o ano da cabra, por ssru

Começar um novo ano sem recordar aquele que terminou, é quase um pecado imoral. Para fazer isto de forma simples e sem grandes comentários socorremo-nos das melhores “imagens” que o Jornal Público nos oferece.

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“O ano visto por António Barreto: O início de nada”, por São José Almeida

“2014 não é o início de nada, porque não mostrou sinais de mudança, não trouxe ideias novas e acentuou sinais de crise da política, da crise da justiça, do aumento de corrupção, de diminuição de recursos económicos, de transferência do capital para o estrangeiro. Mostrou a desagregação, o disfuncionamento, a disrupção de alguns serviços públicos, como seja a educação”.

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É assim “uma época em que as pessoas não se reconhecem no sistema, as elites políticas não estão à altura de dar resposta”, em que, “além da degenerescência do sistema político, também há degenerescência do Estado de Direito”, defende Barreto. E em jeito de balanço, retrata: “Temos um ex-primeiro-ministro [José Sócrates] preso preventivamente com a opinião pública contra ele, um antigo ministro [Isaltino Morais] na segunda fase de prisão, um antigo secretário de Estado a cumprir pena [Oliveira e Costa], outro antigo ministro [Armando Vara] à espera de cumprir pena, um antigo secretário de Estado [José Penedos,] também à espera de cumprir pena, um antigo líder de um grupo parlamentar [Domingos Duarte Lima] à espera de cumprir pena, altos funcionários do Estado investigados e em prisão preventiva [no caso dos vistos gold]”.

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E, perante o seu próprio resumo, remata: “Não conheci, em tempos de paz, na história democrática, como isto. Há o caso italiano das Mãos Limpas, em que houve dois ou três ministros presos, mas em Itália os partidos ficaram de pantanas e o Partido Comunista e o Partido Democrata Cristão desapareceram.” Advertindo que há “em Portugal uma dimensão de corrupção que põe em causa o sistema”. Para mais quando “já tivemos antes os fenómenos do BPP, do BPN e o BCP, três histórias da elite financeira que agora acabam com o caso Espírito Santo – e nesta não é só a família que está em causa, há muito mais por trás disso, vamos ter novas prisões nas próximas semanas”, afirma o sociólogo.

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Com o mapa da corrupção sinalizado, conclui: “A crise é assim também do nosso capitalismo que não está à altura. Há dinheiro árabe, angolano e chinês. Não é por ser dinheiro estrangeiro a ocupar Portugal, o dinheiro não tem cheiro nem nacionalidade, mas são dinheiros frescos, que compram e não investem. Isto demonstra que o sistema económico português é frágil e que a elite económica é fragilíssima. Há uma crise política, há uma crise na justiça/ corrupção, há uma crise capitalista. Além de que 2014 é o ano da transferência de poderes e de inversão do peso dos direitos e do trabalho.”

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Sobre se “2015 será pior?”, Barreto apenas diz: “Vamos ver. Até agora as elites políticas e económicas não deram sinais de mudança, só deram sinais de querer ganhar eleições.” Sendo um ano eleitoral, Barreto considera que “pode ser um ano de marcar passo”. Lembrando que em 2013 “toda a elite do país não conseguiu travar o processo e fazer um acordo”, o sociólogo advoga que deviam ter decorrido eleições, pois “o que estamos a viver há um ano e o que vamos viver até Outubro será para acrescentar degradação”.

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Barreto clarifica que fala em “novo poder e não novo regime, porque as pessoas perguntam logo se o novo regime é democrático ou não, monárquico ou republicano”. Mas explica que a esse novo poder político “competiria recuperar o sistema político e o sistema constitucional, sem pôr em causa, antes preservando e protegendo a democracia, que é, na essência, a liberdade dos cidadãos”.

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E lembra que “a missão de um sistema constitucional é isso mesmo, preservar a liberdade dos cidadãos e a democracia”. A esse novo poder, defende, caberia “um longuíssimo trabalho de organizar o poder do Estado, os poderes periféricos de Estado, o corpus da Justiça, já que, remata: “O sistema judicial vive em auto gestão, tem que se rever o actual modo em que as decisões estão apenas nas mãos dos senhores juízes e dos senhores magistrados.”

o sério sacripanta, por ssru

Haverá para uma maioria inúmeros motivos para apreciar Rui Rio, tantos quantos para uma minoria o desprezar. Na verdade, a nossa opinião sobre o indivíduo é bem conhecida dos estimados leitores que nos acompanham desde sempre. O que pior caracteriza a linhagem de políticos (e não só) como os que agora temos, é a sua entranhada incultura. Para melhor definir um ser ou povo não bastará a quantidade de conhecimento, mas antes a qualidade do saber e, sobretudo, será a sua cultura que o fará sobressair dos demais. Pois, dificilmente nos cruzamos com um político como Rui Rio nos Lugares de Cultura como Serralves, Casa da Música, Teatro Nacional de São João ou TeCA, Casa das Artes, Coliseu, Museu Soares dos Reis ou tão só a Livraria Chardron. E olhem que a culpa não é nossa, pois bem tentámos!

Verdadeiramente insuportável é o cinismo e a hipocrisia de se achar para além do político que é, como se pairasse numa nuvem etérea acima da mole de privilegiados, da qual sempre fez parte e com a qual sempre usufruiu de mordomias, como um regurgitado sucedâneo do sistema politico que sempre criticou. Sim Nuno, é verdade, que se parece com Sócrates mais do que com qualquer outro e por isso vejam onde estamos agora!

um homem sério, digam o que disserem os tribunais, dactilógrafo, 4 de Novembro de 2014.

Quando, mais meses menos dias, os opinadores e os partidólogos do socretinismo (re)começarem a montagem do cenário para transformar o energúmeno em líder do PS com D e, consequentemente, em primeiro-ministro, ninguém evocará o tema do Aleixo. Nem as distintas formas de gestão “séria” do Rivoli, da Águas do Porto, da Porto Lazer, dos mercados municipais, do pavilhão Rosa Mota, dos terrenos da Casa da Música. O tribunal permite-nos dizer que Rio é energúmeno, mas a inteligentzia não nos deixa beliscar a seriedade do autarca. Um homem que leva as contas públicas como quem gere o orçamento familiar, com a austeridade dos bem formados, confiando nos amigos, também eles tão sérios.

Quando este momento da elevação do energúmeno a Sebastião (com laivos de rei enevoado, marquês pós-terramoto ou até santo do caravaggio) a ninguém chocará que um dos envolvidos no maior negócio do final do mandato do energúmeno seja representado pelo seu chefe de gabinete. Todos ficarão sossegados ante as garantias de rigor da peça talhada no Colégio Alemão. Este homem não é um político, é um BMW que há-de funcionar a vida inteira sem precisar sequer de mudar o óleo.

E isso vai acontecer desde logo porque dentro das máquinas partidárias que sustentam estes personagens ninguém se choca com a paisagem. Nem sequer dizem “it’s a son of a bitch, but it’s our son of bitch!” porque, para o ecossistema socretinista que se apoderou dos partidos da (des)governação, este é o normal. É uma questão de fé e clubismo.

