a crise do jornalismo, por ssru

Logo agora, em plena crise, quando é mais preciso, o “jornalismo” decidiu entrar em crise e corre a tinta, ele próprio, as páginas das notícias. Logo agora que o obscurantismo de “Estado”, mais do que nunca, procura fazer o seu caminho de desinformação e bloqueio da cidadania é que escreve com o baixar de braços e esquece os votos jurados. Dizem que:

«A crise que abala a maioria dos órgãos de informação em Portugal pode parecer aos mais desprevenidos uma mera questão laboral ou mesmo empresarial. Trata-se, contudo, de um problema mais largo e mais profundo, e que, ao afectar um sector estratégico, se reflecte de forma negativa e preocupante na organização da sociedade democrática (…)»

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Mas para nós os senhores jornalistas não estão isentos das suas responsabilidades na construção desta grande crise global, onde agora se vêm mergulhados. Uma informação “negacionista”, que se desliga daquilo que diga respeito aos interesses dos cidadãos à medida que se vai especializando em futebol e jet-set, permite que um não jornalista – um comentador como Marques Mendes – vá à procura e consiga informação privilegiada com que semanalmente ilustra o seu comentário televisivo. E a razão encontrada é um círculo fechado:

“A crise dos ‘media’ está a provocar uma queda mais acentuada no chamado jornalismo de investigação, disseram à agência Lusa profissionais do sector, admitindo que esta já era uma tendência devido à preferência pelas notícias imediatas. (…) “O verdadeiro trabalho de investigação faz-se pouco, porque dá trabalho, demora muito tempo e custa caro”, assegurou José António Cerejo, jornalista de investigação do jornal Público, em véspera da celebração do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.”

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Toda esta profundidade filosófica para vos dizer que a Revista Time Out Porto [a revista que lhe diz tudo sobre a cidade], consegue num pequeno quadrado azul de 43×30 mm, informar os seus leitores aquilo que pretende e divulgar a sua fonte, ou seja, nós ssru, interessando-se por um dos nossos artigos aqui publicado.

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Em contrapartida, a partir da página 18 deste número 39, inicia-se uma odisseia que nos desperta a atenção e que tem o seu ponto de partida no Centro Histórico do Porto. Com os textos muito bem preparados e com as fotos de campo bem aberto, através de uma interrogação, é-nos dado a conhecer um Porto multifacetado: o das Lendas, da Literatura, da Música, dos Arquitectos e do Cinema. Assim também vale a pena gastar tinta…

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o jornalismo “sound-bite”, por ssru


Quando o Jornal de Notícias usou uma imagem nossa num artigo do suporte em papel, escrevemos a nossa opinião (igualmente embrulhada no teor da notícia) sobre o assunto, onde expressámos a nossa discordância por uma abordagem estilo “sound-bite”. Aquilo que “os direitos reservados” visaram, foi expor um jornalismo carregado de falhas, superficial e supérfluo. Em poucas linhas enunciámos uma série de tópicos que, caso tivessem sido melhor aprofundados teriam trazido uma outra verdade à informação que os ‘media’ de hoje julgam que o público não merece.

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Desta vez foi “O Primeiro de Janeiro” que utilizou uma imagem nossa, publicando-a num artigo sobre a Porto Vivo, depois de editada, cortada e lavada com ‘lixívia’. Aqui, achamos por bem dirigirmos um mail ao director do diário, auscultando a sua opinião sobre o caso.

 Caro Director d’ O Primeiro de Janeiro [Ilustre Diário]

Na notícia em anexo, relativa à Porto Vivo, foi usada uma fotografia da nossa autoria, com uma simples aposição das letras “DR”. Cortada e passada a preto e branco, continua a ter a autoria dos administradores da SSRU.

Embora a nossa Declaração de Princípios autorize a utilização de todo o nosso material, para bem da humanidade, isso apenas significa que não necessitaria de a solicitar. Quanto aos direitos de autoria nada diz porque nada é necessário dizer, uma vez que num estado de direito até existem leis para isso. Se por um lado a utilização da fotografia teve o objectivo de ilustrar uma notícia, informando, o que é bom para a humanidade; por outro, é notório o carácter comercial nesse uso [no nosso entender falhando o alvo, pois mostra mais o prédio vizinho à Porto Vivo, ainda por cima uma obra ilegal!?].

