a crónica da crise, por ssru

As palavras que se seguem, foram ouvidas pela primeira vez a semana passada na Póvoa de Varzim, ditadas pela boca e na voz (trémula de início, mas sempre presente) do seu autor, o escritor João de Melo. Foram 15 minutos  longos que perdurarão para sempre enquanto a memória não nos abandonar à pior das sortes. Palavras que se insinuaram, instalaram-se sentadas no meio de nós, erguidas nos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma. Nada mais havendo a acrescentar, pedimos a todos que tenham a felicidade de as ler.

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“Viagem pela ideia da crise” – Opinião de João de Melo, in Público, 26 FEV 2014

Não sei há quantos anos ouço falar de crise – a ideológica, a religiosa, a sentimental, a artística, a literária; e também a social, a económica, a financeira, a laboral, a política, a mundial ou a universal. Uma crise sem paredes que circula entre todos os espaços em branco – esta espécie invasora que já não se detém no limiar de nenhuma fronteira; que não precisa de passaporte nem de santo e senha para entrar, insinuar-se, insurgir-se e instalar-se sentada no meio de nós, ou erguida no pavor sombrio dos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma (para quem ainda a possua ou nela creia, obviamente!).

Nenhuma ideia de felicidade nos pertence (seria no mínimo ridículo que um escritor ousasse confessar-se uma pessoa feliz). Nascemos portugueses, mas para sobreviver a um permanente e absoluto estado de crise, em Portugal. Aqui mesmo ao lado, em Paris, a cidade do exílio e dos mitos ideológicos de outrora, Jean-Paul Sartre morreu com as mesmas dúvidas que o levaram a inventar uma teoria para a angústia do homem moderno, à qual chamou “existencialismo”. Para mim, a única e verdadeira crise dá pelo nome de hiperidentidade – ao mesmo tempo individual e colectiva. Assistem-me portanto o direito e o dever de a invocar. Não sei que fazer de mim, do meu excesso de identidade. Sei muito bem quem sou, mas ignoro a minha missão e não sei em que morada deixei esquecida a chave do meu próximo destino.

Nenhuma possibilidade de se ser feliz em Portugal? Seja pelo facto de nada de bom ou de extremamente mau nos acontecer, seja porque em Portugal simplesmente já não acontece nada. Falamos pouco, mas ouvimos muito. Come-se mal, bebe-se melhor. O resto é uma chaga, uma deriva, um sentimento de que nada aqui nos pertence. Não sei quem veio de fora, nem por que motivo as coisas deixaram de ser nossas – mas voga por aí uma presença estranha, o rosto invisível e absoluto de um qualquer ocupante estrangeiro. Ele mudou o nome das coisas e a precisão doméstica dos nossos sítios. Tomou conta dos lugares públicos. Aquartelou-se nas casas, nas tribunas e nos templos. E agora impõe-nos uma ordem social e espiritual que nunca foi nossa: ou seja, uma religião sem princípios, a confraria da imoralidade, o coro, as matinas, as vésperas de um convento para as almas. E uma sabatina histórica que não nos deixa regras nem palavras. Mas se de facto não acontece nada, tudo porém se vai fazendo em nome de uma imensa maioria silenciosa, a mesma que dá sustento e legitimidade aos diques de que é feita a conjura, digo, a conjuntura do medo e do regime.

Hoje, em Portugal, é Deus quem parte e reparte com o Diabo, ficando este com a melhor parte. São populares e risonhos os amanuenses e os ditadores do país onde já não acontece nada. Basta-nos, para que isto ainda exista, haver lá no alto um cardeal primeiro-ministro, alguns bispos e curas nos ministérios e uns quantos noviços por secretários de Estado – mantendo-se assim a nossa ilusão acerca da existência do país. Bastam-lhe os lugares sentados no Parlamento e um talentoso orador a gritar ao povo; bastam-lhe dois escritores e meio para falar por todos; doze actores de teatro e cinema, dez polícias e um general, um maestro de batuta erguida ante as cinquenta e duas cabeças de uma orquestra, zero vírgula um arrependidos políticos confessos, dois vírgula zero seis professores e sindicalistas, três médicos e meio engenheiro, um cantor de fados e treze guarda-costas, um agricultor e oito industriais, um futebolista e três quartos de outro, um careca idoso e outro careca que ainda exibe o cartão jovem ou o título de novo empreendedor – e fica completo o comício.