Fora do próprio partido, quem se dará ao trabalho de desmontar o Leviatã? Os Okupas do Bloco?, essa cambada de punks mal lavados que não tem a mínima ideia do que é gerir uma cidade? Ou os desiludidos do PC? Que até estiveram na coligação que permitiu ao energúmeno levar a coisa por diante?

Dirão, como dizem agora os tipos do PP espanhol, que tudo foi feito para eliminar a corrupção. Aliás, quem ousará proferir uma tal palavra nos arredores da herança do energúmeno? Porque todos sabemos que “corrupção” é uma coisa suja, em que alguém ajusta ou contorna as regras e os princípios para assegurar um benefício próprio ou a outrem. Rio, digam o que quiserem os tribunais, nunca fez nada mais que não fosse no interesse público e nunca favoreceu a outros que não fossem os cidadãos da Invicta.

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o manifesto implosivo, por ssru

Manifesto anti cavaco – Uma geração que consente deixar-se representar por um Professor Aníbal Cavaco Silva é uma geração que nunca o foi. É um cóio d´indigentes, d´indignos e de cegos! É uma resma de charlatães alaranjados e de vendidos, e só pode votar e parir abaixo de zero! Abaixo a geração laranja! Pôrra pró Cavaco, pôrra! Pim!

Cavaco Silva critica partidos e fala em implosão do sistema partidário – Jornal de Notícias, 05 de Outubro de 2014. (…) No seu discurso no 5 de Outubro, o Presidente da República culpou as “promessas irrealistas” dos partidos pela crescente “insatisfação dos cidadãos” e a sua “falta de confiança nas instituições”, que têm tido reflexos em “níveis preocupantes de abstenção”. (,,,) Mantendo-se a tendência das forças partidárias para rejeitarem uma cultura de compromisso, não é de excluir, sem qualquer dose de alarmismo, um aumento dos níveis de abstenção para limiares incomportáveis ou a implosão do sistema partidário português tal como o conhecemos”, afirmou Cavaco Silva. (…) Cavaco alertou ainda para os “custos” da “cada vez maior repulsa dos cidadãos mais qualificados pelo exercício de funções públicas”. “Já se pensou nos prejuízos para o país se não tivermos as pessoas com as competências certas em determinados altos cargos da Administração Pública?”, questionou.

Tamanha é a repulsa, Sr. Silva. Estamos tão fartinhos desta resma de charlatães coloridos e vendidos, deste coio d’ indigentes, d’indignos e cegos, que o melhor mesmo é que o sistema partidário tal como o conhecemos se IMPLODA de vez. Viva a República.

os tempos difíceis, por ssru

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz / Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. / Eu não quero pagar depois de tudo o que dei / Não me fazem ver que fui eu que errei.

Não fui eu que gastei mais do que era para mim / Não fui eu que tirei, não fui eu que comi / Não fui eu que comprei, não fui eu que escondi / Quando estava a olhar não fui eu que fugi.

Não é essa a razão para me quererem moldar / Porque eu não me escolhi para a fila do pão / Este barco afundou houve alguém que o cegou / Não fui eu que o não vi.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz / Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. / Eu não quero pagar depois de tudo o que dei / Não me fazem ver que fui eu que errei.

Talvez do que não sei talvez do que não vi / Foi de mão para mão, mas não passou para mim / E perdeu-se a razão tudo bom se feriu / Foi mesquinha a canção desse amor a fingir.

Não me falem do fim se o caminho é mentir / Se quiseram entrar não souberam sair / Não fui eu quem falhou, não fui eu quem cegou / Já não sabem sair.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz / Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. / Eu não quero pagar depois de tudo o que dei / Não me fazem ver que fui eu que errei.

Meu sonho é de armas e mar / Minha força é navegar / Meu Norte em contraluz / Meu fado é vento que leva e conduz.

Esta canção é muito simples. Não tem grandes metáforas, nem segundos sentidos. Escrevi-a para mim, porque um dia acordei e percebi que já há uns tempos que me sentia a sofrer as consequências de uma jogatana qualquer com a qual eu não tive nada a ver. Lembrei-me de quando estava na primária, quando um coleguinha qualquer lá na turma fazia uma tolice às escondidas e a professora dizia: se ninguém se acusa ficam todos de castigo! O coleguinha nunca se acusava… e ficávamos todos de castigo.

Esta canção não fala só de um coleguinha. Fala de muitos coleguinhas que ao longo de muitos anos fizeram muitas tolices. Coleguinhas por Portugal inteiro, em todas as áreas da sociedade, não só na política mas quase sempre debaixo da sua alçada. Esta música fala de desonestidade, de falta de respeito e amor pelo nosso país, o que quer dizer, pelo próximo. Mais nada. Tiago Bettencourt

“Tempos Difíceis”, o décimo romance de Charles Dickens escrito no ano de 1854, marca um período importante da sua obra, constituindo um ponto de viragem. É uma novela em três volumes e sendo uma obra de ideias, não se pode denominar propriamente um livro de combate. Com o seu enredo e descrições laboriosas apresenta um aspecto novo na sociedade provinciana inglesa do seu tempo, a luta entre o moderno e o antigo, através da burguesia e de pensamentos novos, como o Positivismo. As condições de trabalho eram terríveis; um operário era obrigado a trabalhar tanto quanto a sua constituição permitisse e as crianças eram levadas a um trabalho desgastante com o intuito de “tirá-las das ruas e das seduções que a vida mundana proporcionava”.

“Tempos Difíceis” é uma obra imortal que representa um libelo contra ideias e preconceitos arraigados na sociedade, expondo uma visão de abusos, erros, egoísmos. Os problemas básicos de sobrevivência presentes neste romance vão além de qualquer período e garantem a necessidade de meditação, já que Dickens, com mão de mestre, construiu um enredo e personagens excepcionais, que o transformaram num dos maiores escritores da Literatura Mundial.

a “fábrica cretina”, por ssru

Da “Fábrica Cretina” saem todos os anos, resmas de exemplares “assemblados”, de imbecis altamente qualificados, cretinos para tomarem conta de nós e nos dizerem aquilo que devemos fazer das nossas vidas. O jornalista Miguel Carvalho, que estimamos e admiramos, tira-lhes tão bem o retrato!

Tenho para mim…14 DE ABRIL DE 2014 / MIGUEL

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…que deve haver por aí uma fábrica da pulhice humana, com moderna linha de montagem, onde se confeccionam exemplares feitos em série, de várias gerações e para diversificados sectores de negócio, à vontade do freguês. Ou é isto ou já são muitas conversas a ouvir amigos queixarem-se dos pulhas que lhes calharam em sorte no local de trabalho, na família, nos serviços. Escutam-se os lamentos e os pulhas parecem todos iguais, saídos da mesma casca. Ou aprenderam nas mesmas escolas ou foram feitos na mesma fábrica. E como se não bastasse, ainda procriam.

a crónica da crise, por ssru

As palavras que se seguem, foram ouvidas pela primeira vez a semana passada na Póvoa de Varzim, ditadas pela boca e na voz (trémula de início, mas sempre presente) do seu autor, o escritor João de Melo. Foram 15 minutos  longos que perdurarão para sempre enquanto a memória não nos abandonar à pior das sortes. Palavras que se insinuaram, instalaram-se sentadas no meio de nós, erguidas nos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma. Nada mais havendo a acrescentar, pedimos a todos que tenham a felicidade de as ler.

