a ruína e o milagre, por ssru

A Ruína e o Milagre são dois apaixonados que se passeiam abraçando as ruas do Centro Histórico do Porto. Apenas o Desastre os separa e impede de se transformarem num exuberante monumento à indigência, formando um triângulo amoroso de difícil compreensão para quem coabita com tão obstinado trio. Falar-vos nestas personagens deste conto de terror, tornou-se um acto banal e, mal comparando, esta é a nossa “Banalização do Mal”.

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Contrariando um reputado jornalista que escreve no JN – Daniel Deusdado – o verdadeiro Milagre opera-se quando constatamos que os edifícios do Centro Histórico permanecem em pé, orgulhosos, mesmo depois de tantos maus-tratos pela falta de manutenção, depois de acumularem patologias com as infiltrações que corroem os materiais, depois de inesperados incêndios que lhes destroem a essência e das técnicas de combate ao fogo que lhes lava a alma em rescaldo, depois da razia protectora dos civis que lhes amputa partes despregadas do corpo, deixados à deriva das intempéries e do clima do Norte. Mesmo assim, eles insistem em permanecer de pé, estoicamente. Até ao próximo Desastre.

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Se tivermos como certo aquilo que diz o Arq. Rui Loza, “que cada caso é um caso”, este caso que vos queremos apresentar, é exemplar. Trata-se de um edifício de 1680, que está instalado numa parcela alongada com fachadas desniveladas entre a Rua de Belomonte e as Escadas da Vitória (que o circundam), o primeiro do lado par da rua. A tipologia é a comum nas edificações da burguesia comercial portuense, com um primeiro lanço de escadas longitudinal (encostado a uma das paredes de meação para libertar o espaço comercial do piso térreo), que depois se transforma numa escadaria transversal em madeira com 2 lanços paralelos por piso, iluminados superiormente por uma clarabóia (entretanto, substituída por uma trapeira). Os andares superiores tinham uma função habitacional que destacava as cozinhas para o lado Norte das antigas Escadas da Esnoga.

Em tempos teve um restaurante no rés-do-chão que nos fazia sentir em casa de tão acolhedor – a Casa Mariazinha. Numa noite de passagem de ano alguém lhe pegou o fogo, aproveitando a ausência do casal de inquilinos idosos do último andar e que foram à aldeia pelo Natal. Diz-se por aqui que tudo se deveu a uma altercação entre o dono do restaurante e os autóctones vizinhos de um outro tasco, que em resultado da acumulação de graves querelas, assim resolveram em chamas. Só por Milagre não morreu ninguém!

Os sinais estão lá todos, numa acumulação sucessiva de degradação: edifício destelhado e chuva a entrar nas paredes portantes, pelo topo e faces; deformação notória e grave da parede lateral para as escadas, sobretudo ao nível do 1º e 2º andares; vigas de travamento dos pisos e paredes ao relento e a apodrecerem, especialmente nas entregas à parede; parede lateral parcialmente demolida; elementos de fecho como as cornijas com deslocamentos; deslocamentos de padieiras e ombreiras dos vãos; fissuração grave das paredes; destacamentos de revestimentos como os azulejos na fachada principal e o reboco nas restantes. Mais grave é a manutenção desta situação por tempo indeterminado.

Se desde 2003 que a CMP realiza vistorias de salubridade e segurança a este edifício e após arder totalmente na passagem de ano de 2006 para 2007 (ou seja, há quase 7 anos e é provável que dure mais 7 assim), esgotados que estão todos os prazos para a realização de obras impostas pelos diversos organismos oficiais, interrogamo-nos por que razão a Câmara ainda não deu o passo seguinte: tomar posse administrativa do prédio e realizar as obras necessárias à sua salubridade e segurança de pessoas e bens, impondo ao proprietário todos os custos obtidos, acrescidos de multa pela sua inoperância, agravando-lhe ainda o IMI.

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E vocês respondem “ah, e tal, é porque a proprietária é a D. Aida Nunes, uma querida e a mais longínqua farmacêutica do burgo e que o seu filho único, o António Abel, foi o assessor de Rui Rio para a mobilidade e está na Porto Lazer a tomar conta do Circuito da Boavista”. ERRADO!

Até pode haver algum favorecimento no alargar dos prazos ou isso… mas, na verdade a CMP e a Porto Vivo não sabem bem o que fazer e vão tomando decisões avulsas que em nada contribuem para o estancar do problema. Isto para não falar também na passiva DRCN, que tem a sua quota-parte de responsabilidade na preservação do bem classificado como Monumento Nacional.

Mas imaginem que o problema se resolve integrando os esforços dos diversos departamentos e serviços camarários, mais os da Porto Vivo (que agora gere esta zona)! Seria lógico que houvesse comunicação entre todos eles, que partilhassem informação, os modos de executar os procedimentos, a economia dos meios ao dispor, para não se registarem nem excessos nem falhas nas respostas a dar aos problemas. Agora, imaginem um bando de elefantes trombudos que arrastam as largas patas de um lado para o outro, deixando cair a melhor faiança que existe nesta loja de louças que é o Centro Histórico do Porto. Verão que é isso que tem estado a acontecer, inexoravelmente.

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O que o Daniel Deusdado não sabe, ou sequer se importou saber (em vez do sound-bite), é que com 20 milhões (nunca são só 20) é possível reabilitar 100 edifícios como este, ou seja, 100 espaços comerciais no rés-do-chão (melhorando o aspecto ao nível da rua) e 500 habitações para 500 famílias, alojando um total de 2000 pessoas, todas elas a mudar de vida e a contribuir de forma decisiva para a reabitação do centro da cidade e, isso sim, contribuindo para o seu desenvolvimento sustentável. O grande MILAGRE é o prédio ainda não ter caído em cima de ninguém e a escultórica RUÍNA se manter ali de pé para turista ver.

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