Será supérfluo continuarmos a dissertar sobre este assunto pois ninguém melhor que um jornalista percebe a importância das suas fontes e o valor do seu trabalho. Ninguém como um jornalista é capaz de sofrer pela falta de crédito de uma obra sua, portanto… estamos conversados.

Certos de termos merecido a sua melhor atenção e que fará aquilo que em consciência considerar mais conveniente, enviamos os cumprimentos desta equipa ao dispor, SSRU [ssru.wordpress.com]

Não obtivemos qualquer resposta (até ao momento) o que é sintomático de um posicionamento do tal jornalismo que se distancia do público por inexactidão e falta de verdade. Precisamente numa época de acesso quase ilimitado às notícias e à informação, onde o cidadão é convidado a fazer o seu próprio telejornal! Informação que se encontra ao alcance de qualquer agente armado em jornalista que facilmente, sentado em sua casa, de pantufas, percorre as notícias do dia no site da Lusa, junta umas fotas extraída do Google e publica num blog, brincando aos ‘media’. Claro que tudo isto sem os constrangimentos e deveres próprios da profissão.

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Há algum tempo que seguimos com interesse um fórum onde se discute o jornalismo com a paixão própria de quem tem uma missão: “Jornalismo & Comunicação”. Um dos intervenientes, o Professor Manuel Pinto, salientava recentemente um texto que tinha publicado no jornal digital Página 1, da R. Renascença, onde retiramos a seguinte observação: “Se as pessoas abandonam as notícias, haverá que saber se nisso não conta também o divórcio com o jornalismo que se está a fazer”.

E é por esse motivo que se torna urgente uma Carta de Princípios do Jornalismo na Era da Internet, “contributo reflexivo na enunciação, estudo e debate de alguns dos grandes desafios que questionam o jornalismo tal como o conhecemos e os jornalistas o praticaram durante o século XX”:

1. A primeira obrigação do jornalismo é a busca da verdade e a sua publicitação

2. O jornalismo deve manter-se leal aos cidadãos, estimulando o debate e a construção de opinião

3. A essência do jornalismo assenta na verificação da informação e no confronto de fontes e de versões

4. O jornalismo deve escrutinar os diferentes poderes. Aqueles que o exercem devem ser independentes em relação às pessoas, organizações e acontecimentos que cobrem

5. O jornalismo deve tornar interessante o que é relevante e procurar no que é interessante ou mobiliza a atenção dos cidadãos o que é importante e significativo

6. A produção jornalística deve seguir princípios de rigor, isenção, clareza, abrangência e proporcionalidade, e deve empenhar-se em dar voz e visibilidade a cidadãos, grupos e comunidades mais esquecidas

7. Os jornalistas devem ser livres de seguir a sua consciência

8. O jornalismo deve ser transparente e favorecer o debate público das suas opções e práticas e o escrutínio das ligações, interesses e poderes que o suportam

9. O jornalismo deve adaptar-se às diferentes plataformas informativas e interagir com a diversidade de actores presentes no ambiente comunicacional, integrando as suas vozes no processo de produção profissional de narrativas noticiosas e de opinião

10. Inovações empresariais e tecnológicas no ecossistema informativo devem ser feitas com respeito por padrões de exigência profissional e no quadro ético e deontológico em vigor numa imprensa livre e democrática

11. Os cidadãos têm direitos e responsabilidades, no que diz respeito à informação noticiosa.

foto nossa oferecida ao Primeiro de Janeiro

foto nossa, oferta para “O Primeiro de Janeiro”

Nós, cidadãos [ou cidadões como tão bem diz o nosso PR] sabemos quais os nossos direitos e os deveres. Reconhecemos o limite da nossa intervenção e a importância do bom senso, da ética moral e humana de cada uma das nossas vozes. Pudessem os senhores jornalistas fazer o mesmo.

a máquina de fazer notícias, por ssru

Somos um país de inventores e depois de inventarmos uma máquina que faz espanhóis, eis que surge uma para fabricar notícias, muitas notícias, com um conteúdo mais ou menos necessário, para não dizer desinteressante, repetidas vezes sem conta até nos cansarmos.