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“Viagem pela ideia da crise” – Opinião de João de Melo, in Público, 26 FEV 2014

Não sei há quantos anos ouço falar de crise – a ideológica, a religiosa, a sentimental, a artística, a literária; e também a social, a económica, a financeira, a laboral, a política, a mundial ou a universal. Uma crise sem paredes que circula entre todos os espaços em branco – esta espécie invasora que já não se detém no limiar de nenhuma fronteira; que não precisa de passaporte nem de santo e senha para entrar, insinuar-se, insurgir-se e instalar-se sentada no meio de nós, ou erguida no pavor sombrio dos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma (para quem ainda a possua ou nela creia, obviamente!).

Nenhuma ideia de felicidade nos pertence (seria no mínimo ridículo que um escritor ousasse confessar-se uma pessoa feliz). Nascemos portugueses, mas para sobreviver a um permanente e absoluto estado de crise, em Portugal. Aqui mesmo ao lado, em Paris, a cidade do exílio e dos mitos ideológicos de outrora, Jean-Paul Sartre morreu com as mesmas dúvidas que o levaram a inventar uma teoria para a angústia do homem moderno, à qual chamou “existencialismo”. Para mim, a única e verdadeira crise dá pelo nome de hiperidentidade – ao mesmo tempo individual e colectiva. Assistem-me portanto o direito e o dever de a invocar. Não sei que fazer de mim, do meu excesso de identidade. Sei muito bem quem sou, mas ignoro a minha missão e não sei em que morada deixei esquecida a chave do meu próximo destino.

Nenhuma possibilidade de se ser feliz em Portugal? Seja pelo facto de nada de bom ou de extremamente mau nos acontecer, seja porque em Portugal simplesmente já não acontece nada. Falamos pouco, mas ouvimos muito. Come-se mal, bebe-se melhor. O resto é uma chaga, uma deriva, um sentimento de que nada aqui nos pertence. Não sei quem veio de fora, nem por que motivo as coisas deixaram de ser nossas – mas voga por aí uma presença estranha, o rosto invisível e absoluto de um qualquer ocupante estrangeiro. Ele mudou o nome das coisas e a precisão doméstica dos nossos sítios. Tomou conta dos lugares públicos. Aquartelou-se nas casas, nas tribunas e nos templos. E agora impõe-nos uma ordem social e espiritual que nunca foi nossa: ou seja, uma religião sem princípios, a confraria da imoralidade, o coro, as matinas, as vésperas de um convento para as almas. E uma sabatina histórica que não nos deixa regras nem palavras. Mas se de facto não acontece nada, tudo porém se vai fazendo em nome de uma imensa maioria silenciosa, a mesma que dá sustento e legitimidade aos diques de que é feita a conjura, digo, a conjuntura do medo e do regime.

Hoje, em Portugal, é Deus quem parte e reparte com o Diabo, ficando este com a melhor parte. São populares e risonhos os amanuenses e os ditadores do país onde já não acontece nada. Basta-nos, para que isto ainda exista, haver lá no alto um cardeal primeiro-ministro, alguns bispos e curas nos ministérios e uns quantos noviços por secretários de Estado – mantendo-se assim a nossa ilusão acerca da existência do país. Bastam-lhe os lugares sentados no Parlamento e um talentoso orador a gritar ao povo; bastam-lhe dois escritores e meio para falar por todos; doze actores de teatro e cinema, dez polícias e um general, um maestro de batuta erguida ante as cinquenta e duas cabeças de uma orquestra, zero vírgula um arrependidos políticos confessos, dois vírgula zero seis professores e sindicalistas, três médicos e meio engenheiro, um cantor de fados e treze guarda-costas, um agricultor e oito industriais, um futebolista e três quartos de outro, um careca idoso e outro careca que ainda exibe o cartão jovem ou o título de novo empreendedor – e fica completo o comício.

Não posso nem devo queixar-me de um país que já não existe. Lamento tudo aquilo que aqui me cerca: este território de ocupação e de gente possuída, este novo “silêncio do mar” de que falou um dia o proscrito Vercors, e o tempo de agora que parece eterno enquanto dura, como diria o poeta Vinícius; o tempo em que, em silêncio oficial, vão morrendo (indignados, desgostosos) mulheres e homens de cultura, gente honrada que assistiu à nova invasão dos Hunos e à sua barbárie e que ainda assim permaneceu honrada. Vão-se os homens desta terra que em tudo deixou de valer a pena desde que sua alma se fez pequena. Vão-se os anéis e os dedos, os pomares e as vinhas, as searas de trigo e os pinhos, os pássaros e o milho – e calam-se pouco a pouco as vozes e os sinos. Já tudo foi dito e escrito, ó André Gide; mas, visto que a memória é tão breve, deve-se escrever e dizer tudo de novo. E aprender no vento os nomes de tudo aquilo que agora é e que dantes não estava aqui. Havia a agricultura e os campos, o canto e a lida (Fernando Pessoa), a poesia e o sonho, os barcos, as veredas e as sombras. Havia algo por que ainda fosse possível e preciso gritar. Não este silêncio e este sepulcro, nem este desmazelo prepotente, nem esta arte de que usam e abusam eles, os ocupantes, para nos fazerem calar a boca e ter paciência. O caso é que eu aprendi a revolução e a história na escola primária. Vivi-as no gesto largo dos heróis, colhi-as como as flores do mal e do vinho em Baudelaire. Não vim para assistir a isto de chegar uma gente sem idade nem memória de nada e obrigar-me a crer que tudo aquilo que vivi e amei não passou afinal de uma ficção ou de uma mentira. No meu tempo, havia livros escritos só para que os comessem os subalimentados do sonho, ó Natália Correia, e não esta gente que nos vira a cara, que cospe para o lado e diz entre dentes que a cultura é cega surda e muda como a pedra, como a “mula da cooperativa” (canção da ilha da Madeira, onde também vibram e morrem alguns dos sonhos que nos foram comuns).

Uma breve história de logros. A história súbita, devassada e oprimida dos meus logros portugueses. De pouco adianta escrevê-la: ninguém ma leria, querido Eça de Queirós. Não devo sequer contá-la: não há quem ouça. Fosse eu um príncipe com orelhas de burro (ou burro com orelhas de príncipe) e com mãos ou patas abriria a terra, a única confidente portuguesa, para a ela contar a longa relação dos logros lusitanos. Quem sou eu, porém, para duvidar da evidência e mesmo da certeza, da versão oficial e do comunicado semanal do conselho de ministros, das notícias do bloqueio e daquele que foi eleito para não ter dúvidas – no país onde já um dia vi passar ciências sociais e humanas como a Filosofia, a Geografia, a Historiografia, a Literatura, a História Universal da Infâmia, Jorge Luis Borges, a ditadura, a guerra colonial, o golpe de estado, a revolução; neste mesmo país onde hoje já não se é nem se está vivo pelos próprios meios da inteligência e da vontade; onde pouco ou nada vale a pena, e cuja consciência nos dói – mas onde já nem a consciência disso vale a pena ou a paixão?