Não posso nem devo queixar-me de um país que já não existe. Lamento tudo aquilo que aqui me cerca: este território de ocupação e de gente possuída, este novo “silêncio do mar” de que falou um dia o proscrito Vercors, e o tempo de agora que parece eterno enquanto dura, como diria o poeta Vinícius; o tempo em que, em silêncio oficial, vão morrendo (indignados, desgostosos) mulheres e homens de cultura, gente honrada que assistiu à nova invasão dos Hunos e à sua barbárie e que ainda assim permaneceu honrada. Vão-se os homens desta terra que em tudo deixou de valer a pena desde que sua alma se fez pequena. Vão-se os anéis e os dedos, os pomares e as vinhas, as searas de trigo e os pinhos, os pássaros e o milho – e calam-se pouco a pouco as vozes e os sinos. Já tudo foi dito e escrito, ó André Gide; mas, visto que a memória é tão breve, deve-se escrever e dizer tudo de novo. E aprender no vento os nomes de tudo aquilo que agora é e que dantes não estava aqui. Havia a agricultura e os campos, o canto e a lida (Fernando Pessoa), a poesia e o sonho, os barcos, as veredas e as sombras. Havia algo por que ainda fosse possível e preciso gritar. Não este silêncio e este sepulcro, nem este desmazelo prepotente, nem esta arte de que usam e abusam eles, os ocupantes, para nos fazerem calar a boca e ter paciência. O caso é que eu aprendi a revolução e a história na escola primária. Vivi-as no gesto largo dos heróis, colhi-as como as flores do mal e do vinho em Baudelaire. Não vim para assistir a isto de chegar uma gente sem idade nem memória de nada e obrigar-me a crer que tudo aquilo que vivi e amei não passou afinal de uma ficção ou de uma mentira. No meu tempo, havia livros escritos só para que os comessem os subalimentados do sonho, ó Natália Correia, e não esta gente que nos vira a cara, que cospe para o lado e diz entre dentes que a cultura é cega surda e muda como a pedra, como a “mula da cooperativa” (canção da ilha da Madeira, onde também vibram e morrem alguns dos sonhos que nos foram comuns).

Uma breve história de logros. A história súbita, devassada e oprimida dos meus logros portugueses. De pouco adianta escrevê-la: ninguém ma leria, querido Eça de Queirós. Não devo sequer contá-la: não há quem ouça. Fosse eu um príncipe com orelhas de burro (ou burro com orelhas de príncipe) e com mãos ou patas abriria a terra, a única confidente portuguesa, para a ela contar a longa relação dos logros lusitanos. Quem sou eu, porém, para duvidar da evidência e mesmo da certeza, da versão oficial e do comunicado semanal do conselho de ministros, das notícias do bloqueio e daquele que foi eleito para não ter dúvidas – no país onde já um dia vi passar ciências sociais e humanas como a Filosofia, a Geografia, a Historiografia, a Literatura, a História Universal da Infâmia, Jorge Luis Borges, a ditadura, a guerra colonial, o golpe de estado, a revolução; neste mesmo país onde hoje já não se é nem se está vivo pelos próprios meios da inteligência e da vontade; onde pouco ou nada vale a pena, e cuja consciência nos dói – mas onde já nem a consciência disso vale a pena ou a paixão?

A crise é uma viagem pelo tempo acima – e esta a minha crónica dela. Penso-a e vivo-a com palavras. As sempre belas e amadas palavras. Amo-as tanto como às mulheres e às nuvens brancas que pairam sobre o azul plano e luminoso do mar. Porque eu gosto dos amores secretos que também a mim me escondem da evidência em pleno campo de batalha. Mas a minha guerra não defende o rei. Armei-me contra a crise que levou daqui a alma e trouxe consigo o exército estrangeiro. Atacar o ocupante, mandar prender o rei e o eleito na ilha mais distante de todas as ilhas, fora do coração do povo, para que um e outro vejam e provem deste mesmo exílio; e morram ambos, como nós morremos, do nosso desgosto de sabermos quem somos – e afinal termos perdido o navio do regresso a casa, à terra dos nossos pais, ao mar que um dia já foi só nosso e agora, definitivamente, não nos pertence.