É algo bastante estranho mas real e palpável, porque apenas nas primeiras 12 semanas deste ano, já vamos numas mãos cheias delas.

Surpreendente, dadas as características da máquina, que ela consiga produzir assim tanto! Ainda se fosse uma máquina política, ou social, ou até desportiva, bom seria que fosse cultural, pelo menos… mas não! É o que é! Mas isso torna tudo ainda mais incomum e esquisito.

Alguns dirão (e muito bem) que se trata de iniciativa e voluntarismo e que deve ser louvada. Outros apelidam como um constante circo mediático (e com razão), considerando tratar-se de um comportamento impróprio.

A nós, assalta-nos esta desassombrada realidade, que nos remete para uma evidente falta de capacidade das restantes máquinas, que permitem que esta tome tantas vezes o seu lugar e por elas fale e seja tantas vezes a própria notícia.

01 Janeiro – Cheias motivam associação

01 Janeiro – Bares empenhados em consórcio de animação

10 Janeiro – Fórum vai debater alternativas à Red Bull Air Race

21 Janeiro – Videovigilância para “exportação”

31 Janeiro – Ribeira fechada ao trânsito no próximo mês

01 Fevereiro – Anarquia instalada na cidade

03 Fevereiro – Proibição de trânsito na Ribeira divide opiniões

03 Fevereiro – “Estamos a favor mas com certas condições”

04 Fevereiro – Segurança em risco na animação nocturna no Porto

11 Fevereiro – 12 espaços de dança sem segurança

19 Fevereiro – Freguesias a tutelar esplanadas

23 Fevereiro – Discoteca Swing está à venda

01 Março – Rio sobe 5 metros e lança o pânico

02 Março – Mais uma noite sem dormir

05 Março – Autarquia do Porto vota terça-feira protocolo para apoio ao sistema da Ribeira

06 Março – Câmara quer apoiar sistema da Ribeira

06 Março – Associação de bares do Porto acusa governo civil de ser hostil

08 Março – Associação de bares defende gravação de imagens 24 horas por dia

08 Março – Associação de bares defende gravação de imagens 24h/dia

08 Março – Associação de bares do Porto defende gravação de imagens 24 horas por dia – Porto, (Lusa)

08 Março – Associação de bares do Porto defende gravação de imagens 24 horas por dia

08 Março – Videovigilância/Porto: Associação de bares defende gravação de imagens 24 horas por dia

08 Março – Porto: Associação de bares defende gravação de imagens 24 horas por dia

09 Março – Videovigilância em Santa Catarina

09 Março – Ribeira – Câmara do Porto apoia com cinco mil euros

09 Março – Santa Catarina poderá ser a próxima zona a receber câmaras de videovigilância

09 Março – Associação de Bares e PSP pedem 24 horas de vigilância

10 Março – Bares criticam hostilidade

16 Março – Lei perversa à porta de bares

20 Março – Videovigilância foi vandalizada

27 Março – Comerciantes exigem que Red Bull seja na Ribeira

o inútil excesso, por ssru

Excesso insuportável de palavras inúteis, por PEDRO TADEU (DN)

«Uma mulher rodeada por quilómetros de terra, lama, pedra e destroços tenta, com um pequeno ramo de árvore, desenterrar qualquer coisa minúscula no lodaçal. Um monte de automóveis desfeitos, empoleirado numa pilha de troncos e barro, ameaça desabar sobre o telhado vermelho de um edifício. Um cão busca, por debaixo de uma montanha de escombros, o odor de um cadáver. Uma tromba avassaladora de líquido castanho corre, desabrida, por uma viela. É um gigante Adamastor que tudo destrói, em luta por espaço e mais espaço e mais espaço. Há falta de proporções humanas nos cataclismos dos dias de hoje.