A crise é uma viagem pelo tempo acima – e esta a minha crónica dela. Penso-a e vivo-a com palavras. As sempre belas e amadas palavras. Amo-as tanto como às mulheres e às nuvens brancas que pairam sobre o azul plano e luminoso do mar. Porque eu gosto dos amores secretos que também a mim me escondem da evidência em pleno campo de batalha. Mas a minha guerra não defende o rei. Armei-me contra a crise que levou daqui a alma e trouxe consigo o exército estrangeiro. Atacar o ocupante, mandar prender o rei e o eleito na ilha mais distante de todas as ilhas, fora do coração do povo, para que um e outro vejam e provem deste mesmo exílio; e morram ambos, como nós morremos, do nosso desgosto de sabermos quem somos – e afinal termos perdido o navio do regresso a casa, à terra dos nossos pais, ao mar que um dia já foi só nosso e agora, definitivamente, não nos pertence.

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o doloso quociente, por ssru

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Ministra das Finanças dá bronca no Porto – in Jornal de Notícias, Política//25-01-2014

A MINISTRA das Finanças causou um profundo mal-estar quando, na passada terça-feira, sugeriu, perante duas ‘dezenas de empresários nortenhos, que a Associação Comercial do Porto se fundisse com a Associação de Comerciantes do Porto. Depois de Nuno Botelho, presidente da primeira, a ter acusado de “ignorância”, explicando-lhe que uma nada tem a ver com a outra, Maria Luís Albuquerque, já irritada, arranjou alternativa: então que se juntem a Associação de Comerciantes com a Associação Empresários de Portugal (AEP).

A ministra participava numa sessão de trabalho num hotel do Porto marcada pela Distrital do Porto do PSD. Já no final do encontro e à laia dos cortes que o país terá que continuar a fazer, considerou que o país tem associações a mais e que gasta com elas dinheiro a mais. A ACP não é subsidiada pelo Estado, por exemplo.

“Criou-se um clima de mal-estar por causa da ignorância da ministra”; disse um dos presentes ao JN. “É uma atitude reveladora do pior centralismo, uma falta de consideração pelo Porto”, acrescentou outro dos convidados. Antes, já a ministra deferira um violento ataque contra a Sociedade de Reabilitação Urbana, na senda da guerra que mantém com a Câmara do Porto. “O Estado não vai entregar nem mais um euro à SRU”, terá dito. Contactado pelo JN, Nuno Botelho, presidente da ACP, ficou-se por um “não confirmo nem desminto”. P. F.

Convidada pela distrital do PSD (?), a ministra das finanças conseguiu no Porto, provar tudo aquilo que dizemos acerca das qualidades políticas desta gente que nos desgoverna. A notícia acima (que só encontramos no JN em papel e no clip da ACP, curiosamente) revela uma governante cujo quociente de inteligência roça a ignorância pura, como também é doloso, uma vez que atinge um entranhado ressabiamento disparado em várias direcções. Conseguir, num dado momento da sua parda vida, confundir as diferentes instituições da Cidade e ainda atacar violentamente a única SRU que tem as contas bem feitas, é obra. E desrespeito…

A revelação mais importante a reter é que o comportamento do Governo em relação ao Porto é, ao mesmo tempo, premeditado e abstruso. Assim se percebe por actos vis como o aumento brutal das rendas nos bairros do IHRU e na recusa dos benefícios fiscais para imóveis classificados do Centro Histórico. Por quanto tempo mais teremos de carregar nos nossos ombros o peso do mal que grassa neste País?

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a vida enlatada, por ssru

A conclusão a que chegamos é que Portugal é um País que enferma de uma estupidez endémica! No mesmo dia podemos ler duas notícias tão diferentes mas tão intimamente ligadas, a começar por esta:

“Governo sorteia carros para quem pedir fatura”

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A ‘lotaria de faturas’ arranca em janeiro e, para já, vai sortear automóveis. O sorteio será semanal e destina-se a incentivar os consumidores a pedirem faturas com o seu número de contribuinte. (…) Para ficar habilitado tem que pedir para incluir o número de identificação fiscal no ‘recibo’. Todo o tipo de compras (em qualquer sector de atividade) são válidas e habilitam para o sorteio.

“Uma em cada 5 famílias deixou de comprar carne ou peixe por falta de dinheiro”

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Uma em cada cinco famílias portuguesas, mais precisamente 22,8%, inquiridas num estudo da Direcção-Geral da Saúde (DGS) admite não ter tido dinheiro para comprar alimentos como carne ou peixe nos últimos três meses de 2012. (…).O estudo da DGS acrescenta ainda que quase 30% dos agregados familiares confirmaram ter mudado de hábitos alimentares no período em análise, motivo pelo qual deixaram de comprar alimentos que consideram essenciais.

Abram alas para o enlatado da vida…

a lei fundamental, por ssru

Segundo a Lei Fundamental do País, “a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efectivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa”. Quer isto dizer que há, aqui neste rectângulo, um lugar para todos, desde o mais simples e cumpridor cidadão ao mais abjecto e viscoso indigente cidadão. Isto acontece porque a soberania é una e indivisível e reside no Povo, seja ele qual for.

Ora, este Estado de direito democrático só o é se se subordinar à Lei Fundamental e se fundar na legalidade democrática, leis essas que só serão válidas se estiverem em conformidade com a própria Constituição. Foi por isso que o Povo Unido, conhecedor de si próprio, criou o Tribunal Constitucional, para garantir que não andavam uns viscosos a dar cabo disto tudo e a ficarem com a melhor parte do pernil.

Um dos direitos fundamentais previstos na Lei Fundamental é a liberdade de expressão, ou seja, a possibilidade de dizermos o que pensamos sem que por trás apareçam uns tipos cinzentos que nos levam para um quarto escuro e nos deixem cheios de nódoas negras. Em Portugal toda a gente critica toda a gente, pois desde que não se ultrapassem os limites previstos na Lei e não se chame palhaço ao Presidente da República, tudo o resto é permitido.

É por isso que qualquer cão, gato ou rato diz mal do Tribunal Constitucional e até mesmo nós, formiguinhas obreiras, já criticamos o porquê do TC ter permitido que o Estado roubasse o nosso salário, no ano passado, admitindo ao mesmo tempo que havia inconstitucionalidade naquele roubo. Foi uma coisa assim do género: “Ah, os meninos viscosos estão a roubar o lanche aos vossos colegas mas como já comeram metade da santocha, vá… comam lá o resto, s.f.f.! Mas para o próximo recreio não o repitam, está bem?!” O nosso grande problema é que eles repetiram, ano após ano têm repetido os mesmos actos infâmes de violar a Constituição da República Portuguesa e não há ninguém que os castigue. Crucificaram a Manela quando ela sugeriu que se suspendesse a democracia por seis meses e agora já andamos nisto há dois anos e meio. Pensarão eles que tudo é aceitável só porque levaram o Estado à falência e ainda nos ameaçam com a falta de dinheiro para pagarem os ordenados. Austeridade e mais austeridade… Dizem eles que a Lei tem que ser mudada e que foi feita num tempo diferente e que não se adapta a esta crise que vivemos e o TC também não faz falta nenhuma porque não sabe olhar para a realidade do País e que vivemos durante muito tempo acima das nossas possibilidades… Mas afinal a quem é que eles se referem, a que País e a que Povo?