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o fan do porto, por ssru

Brilha em cada um de nós o génio de um grandessíssimo “FdP – Fan do Porto”. Dentro da nossa caixa torácica, bate um coração cego e apaixonado pela melhor cidade do MUNDO. Turistas em casa própria, olhamos o Porto como os pais adoram os filhos – com toda a beleza e todos os defeitos. Só quem vive e percorre as ruas da cidade, do centro histórico, é capaz de identificar as suas virtudes e as suas fraquezas. Ficamos felizes por sermos capazes de o fazer tão bem…

esta beleza sem fim

 Turistas em ca(u)sa própriaOpinião de António Barroso, in Porto 24, 19 Fev 2014.

“Letra & Música #004. Não há cego mais cego que um apaixonado. Dito assim, ou com outros floreados, a verdade é que a intensidade da paixão quase nunca nos deixa ver além do desejo, da posse, da conquista…”

O Porto conquistou – diz-se e partilha-se com vivas e hurras – o título de “Melhor Destino Europeu 2014”. Conquistou? Bem, esta pequena aldeia com a alma de certos e determinados gauleses quase faz com que o céu lhe caia sobre a cabeça, de tão ceguinhos estarmos (na primeira pessoa do plural, sublinhe-se) pelo amor e paixão à nossa cidade.

Não há ninguém que goste mais do Porto do que eu. Podem até gostar tanto como eu, mas mais do que eu não gostam.

Nem há ninguém que se orgulhe tanto com as nossas pequenas coisas como eu. Pequenas coisas que são enormes, para mim, quando fazem sentido.

Porém, custa-me ganhar um título de “Melhor Destino Europeu” para turistas quando a maior parte dos que votaram (comigo incluído) no “candidato” Porto são… portuenses.

O prémio – o verdadeiro prémio! – foi perceber que, quando nos juntamos, somos imbatíveis.

A verdade é que o estatuto é atribuído por uma publicação (não menorizo o título nem o promotor, confesso) cujos critérios “mui liberais” da votação permitiram que nos juntássemos todos, em catadupa, massivamente, com o orgulho embandeirado e a força cujo segredo só nós conhecemos – foi o druida Panoramix que o desvendou em “Asterix & Viriato em Portus Cale” (hei-de conseguir escrever o argumento disto, hei-de).

Assim, e motivados por tudo e por todos, muitos portuenses, cada um muito mais do que uma vez, foram à net votar no melhor destino europeu para turistas: a sua própria cidade!

Eu acho que já perceberam o meu ponto. O que nós fizemos foi uma bela de uma batota, justificada pela “mui nobre” e genuína capacidade de nos transformarmos, um a um, em pedra bruta, sólida e invicta da Muralha Fernandina.

E isto é bonito. É lindo, é belo, é força e é Porto. Mas é batota. Bem, até pode dizer-se que não é batota porque os belgas também podiam ter votado em Brugges, os espanhóis em Madrid e os catalães em Barcelona, os italianos em Florença ou Veneza e até os suíços numa qualquer gruta dos Alpes, nem que para isso comprassem os votos dos emigras que lá não querem.

Foi mui nobre, mas não foi mui leal. E a nobreza do Porto sem a lealdade para com os seus próprios princípios é uma coisa que me incomoda.

Incomoda e muito, mesmo que essa lealdade não seja susceptível do mais rápido e eficaz marketing turístico. Mesmo que essa lealdade não seja compatível com o conceito de “mais valem 15 minutos de fama”.

Mesmo que essa lealdade não sirva os propósitos de políticos de algibeira (ou de mão estendida, escolham!).

Mesmo que essa lealdade não sirva as folhas de Excel para ferramenta dos agentes turísticos no terreno, cujas soluções começam a ser iguais para todos os territórios… diferentes.