Um miúdo de galochas e camisola interior contempla, plácido, sentado num tijolo, a persiana daquele que há minutos era o seu quarto. A janela espreita cá para fora, como um olho improvável, que a casa está lá em baixo, soterrada. Um corpo escondido por um lençol branco é levado sem vida, sem cor, numa maca carregada por bombeiros de capacete garrido, amarelo. Um braço estendido tira das águas revoltas um homem que luta contra o afogamento. Há excesso de imagens comoventes nas tragédias dos dias de hoje.

Procuramos sempre culpados. Antigamente era a fúria divina provocada pela nossa suposta vida licensiosa. Agora, que Deus já não tem fúrias e os pecados da carne são uma irrelevância moral, racionalizamos a hecatombe com a denuncia do pecado da imprevidência: sofremos, morremos, perdemos o que conquistámos à vida porque construímos onde não devemos, porque manipulamos a natureza a golpes de toneladas de betão e ferro, porque desafiamos o clima com agressões de fumo, gasolina e CO2. Há excesso de má consciência na civilização tecnológica dos dias de hoje.

Esquecemos a trica política. Guardamos o rancor para outro dia. Abraçamos o maior inimigo. Prometemos corrigir os erros do passado. Inventamos actos solidários de homenagem aos que foram embora. Destinamos milhões para pagar prejuízos. E vamos à missa. Há excesso de rituais normalizados nos dias políticos de hoje.

Nada há para dizer e, no entanto, ninguém pára de falar. Falou o Presidente. Falou o primeiro-ministro. Falou o líder do Governo Regional da Madeira. Falou o ministro. Falou o homem da Protecção Civil. Falou o comandante dos bombeiros. Falou o comentador profissional. E os jornalistas não se calam, horas e horas e horas a fio. Há demasiadas palavras inúteis na linguagem destes tempos que correm.

Maldita profissão esta, que me obriga, sem respeito pela morte, a somar as minhas palavras, mais palavras inúteis, ao ruído insuportável que me cerca…»

nota: Apenas para referir que o sublinhado do texto é nosso e que a fotografia é do JNonline. Só isso, nem mais uma palavra a acrescentar…

os políticos às vezes têm razão…, por ssru

A época é festiva e longe de nós qualquer intuito de passá-la nas habituais lamúrias e lamentos, do tipo “os políticos são todos da mesma laia”, “o ano é novo mas os políticos são velhos” e por aí adiante.

Há, certamente, nesta triste e bisonha Portugália, políticos que, às vezes, estão cobertos de razão. Portugauleses serão eles, pois então, lutando ainda e sempre contra o invasor chico-esperto!…

Pacheco Pereira é um deles. De espada em punho, o (único?) ideólogo social-democrata lá vai brandindo argumentos e desfilando causas e análises. Em algumas, vá, uma quantas, acerta. As suas teses sobre o “situacionismo” no jornalismo desta Portugália enfadonha e dorminhoca são conhecidas e, normalmente, bem fundamentadas. Descontando-lhe uma certa verve intelectualóide que roça, muitas vezes sem necessidade, alguma arrogância, Pacheco Pereira suporta as suas análises numa amostra normalmente consistente de provas de que o jornalismo que por cá se pratica participa do adormecimento da sociedade, alinha facilmente com os poderosos, não investiga, não agita, não questiona, não faz pensar. É dócil e meigo, e perpetua com isso os ignaros e a ignorância individual e colectiva, como há tempos aqui defendemos.

Mas Pacheco Pereira tem, provavelmente, um problema: as lentes. Porque mesmo que não as use, ele só se mostra interessado em ver “uma” parte da realidade. Seria interessante que observasse, por exemplo, esta notícia. Sem essas lentes pré-coloridas, ele veria certamente o ridículo de uma cópia barata e mal arranjada do trabalho de levantamento analítico que ele mesmo faz, na qual alguém pago pelo dinheiro dos contribuintes se distraiu e nos quis distrair com uma argumentação sem pés nem cabeça, talvez própria de quem muito preza a subserviência silenciosa dos media e muito gostaria que esta também se aplicasse a si, em todos os momentos e instantes.