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foto @ google

Criticar é fixe. As críticas podem sempre ser aproveitadas, as boas e as más, para modificarmos alguma coisa para melhor. O que não suportamos é esta ideia de permitirmos que nada acontece àqueles que juraram defender a Lei e a violam ou deixam violar constantemente, a troco de umas 30 moedas ou menos. Aqui, verdadeiramente, não há palhaços, só há traidores!

“Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”, disse ele!

a república avessa, por ssru

Foi há um ano atrás, lembram-se? Até hoje ainda não nos recompusemos!

apenas conseguimos endireitar a bandeira portuguesa

apenas conseguimos endireitar a bandeira portuguesa !

Cento e dois anos de vida ainda podem trazer episódios insólitos? Podem. A República Portuguesa cumpriu-os ontem e viu o Presidente hastear o seu símbolo oficial ao contrário. Cavaco Silva só se apercebeu depois, a bandeira foi endireitada (já por outras mãos), mas o mal estava feito. Mesmo que na sua intervenção Cavaco tenha evitado lançar mais achas para a fogueira da crise política e social, preferindo centrar-se num tema tão consensual como a formação dos jovens, o último dia 5 de Outubro celebrado como feriado encontrou sozinho uma imagem ajustada ao momento.

(…) Ao contrário do que fez em anos anteriores na mesma data, Cavaco Silva preferiu passar ao lado da crise ou do Orçamento do Estado para o próximo ano, evitando agravar o actual contexto social e político que considera mais grave que nos últimos anos. Nesta cautela calculada, o Presidente explicou que “deve situar-se numa posição suprapartidária, acima de controvérsias políticas que marcam o dia-a-dia” e o mais longe que foi em termos de recados foi dizer que o “sacrifício tem de ter um propósito, um sentido, uma razão de ser”.

República de pernas para o ar e com cautelas do Presidente, no Jornal i

a época de caça, por ssru

Está oficialmente aberta a época venatória 2013/2014 de caça ao político português, na subespécie cinegética de nome científico “relvas”, melhor conhecido em certas ZCM’s como “ladrão” e “aldrabão”. Trata-se de uma acção programada com vista a obter o controlo da proliferação desta subespécie invasiva, cuja reprodução se opera por equivalência e que tem dizimado o sistema produtivo nacional, a nossa organização territorial, os bens públicos e privados, a nossa cultura e a sanidade mental do Povo Português. As reservas de caça foram alargadas, uma vez que ZCM passou a designar a Zona de Caça Mundial.

os ladrões do tempo, por ssru

Há quase dois séculos atrás, em 1819, Benjamin Constant apresentou aos seus pares, numa conferência memorável, o texto intitulado “Da Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos”. Ali desvelaria algumas considerações que pretendia submeter ao julgamento dos restantes e que colocava em confronto a liberdade colectiva dos povos antigos, onde os cidadãos tinham um peso preponderante nas decisões políticas, mas cuja vida privada não controlavam; e por outro lado, a liberdade pessoal dos povos modernos, cujo indivíduo é dono da sua vontade mas cujo peso político é quase nulo. Do seu longo e profético texto detemo-nos em algumas conclusões:

“(…) O perigo da liberdade moderna está em que, absorvidos pelo gozo da independência privada e na busca de interesses particulares, renunciemos demasiado facilmente ao nosso direito de participar do poder político.

Os depositários da autoridade não deixam de exortar-nos a isso. Estão sempre dispostos a poupar-nos de toda a espécie de cuidados, excepto os de obedecer e de pagar! Eles nos dirão; “Qual é, no fundo, o objetivo de todos os vossos esforços, o motivo de vosso trabalho, o objeto de vossas esperanças? Não é a felicidade? Pois bem, essa felicidade, aceitai e nós nos encarregaremos dela.” Não, Senhores, não aceitemos. Por mais tocante que seja um interesse tão delicado, rogai à autoridade de permanecer em seus limites. Que ela se limite a ser justa; nós nos encarregaremos de ser felizes.(…)”

Dê-se o caso dos representantes desta nossa jovem Democracia, entenderem ser necessária uma expiação para que a Liberdade dos cidadãos deste País seja salva e, num futuro preferencialmente próximo, começarem a falar VERDADE e aí nós poderemos entender o rumo que estamos a dar às nossas vidas. A Verdade é, pois, o pilar fundamental da Justiça e com esta será possível sermos felizes.

Só uma Justiça de olhos bem abertos, permitirá que possamos perceber em que momento da nossa vida democrática nos tornamos num País de ladrões, de políticos profissionais sem escrúpulos, de decisores desqualificados… Pois, infelizmente o Tempo não está a nosso favor!

Quem se julga esta gente? | Nicolau Santos | Expresso, 2 de agosto de 2013

O caso BPN continua a queimar as mãos de muita gente. Tanto que, quando alguém que esteve ligado ao banco vai para um lugar público e tem de divulgar o seu curriculum, elimina cuidadosamente essa atividade do seu passado.

Foi isto que fez Rui Machete, foi isto que fez Franquelim Alves, passando aos jornalistas um atestado de incompetência e aos cidadãos, um atestado de estupidez.

Não está em causa a compra ou venda de ações de uma instituição bancária. Mas está em causa saber 1) se toda a gente podia comprar ações do BPN; 2) se toda a gente que comprou as viu recompradas pelo dobro ou pelo triplo do seu valor original; 3) se esses ganhos assentavam na atividade normal do banco.

Ora para quem não se lembra, o BPN não estava cotado em bolsa. Por isso, só comprava ações do banco quem a administração convidava para tal. Foi assim com Cavaco Silva, que comprou e vendeu ações do BPN tratando diretamente do assunto com o presidente da instituição, Oliveira Costa.

Depois, a compra de ações de ações pelo banco por valores muito superiores aos que as tinha vendido não resultava do livre funcionamento do mercado – mas de uma decisão da administração e, em particular, de Oliveira Costa.

Quer isto dizer que o presidente do BPN beneficiou quem quis – e beneficiou seguramente os seus amigos. Não por acaso, todos (ou a esmagadora maioria) os beneficiados com a venda de ações altamente valorizadas ou com vultuosos empréstimos não reembolsados são membros ou simpatizantes do PSD. E suponho que não é preciso dizer os nomes.

Por isso, se tudo fosse tão normal e transparente, Rui Machete não teria eliminado do seu curriculum as funções que ocupou no BPN. Por isso, também não devia ter dito que isto revelava a podridão da sociedade portuguesa.

É que se este caso revela alguma coisa é a podridão com que altas figuras do PSD ligadas ao Estado ganharam muito dinheiro com um banco fantasma que era liderado por um grupo de malfeitores.

E é esse dinheiro fácil que está agora a ser pago, com língua de palmo, por todos os contribuintes. Mais de 4 mil milhões de euros dos nossos impostos servem para pagar as mais-valias e os empréstimos não reembolsados que o BPN concedeu.

