parede; parede lateral parcialmente demolida; elementos de fecho como as cornijas com deslocamentos; deslocamentos de padieiras e ombreiras dos vãos; fissuração grave das paredes; destacamentos de revestimentos como os azulejos na fachada principal e o reboco nas restantes. Mais grave é a manutenção desta situação por tempo indeterminado.

Se desde 2003 que a CMP realiza vistorias de salubridade e segurança a este edifício e após arder totalmente na passagem de ano de 2006 para 2007 (ou seja, há quase 7 anos e é provável que dure mais 7 assim), esgotados que estão todos os prazos para a realização de obras impostas pelos diversos organismos oficiais, interrogamo-nos por que razão a Câmara ainda não deu o passo seguinte: tomar posse administrativa do prédio e realizar as obras necessárias à sua salubridade e segurança de pessoas e bens, impondo ao proprietário todos os custos obtidos, acrescidos de multa pela sua inoperância, agravando-lhe ainda o IMI.

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E vocês respondem “ah, e tal, é porque a proprietária é a D. Aida Nunes, uma querida e a mais longínqua farmacêutica do burgo e que o seu filho único, o António Abel, foi o assessor de Rui Rio para a mobilidade e está na Porto Lazer a tomar conta do Circuito da Boavista”. ERRADO!

Até pode haver algum favorecimento no alargar dos prazos ou isso… mas, na verdade a CMP e a Porto Vivo não sabem bem o que fazer e vão tomando decisões avulsas que em nada contribuem para o estancar do problema. Isto para não falar também na passiva DRCN, que tem a sua quota-parte de responsabilidade na preservação do bem classificado como Monumento Nacional.

Mas imaginem que o problema se resolve integrando os esforços dos diversos departamentos e serviços camarários, mais os da Porto Vivo (que agora gere esta zona)! Seria lógico que houvesse comunicação entre todos eles, que partilhassem informação, os modos de executar os procedimentos, a economia dos meios ao dispor, para não se registarem nem excessos nem falhas nas respostas a dar aos problemas. Agora, imaginem um bando de elefantes trombudos que arrastam as largas patas de um lado para o outro, deixando cair a melhor faiança que existe nesta loja de louças que é o Centro Histórico do Porto. Verão que é isso que tem estado a acontecer, inexoravelmente.

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O que o Daniel Deusdado não sabe, ou sequer se importou saber (em vez do sound-bite), é que com 20 milhões (nunca são só 20) é possível reabilitar 100 edifícios como este, ou seja, 100 espaços comerciais no rés-do-chão (melhorando o aspecto ao nível da rua) e 500 habitações para 500 famílias, alojando um total de 2000 pessoas, todas elas a mudar de vida e a contribuir de forma decisiva para a reabitação do centro da cidade e, isso sim, contribuindo para o seu desenvolvimento sustentável. O grande MILAGRE é o prédio ainda não ter caído em cima de ninguém e a escultórica RUÍNA se manter ali de pé para turista ver.