Mas há, felizmente, excepções. De facto, ao contrário do que Pacheco Pereira faz, ou seja, ao contrário de pesquisar, elencar e dissecar um conjunto crescente de textos e discursos jornalísticos que dão corpo e fundamentação às suas teses do “situacionismo”, que só são validáveis a partir desse conjunto vasto de informação publicada e nunca de episódios soltos ou isolados, a notícia publicada no site oficial da Câmara Municipal do Porto acusa um jornal (o Público) de, através da selecção editorial de uma fotografia (!), em que se vê o presidente da autarquia em pleno uso da palavra, estar a violar “regras éticas e deontológicas a que está obrigado, uma vez que a ilustração em causa não tem relevo para a notícia, antes pelo contrário, pretende apenas induzir uma imagem falsa e negativa da pessoa em causa, neste caso, do Presidente da Câmara Municipal do Porto” (sic).

Mas a hilariante denúncia vai mais longe, explicando que o problema não é o facto da fotografia ter sido tirada, mas sim ter sido propositadamente escolhida entre centenas de flashes disparados, fazendo com que o Presidente da Câmara do Porto apareça aos olhos dos leitores como uma figura desprovida de bom senso e intolerante na forma como se exprime, tentando retirar-lhe dignidade e sentido de estado” (sic). Estaremos, pois, perante uma verdadeira “pérola” que empalideceria qualquer semiólogo encartado desta pobre e (ainda assim) triste Portugália. É, seguramente, mais uma “pérola” que, essa sim, de facto, nos deveria fazer a todos duvidar, mais uma vez, do auto-proclamado “sentido de estado” do seu mentor.

Não haverá mais nada em que aplicar os parcos dinheiros públicos? De facto, alguns políticos, às vezes, têm razão… Portugauleses serão eles, porque os ignaros romanos já parecem ter tomado totalmente de assalto a aldeia, e, poção mágica que nos livre deles, nem vê-la!

nota a 12 de Julho de 2010: Interpretando a foto abaixo, extraída desta notícia, será lícito concluirmos que afinal esta posição do Sr. Presidente até é bastante comum, talvez fruto de muitas aulas de retórica e dicção em frente ao espelho…

o mediático bocejar, por ssru

Pegámos nesta notícia do JN, do último sábado 14 de Novembro de 2009 – “Mais gravações na Ribeira” – para articularmos sobre esta forma estranha que os “media” nacionais têm de comunicar com o cidadão, a quem ajuramentaram prestar um serviço público.

Ao utilizarmos este exemplo corremos grandes riscos de sermos acusados de nos envolvermos em quezílias pessoais com uma associação ou com o seu dirigente, mas muito para além disso, este apenas é um excelente e providencial assunto que serve os propósitos de poder demonstrar o que queremos dizer,  sendo um bom e compreensível exemplo.

Lamentamos, portanto, que se deixem toldar pela perseguição ou qualquer outro sentimento mesquinho, sem verem o fundo da questão, algo que já anunciávamos no nosso anterior artigo e que dá nome ao presente.

No caso concreto, trata-se da cobertura mediática incessante que um personagem de significância muito relativa, presidente de uma associação com um espectro de actuação limitado na vida orgânica de uma comunidade, que, misturando os papeis, foi também o candidato a presidente da Junta de Freguesia, a mais pequena da Cidade do Porto (mas certamente uma das mais apelativas).

Neste particular da notícia, onde abunda o paradoxo e a contradição em termos, reivindica a necessidade de se proceder à gravação diária (durante 24 horas) da videovigilância, uma vez que o investimento se encontra feito, mesmo que reforçando “a zona nunca é perigosa”.

E a questão coloca-se neste preciso ponto em que esperaríamos que um jornalista perguntasse qual o argumento ou argumentos de sustentação desta reivindicação, que não seja apenas a existência das câmaras no local, porque seria isso que deveria interessar aos seus leitores. Ou seja, tal como a figura do recurso a uma sentença, que motivos acrescem para que as medidas tomadas tenham de ser alteradas, neste caso, agravadas.