Por isso, seria de muito bom-tom que todos os que lucraram com o BPN se calassem e que não nos tentassem convencer que tudo foi limpo e transparente no dinheiro que ganharam. É que, como de costume, os senhores privatizaram os lucros. E deixaram para os contribuintes a socialização dos imensos prejuízos. Haja vergonha!

a demissão já, por ssru

Este [governo] é um flagelo pessoal, familiar e social. É uma das experiências mais traumáticas que alguém pode ter. A melhor forma de afectar o [governo] no curto prazo, portanto, quanto mais cedo melhor, é criar as condições para a nossa recuperação económica, obviamente, demitindo-o. Sobretudo, depois de mais isto:

a perigosa austeridade, por ssru

Paul Krugman, nobel da economia, defende que a saída da crise europeia passa por uma maior solidariedade entre os países, ou seja, que, num curto prazo, os países com excedentes orçamentais, procurem produtos que possam ser fornecidos pelos países com défices e problemas de endividamento, ao mesmo tempo que estes implementem uma considerável austeridade orçamental.

Ora, a senhora Merkel, que amanhã nos visita (sabe Deus como vamos poder pagar a sua estadia, agora que não temos dinheiro, nem para comer!?), veio pedir mais cinco anos de austeridade e sacrifícios aos parceiros europeus, como forma de ultrapassar a crise financeira e monetária: “Precisamos de austeridade para convencer o mundo de que vale a pena investir na Europa”, disse.

Esta semana, o querido FMI lançou mais [uma posta de pescada] um alerta que a austeridade em países da periferia da zona euro, como Portugal, corre o risco de se tornar política e “socialmente insustentável”, numa altura em que cresce a contestação interna às medidas de contenção nas economias em dificuldades. Claro que diz isto depois de no mês passado já ter reconhecido ter calculado mal o impacto da austeridade na economia.

No fundo, andam a brincar com as vidas das pessoas pois, já há dois anos atrás o Professor Mark Blyth, do Watson Institute, explicava de uma forma criativa aquilo que neste preciso momento nos encontramos a vivenciar. Vejam o vídeo e retenham as suas palavras.

AUSTERIDADE. É grande na Europa e está a ficar grande aqui. Todos os Primeiros-Ministros têm vindo a falar nisso. Mas o que isso significa?

É o “senso comum” para a forma de pagar o enorme aumento de dívida pública provocada pela crise financeira, fazendo-o principalmente através de cortes nos serviços públicos. Primeiro fica endividado, depois paga. Parece simples, certo?

Infelizmente nunca é assim tão simples, porque a austeridade confunde a virtude com o vício. Deixem explicar porquê… Agora que supostamente o pior da crise já passou, há dívidas em todo o lado – cartões de crédito, hipotecas, dívida pública. Esta é a parte que vocês conhecem. Mas é preciso lembrar como chegamos a este ponto.

Há dois anos atrás [2008] o sistema financeiro mundial explodiu, A crise abriu um buraco de dois triliões de dólares no universo financeiro. E ao todo, os governos mais ricos do mundo gastaram, emprestaram ou financiaram entre 5 a 50% do PIB dos seus países para salvarem os bancos. Perante isto vocês podem pensar que um período de austeridade é uma boa ideia. Mas para verem como não é assim, têm que pensar no mundo como uma série de balanços patrimoniais. Ok… sigam o raciocínio.

Quer seja uma pessoa, uma família, uma empresa ou um Estado, existe um activo e um passivo: um balanço patrimonial! Antes da crise de 2008, toda a gente acumulou dívidas. Naquela época fazia sentido endividarmo-nos. Por exemplo, os 40% mais pobres da população americana não tiveram um aumento real de salários desde 1979. A sério – isto é verdade!

As empresas – sobretudo os bancos – fizeram o mesmo. Mas eles fizeram para ganhar dinheiro ao invés de pagarem as contas. É a chamada “alavancagem”. Ou seja, é a mesma dívida vista por uma perspectiva diferente.

ALAVANCAR. É um pouco como jogar o “dobro ou nada” no ‘Blackjack’. Se ficar endividado com uma hipoteca ficará à espera que o valor da sua casa aumente. Se acha que há uma grande hipótese de o seu valor subir, pode apostar um “dobro ou nada” e arriscar uma hipoteca maior. Mas, como no ‘Blackjack’, há sempre o risco de perder.

Assim, os bancos criaram montanhas de dívidas e alavancaram o seu valor umas vinte ou trinta vezes mais. É como se eles tivessem apostado todas as fichas no ‘Blackjack’. Mas cada ficha era apenas uma promessa de pagamento. Então quando as coisas correram mal, os governos acharam que tinham de entrar em cena, porque os bancos tinham-se tornado demasiado grandes para falirem.

Foi aqui que os problemas do balanço começaram e é a razão pela qual esta ideia de austeridade não é assim tão simples. Se está a alavancar uma dívida e os rendimentos perdem valor – como a casa ou o portfólio de derivados do crédito à habitação, se for um banco – o conjunto do balanço patrimonial vai afundar. Quando isso acontece, quer seja o tesoureiro da empresa ou uma mãe solteira, caso tenha rendimentos, vai querer diminuir a dívida, para ver o balanço financeiro emergir, em vez de gastar esse dinheiro. Isto significa que ninguém está a gastar. E é aí que o governo entra em cena.

Se todo o sector privado está a tentar saldar as suas dívidas, então o governo automaticamente eleva-as para compensar. A receita fiscal cai, logo o défice aumenta. Os subsídios de desemprego disparam e o consumo público assume o lugar do consumo privado.

Mas não nos enganemos: o problema é a dívida e isto tem proporções enormes – e precisamos de limpar todos esses balanços públicos e privados. Mas todas as peças estão ligadas. Se o sector público limpa o seu balanço ao mesmo tempo que o sector privado, toda a economia despenha-se. É a chamada falácia da composição: o que é bom para as famílias, para as empresas ou até para o Estado, torna-se um desastre se todos o fizerem ao mesmo tempo.

Então, porque é que a maioria dos governos do mundo decidiu fazer exactamente isso? E todos ao mesmo tempo?

Lembram-se do buraco de dois triliões de dólares? A resposta é que alguém tem de o pagar. Mas ninguém – especialmente os bancos – quer pagar.

Assim, os governos ou têm que aumentar os impostos – difícil – ou cortam nos serviços públicos – mais fácil… Especialmente quando a dívida vem com um “anel de virtude” sobre o assunto… “AUSTERIDADE”, “o sofrimento após a festa”.

Mas aqui está a chave: a ressaca da austeridade não vai ser sentida de forma igual na distribuição das receitas.

No início de 2010, o fórum dos países mais desenvolvidos do mundo – o G20 – apelou a uma “consolidação fiscal amiga do crescimento”. É como um unicórnio com um saco de pozinhos de perlimpimpim. É uma ideia simpática, mas é sobretudo uma grande treta!

Precisamente porque a “consolidação” não atingiu todos da mesma maneira. Lembram-se dos 40% mais pobres da população que nada beneficiaram com o boom financeiro? Eles são os únicos que realmente usam os serviços públicos, justamente os serviços que serão tão virtuosamente consolidados. E aqueles que estão no topo da distribuição dos rendimentos e que foram os primeiros responsáveis por toda esta trapalhada?

Esses não!