Uma vitória – ou a sensação dela – entre gentes que se orgulham de vencer contra ventos e centralismos tem que ser leal para assumir-se como nobre.

E não fomos leais. Não fomos leais para com aqueles que votaram nos destinos turísticos que não eram as suas próprias cidades. E isso – nem que isso seja só uma sensação minha – não me faz vencedor de nada.

Não servirá, também, como cortina de embelezamento, que irá tapar as realidades anacrónicas de uma cidade que, institucionalmente, quase nada fez para ter o turismo que tem?

Foram, até agora, as suas gentes, as poupanças privadas e uma vontade muito própria de dar a “volta a isto” que transformaram o Porto num destino turístico. Isso e a “sorte” da presença companhias aéreas low cost.

Sim, confesso que é belíssimo ver-nos felizes, pois não conheço orgulho que brilhe tanto nos olhos como o nosso. Mas há tanto para ser feito, tanto para fazer e assegurar até um dia sermos, de facto, a escolha dos turistas e não a de nós próprios.

Creio que não ganhámos nada de muito relevante com esse título de “Melhor Destino” para turistas. O que fizemos foi um manifesto de boas-vindas. Votámos na ideia de que os recebemos bem e que nos amamos, a nós próprios, por isso mesmo. Já para não falar da vontade e da necessidade de ver entrar divisas pelas “fronteiras” mais a Norte…

gigantes da ponte pênsil

o doloso quociente, por ssru

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Ministra das Finanças dá bronca no Porto – in Jornal de Notícias, Política//25-01-2014

A MINISTRA das Finanças causou um profundo mal-estar quando, na passada terça-feira, sugeriu, perante duas ‘dezenas de empresários nortenhos, que a Associação Comercial do Porto se fundisse com a Associação de Comerciantes do Porto. Depois de Nuno Botelho, presidente da primeira, a ter acusado de “ignorância”, explicando-lhe que uma nada tem a ver com a outra, Maria Luís Albuquerque, já irritada, arranjou alternativa: então que se juntem a Associação de Comerciantes com a Associação Empresários de Portugal (AEP).

A ministra participava numa sessão de trabalho num hotel do Porto marcada pela Distrital do Porto do PSD. Já no final do encontro e à laia dos cortes que o país terá que continuar a fazer, considerou que o país tem associações a mais e que gasta com elas dinheiro a mais. A ACP não é subsidiada pelo Estado, por exemplo.

“Criou-se um clima de mal-estar por causa da ignorância da ministra”; disse um dos presentes ao JN. “É uma atitude reveladora do pior centralismo, uma falta de consideração pelo Porto”, acrescentou outro dos convidados. Antes, já a ministra deferira um violento ataque contra a Sociedade de Reabilitação Urbana, na senda da guerra que mantém com a Câmara do Porto. “O Estado não vai entregar nem mais um euro à SRU”, terá dito. Contactado pelo JN, Nuno Botelho, presidente da ACP, ficou-se por um “não confirmo nem desminto”. P. F.

Convidada pela distrital do PSD (?), a ministra das finanças conseguiu no Porto, provar tudo aquilo que dizemos acerca das qualidades políticas desta gente que nos desgoverna. A notícia acima (que só encontramos no JN em papel e no clip da ACP, curiosamente) revela uma governante cujo quociente de inteligência roça a ignorância pura, como também é doloso, uma vez que atinge um entranhado ressabiamento disparado em várias direcções. Conseguir, num dado momento da sua parda vida, confundir as diferentes instituições da Cidade e ainda atacar violentamente a única SRU que tem as contas bem feitas, é obra. E desrespeito…

A revelação mais importante a reter é que o comportamento do Governo em relação ao Porto é, ao mesmo tempo, premeditado e abstruso. Assim se percebe por actos vis como o aumento brutal das rendas nos bairros do IHRU e na recusa dos benefícios fiscais para imóveis classificados do Centro Histórico. Por quanto tempo mais teremos de carregar nos nossos ombros o peso do mal que grassa neste País?

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