Ou então, trata-se de mais um bocejo, como tantos outros, com a plateia cúmplice da comunicação social.

Nos dias que correm, será talvez mais fácil perceber os mediáticos bocejos porque, na verdade, o que há é um mediático sono que parece não ter fim.

Assistir ao que se vai lendo nos jornais, ao que se vai ouvindo nas rádios, ao que se vê a custo em muitos telejornais das televisões, só nos pode levar a uma conclusão: ou os jornalistas dormem profundamente, ou lhes está a ser administrado um poderoso sedativo.

Porque não é fácil entender o que leva os jornalistas sempre pelo caminho do fácil e do óbvio, do que não procura o conhecimento e o aprofundamento dos temas.

Será só o corre-corre diário de que tantos jornalistas se queixam mas contra o qual nada parecem opor? Será só a exigência de resultados económicos imediatos das suas frágeis empresas de “media” que os lançam na falta de método, na precipitação do que não verificam, na informação “fast-food” com que somos ininterruptamente (mal) servidos?

Ou será um outro problema, mais profundo, o da total falta de sentido crítico nas actuais redacções, causado pela total ausência de qualidade dos profissionais que as compõem?

Na resposta a estas questões talvez esteja algo de muito mais importante do que a mera defesa do bom jornalismo: ela significa um outro patamar de cidadania, de qualidade da democracia em que ainda julgamos viver.

Talvez nunca como hoje tenhamos tanta necessidade de uma imprensa, rádio e televisão livres e formadas pelos melhores. Porque a informação rápida, de fácil “compra” e “venda”, a informação-espectáculo que prefere procurar apenas a superfície e o supérfluo, a informação do “soundbyte” e do protagonista laroco e bacoco, essa é seguramente a informação que só serve os que querem ver a cidadania moribunda e a democracia a definhar.

Por isso, o mediático bocejo só pode ser resultado de um sono profundo dos “media”. O problema é que o resultado pode ser catastrófico.

Porque, como escreveu sabiamente Guy Debord, em 1967, na sua obra seminal “A Sociedade do Espectáculo”, “o espectáculo é o sonho mau da sociedade moderna acorrentada, que não exprime senão o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião desse sono“.

nota a 05 Dezembro 2009: O facto de se passarem apenas 13 dias, para sair nova ‘peça jornalística’ a dizer mais do mesmo sobre a ribeira vigiada, corrobora aquilo que temos vindo a expor sobre o assunto.

nota a 14 Dezembro 2009: É uma torrente insuportável de disparates, irresponsabilidade e bacoquice. Senão, vejam o conteúdo das notícias e reparem nas datas:   Bares reclamam cadastro do cliente – 2009-12-08 ;  Associação de Bares defende gravações por 24 horas – 2009-12-14. Isto é viciante!

as notícias diárias, por ssru

Apenas a generosidade da jornalista Joana de Belém e do Diário de Notícias, torna possível incluir este modesto sítio no lote dos excelentes blogues que discutem a Cidade do Porto, com a alma própria de quem é “mui nobre e invicto”. Foi o que aconteceu na passada segunda-feira, 27 de Abril, numa notícia de página inteira mostram-se os vários sítios onde se pretende falar verdade, onde se sente o pulsar, a vida das cidades de Lisboa e do Porto.

Reparem bem, estar entre os melhores blogues como a Cidade Surpreendente e a Outra Face, a Baixa do Porto, as Casas do Porto, o Não-Lugares no Porto, as Ruas da Minha Terra e outros, é motivo de grande orgulho para nós e um incentivo para continuar.

Para além da troca completa de correio electrónico que vos deixamos abaixo, fiquem ainda com a versão impressa do Norte e do Sul e com mais dois links da página online [1] e [2] do Diário de Notícias.