Onde é que esta força virtuosa e de senso comum, que é a austeridade, nos leva? Deixa-nos num ciclo onde aqueles que menos ganham pagam aos que ganham mais, com os mesmos rendimento estagnados e distorcidos que perderam poder de compra numa economia mais desigual e instável. Há um nome para isto: políticas de classe. E geralmente acaba mal!!!

Esta ideia de “senso comum” da austeridade, da redução da dívida pública toda de uma vez através do corte dos serviços públicos envolve uma questão de equidade: quem paga e quem não paga?

Aqueles que fizeram esta trapalhada não vão pagar, enquanto que aqueles que já pagaram o salvamento dos bancos vão pagar novamente através da austeridade. É por isso que a austeridade não é o senso comum. É um absurdo – e é perigosa!

o enorme desvio, por ssru

O ministro das Finanças de Portugal, Vitor Louçã Rabaça Gaspar, ‘homem-forte’ do Governo, grande conhecedor da História deste País e consciente da importância do seu cargo, em diversos momentos tristes da nossa vida democrática, afirmou na passada semana que “existe aparentemente um enorme desvio entre aquilo que os portugueses acham que devem ter como funções sociais do Estado e os impostos que estão dispostos a pagar para assegurar essas mesmas funções”.

foto @ diário económico

Instado a explicar-se o ministro terá respondido que “a verdadeira carga fiscal é a despesa pública. Consequentemente, quando existe descontentamento – que eu partilho – com o aumento carga fiscal, a solução é uma só: reduzir a despesa pública. Mas é uma redução difícil, exige repensar as funções do Estado e alterar profundamente a forma como o Estado opera. Considerar que é possível encontrar uma solução milagrosa é enganar os portugueses”. E concluiu que “é necessária uma grande maturidade da democracia e do sistema político português para ser capaz de resolver esta questão fundamental”.

O que parece não estar percebido (talvez o Dr. Rui Moreira consiga explicar com a sua última publicação: Ultimato”) é que aqueles que expressam o seu descontentamento nas ruas – o povo português, literalmente representado – não quer ser o único a pagar uma factura para a qual, pouco ou nada têm contribuído. Se existe ‘despesa privada’, que cada um pague a sua e seja capaz de se adaptar aos novos tempos de maior austeridade (algo a maioria já demonstrou ser capaz, cortando até na alimentação). Se existe despesa pública, que seja justificada para que possamos estar dispostos a pagá-la, conscientemente.

Ora, o que a maioria já percebeu é que a crise e a austeridade ainda não chegaram a uma minoria de pessoas e grupos, castas da sociedade e da nossa vida pública, que insiste em nos mostrar, diariamente, que a factura apenas deve ser paga pelos mesmos do costume. Ainda ontem veio publicada a notícia que referia mais uma excepção ao esforço comum, favorecendo uma classe especialmente favorecida, a dos juízes, que a julgar pelo estado dos nossos tribunais e da qualidade da Justiça, gostaríamos que nos fosse explicada com “grande maturidade democrática”.

Maturidade democrática é precisamente aquilo que falta ao grupo parlamentar do Partido Socialista com a história do recém-renovado parque automóvel. Neste tal País em crise, onde andamos todos a viver acima das nossas possibilidades, os senhores deputados vieram ao ‘saco do dinheiro’ dos nossos impostos tirar o bastante para renovar a frota automóvel, à nossa custa. O que se exigia era que, com a necessária maturidade política, tudo fosse repensado para que a despesa fosse adequada àquilo que os portugueses são capazes de pagar, pois temos a certeza que não estão dispostos a saldar todos os gastos e todas as mordomias que os políticos irresponsáveis julgam poder fazer. Neste espaço não vão faltando indicações para os caminhos  a trilhar. Podem pois começar a comprar os passes sociais e a partilhar um carrinho mais modesto, de acordo com a bolsa austera do País.

Não queremos que Portugal seja como o Uruguai ou qualquer outro país do Mundo. Mas quem nos dera que não existisse um tal “enorme desvio entre aquilo que os políticos portugueses acham que devem ter como funções no Estado e aquilo que estão dispostos a sacrificar para assegurar essas mesmas funções”. Podem começar por aprender com o Presidente Pepe Mujica, se forem capazes!

os donos de portugal, por ssru

Lemos tantas críticas negativas (propaganda e ausência de contraditório, por exemplo) e muitas achegas sobre o conteúdo deste video, que decidimos verificar as razões para tanto alarido. Perceber porque é que os patrões do sector não transaccionável dominam a economia nacional, ao ponto de substituírem os governos de Portugal, é tarefa que se mostra bastante facilitada. Descobrir a razão para este trabalho de Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas, ter sido emitido na RTP2 na madrugada de 24 e 25 de Abril, em vez de um horário nobre, às claras, é que ficou muito mais difícil.

o esplendor de portugal, por ssru

foto @ Diário de Notícias

Preocupados com a vidinha que se avoluma no tapete de nossa casa, temos tudo em cima da mesa e nada pronto, nada que se veja dito e, no entanto… tudo permanece igual como uma matriz.

A nossa paixão incondicional por António já nos deixou horas de leituras para trás da almofada, mas hoje ao acordar concordamos todos que estamos perante um texto terreno, como um fato feito à nossa medida, que arrasta pelo chão os nossos ensaios de um mundo novo…

O Dr. António de facto esqueceu-se de Cavaco, ou talvez não se quisermos que assim seja. A confiança é a palavra-chave, dizia o presidente de buliqueime em Trás-os-Montes, logo ali, terra de gente que ainda usa a palavra com as cores da Honra, cuspe selado com o aperto de mãos. Raios o partam! “Não há de facto País altamente desenvolvido que não reconheça o valor do mérito e o valor do talento”. Matasse o cinismo… e estávamos hoje em eleições!

foto @ Expresso

Nação valente e imortal”,

de António Lobo Antunes – 8:40, Quinta-feira, 12 de Abril de 2012.

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.

Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.

Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.

Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.

Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.

Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.

Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

o risco sistémico, por ssru

“Na Suíça, ao contrário de Portugal, não há reformas de luxo. Para evitar a ruína da Segurança Social, o governo helvético fixou que o máximo que um suíço pode receber de reforma são 1700 euros. E assim, sobra dinheiro para distribuir pelas pensões mais baixas.” Programa Hoje-RTP2, Reformas na Suíça – 2010-11-10 10:40:07.

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O primeiro-ministro italiano, recém-nomeado, decidiu prescindir do seu ordenado dando assim um claro exemplo de sacrifício perante a humilhante crise económica em que a Itália se vê mergulhada, tal como a restante Europa. Podemos contestar a inocuidade da opção, podemos alegar que, se o fez, é porque não precisava, mas a mensagem que Mario Monti pretendia transmitir tem um carácter específico e um público seleccionado. Ao anunciar ao país a adopção de um novo plano de austeridade, disse: “No momento em que exigimos sacrifícios a todos os cidadãos, parece-me ser meu dever renunciar ao meu salário”. Com esta atitude expôs-se a ele ou aos seus colegas italianos a uma situação confrangedora?

Em Portugal já houve alguns casos parecidos, como aquele que foi tratado como pitoresco pelos seus pares, de um deputado da Assembleia da República, dos lados de Aveiro, que ousou pretender devolver uma qualquer percentagem ou subsídio a que tinha direito e que considerava excessivo. Ao saber-se pela comunicação social, fez-se o devido alarido e tratou-se de seguida do respectivo enterro politico, como se fosse um mero fantoche exibicionista.