DN/Joana de Belém: Antes de mais, pedia alguns dados sobre as pessoas que escrevem o blogue (no caso de quererem divulgá-los, obviamente), como a idade e profissão. O que motivou a criação de um espaço tão específico como este, onde o assunto é o Porto? Apesar de ter lido a vossa declaração de princípios, gostaria que expusessem os objectivos da ssru. Manter este blogue é uma forma de exercer a cidadania? Qual a importância de manter este meio de informação? Resume-se a um prazer ou pretende contribuir para a discussão da cidade?

Enquanto cidadão/s do Porto (presumo que morem na cidade), quais assinalariam como os seus grandes problemas?

SSRU: Agradecemos a atenção que nos dirige, mas como perceberá preferimos canalizá-la para os problemas que vivemos, para o Centro Histórico do Porto, como se de facto este fosse uma entidade com personalidade jurídica a quem violentam e desprezam, a quem subtraem os direitos e hipotecam o futuro.

Se este núcleo do Porto já sofreu muitos atentados no passado e sobreviveu, terá sido à custa da obstinação daqueles que resistiram. Se o CHP consegue resistir é porque a sua qualidade é tal que a destruição a que assistimos não consegue derrubá-lo, como em muitas outras cidades deste País ou como muitos outros Patrimónios da Humanidade. Por isso deve ser preservado.

Falar de nós será fácil e desinteressante: quatro amigos e vizinhos que vivem e trabalham no coração da Cidade e que se cansaram de assistir passivamente à degradação ignorante e selvagem de um património que deveria pertencer a todos. As idades variam entre os 35 e os 45 anos e as profissões são diversas: uma jurista/investigadora, uma assistente social, um arquitecto e um economista/empresário.

Avançamos para esta empreitada em “part-time”, porque nos encontramos apenas quando é possível, sobretudo ao fim-de-semana, o que nos constrange bastante uma vez que a velocidade a que tudo acontece é muito superior à nossa capacidade de reacção.

Para reagirmos a uma notícia ou ao lançamento de uma proposta (como o Plano de Gestão do CHP) temos que estudar para podermos concordar ou argumentar contra. Quando recebemos uma dica ou uma informação, independentemente da sua importância, obrigamo-nos a verificar a sua veracidade para não cairmos em descrédito o que aliado ao anonimato seria imperdoável. O anonimato é, assim, um preço altíssimo mas o único que podemos pagar por agora.

Como leu a nossa declaração de princípios, particularmente no segundo perceberá que não promovemos ninguém, não procuramos emprego, não pretendemos um cargo político, não esperamos vantagem económica com a nossa intervenção. Sobretudo não somos a ‘sociedade sombra’ da Porto Vivo SRU!

Assistimos passivamente à extinção das poucas instituições que ainda zelavam pelo CHP – como o CRUARB e a FDZHP, com todos os erros e limitações que estes cometeram – e que foram substituídas (?) por uma que não faz uma décima parte e que é igualmente depende do financiamento público como as anteriores, razão pela qual aquelas foram extintas, transformando tudo isto numa falácia.

As associações do CHP, as recreativas, musicais, desportivas, etc., quase desaparecem, lutando com a falta de apoio e atenção da autarquia que desvaloriza o papel social destes grupos, enraizados na comunidade, onde só a carolice não é suficiente.

Sobressaem os BARES da Zona Histórica!? Consegue perceber o enorme erro de tudo isto?

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Consideramos ser um dever nosso, enquanto cidadãos mais atentos e sensíveis aos problemas do Porto, temos o dever, diríamos, a obrigação solene, de lutar por um lugar melhor e alertar os restantes membros da Comunidade para esses problemas, a maioria deles extremamente básicos como o direito à habitação; ou outros mais rebuscados para certas mentalidades, como o direito ao património cultural comum.

A nossa entrega não é perfeita, não é totalmente altruísta. Também pretendemos a redenção por termos ficado tanto tempo passivamente silenciosos, pouco mais fizemos para além do normal papel de cidadãos civilizados.

De todos os nossos declarados princípios, o mais difícil de cumprir é certamente o primeiro. Sobretudo porque temos consciência que o maior de todos os problemas do CHP e do Porto é: a dificuldade que os dirigentes da Cidade têm em reconhecer que o Porto tem uma gravíssima questão social por resolver.