Mas a “grande lata” dos helvéticos ultrapassa toda a razão, senão vejamos: “(…) Garantir uma reforma com dignidade, ou seja, com casa, com uma boa alimentação, com cuidados de saúde e até algum dinheiro para gastar, em vez de premiar com reformas de milhares de euros quem já ganhou muito durante toda a vida. (…) Nas pessoas que educaram crianças, há bonificações de taxa educativa, que são rendimentos efectivos. Esse é o primeiro elemento que irá permitir calcular a reforma e dar rendimentos a uma pessoa, mesmo que não tenha trabalhado (…)” por razões familiares. Sobretudo não existem acumulações de reformas.

Depois do artigo anterior sobre esta triste matéria, somos chegados à pergunta seguinte: e em Portugal? Será que os nossos políticos estão com medo do risco sistémico que tal medida implicaria nas suas tristes vidinhas de morgados? Porque razão esta notícia não percorreu os principais noticiários deste alegre país-à-beira-mar-plantado? Terá sido para evitar o contágio? Esta notícia merece a vossa atenção até ao final.

as pontes da ignomínia, por ssru

[escusam de procurar] Ignomínia significa “grande afronta ou desonra, infâmia, opróbrio” e, neste caso, está espelhada nas vontades políticas dos autarcas das duas cidades, ‘algemadas’ pelas pontes que as unem, sobre o Douro final.

Andávamos nós, entretidos a recolher o material para a feitura deste artigo, à medida que iam saindo notícias, desgarradas, nos ‘media’ sobre umas e outras pontes quando, no fim-de-semana passado, surge no Expresso um trabalho da jornalista Isabel Paulo, que põe em causa a pertinência da publicação desta nossa epítase.

No último parágrafo do seu artigo “As pontes que ninguém quer”, a jornalista consegue estabelecer o paradoxo que existe entre a recusa de manutenção e, até (imagine-se!), de titularidade de três das pontes do Douro, com o sonho de construção de quatro novas travessias, algo que nenhum ‘media’ teve ainda a coragem e sentido de dever público de fazer, colocando directamente tal questão aos néscios autarcas. Acrescente-se que o desejo de novas pontes não é monopólio do autarca de Gaia, pois também o nosso nº 1 já teve ocasiões para expressar a necessidade de deixar a sua marca. Ele é o caso da ponte pedonal que a SRU queria para ligar as duas ribeiras, que resultou num dispendioso “Concurso de Ideias para a Frente Ribeirinha” cujo projecto vencedor as propunha aos pares. Lembram-se?

A ponte ferroviária Maria Pia encontra-se, há 20 anos, sem qualquer utilização que lhe dê sentido, desde que os comboios passaram a atravessar o Douro pela ponte S. João. Depois de vários anos ao abandono, a REFER decidiu, em 2009, desembolsar cerca de 2,4 milhões de euros em obras de reparação, que incluíram hidrodecapagem e pintura. Altura em que a empresa responsável por equipamentos ferroviários assegurou que tinha reiniciado conversações com as câmaras do Porto e de Gaia para desenvolver o projecto de uma travessia ‘ciclo-pedonal’, idealizado em 2005. Até hoje, o processo nunca saiu do papel.

A ponte rodoviária do Infante D. Henrique vê a sua situação a arrastar-se desde Outubro de 2002, quando após a conclusão das obras de construção, os dois municípios assumiam que receberiam o respectivo domínio e manutenção, algo que nunca veio a acontecer, apesar de esta estrutura estar inscrita em vias municipais não classificadas no Plano Rodoviário Nacional, logo, da responsabilidade dos municípios. Tornou-se então necessário vir o Tribunal de Contas recomendar que as partes cumpram ou renegociem o protocolo que celebraram, de livre e espontânea vontade, com a Metro do Porto, assumindo a titularidade dominial da Ponte Infante D. Henrique e respectiva responsabilidade pela sua manutenção e conservação, para a qual esta empresa pública já desembolsou, entre 2004 e 2007, 2,1 milhões de euros (juntamente com a Ponte Luiz I). Há dois anos que a Ponte do Infante não é vistoriada ou reparada.

A Ponte Luiz I, que quase ninguém reparou ter cumprido 125 anos desde a sua inauguração, vê-se envolvida neste lamaçal por arrasto, desde que a Metro do Porto ocupou o tabuleiro superior com a linha amarela, sem se conseguir libertar do encargo de manutenção do tabuleiro inferior, ainda que esta estrutura continue a integrar a Rede Rodoviária Nacional, sendo, por conseguinte, da alçada da EP – Estradas de Portugal. A EP alega que com a passagem das estradas da marginal fluvial para o domínio municipal, sendo a ponte peça fundamental na estruturação do trânsito urbano e ferroviário ligeiro entre as duas cidades, não deve continuar a gerir a travessia.

Mas vejamos o que dizem os nossos merecidos autarcas sobre este assunto: «”A manutenção de pontes exige ‘know-how’ específico que dificilmente pode ser encontrado no seio das autarquias”, justifica Gonçalo Gonçalves, vereador do pelouro do urbanismo portuense, para quem a Câmara do Porto não poderia ser a única a ficar com o ónus da manutenção, depois da revogação do protocolo pelo município de Gaia. Rui Rio defende que as pontes devem ser integradas no plano nacional a cargo da EP». Como é? Mas então como é que fazem as outras cidades portuguesas, ou as estrangeiras. É que não se lê este tipo de alarvidades em mais lado nenhum!

Continuemos para melhor: «Firmino Pereira, vice-presidente da Câmara de Gaia, enjeita assumir “custos de pontes que não são obra nem propriedade da autarquia”. O número dois de Menezes concede, no máximo, assumir a partilha de custos da iluminação das duas estruturas, num contrato futuro com a Metro, a EP e o Porto». Hum? Baralhou! Mas, mas, mas… as pontes têm mesmo que ser feitas por vocês?

Vamos lá recapitular a razão da pertinência deste nosso artigo, que ainda nenhum jornalista se predispôs a auscultar da mesma forma: a REFER, a EP, a Metro do Porto e sobretudo a Câmara de Gaia e a Câmara do Porto, andam a gozar com a nossa cara, a afrontar os seus munícipes, a desonrar o património que os nossos antepassados nos deixaram, numa atitude digna da mais vil infâmia. Afinal o que fizemos para merecer este tipo de gente? A resposta só pode ser uma: NADA… e com isso deixamos que estes incapacitados subam à tona e disponham porcamente de um bem comum.

a valer a pena, por ssru

O jornalista António Sérgio Azenha, autor de “Como os Políticos Enriquecem em Portugal”, deu-se à maçada de conduzir uma investigação jornalística e analisar as declarações de rendimentos de 15 antigos governantes, para chegar às conclusões do costume: a promiscuidade entre os cargos públicos e as grandes empresas e grupos económicos que obscenamente detêm o poder em Portugal.

É verdade, alerta Azenha, que “nada disto é ilegal”, apenas porque não questionamos que, quem produz as leis “à medida”, para que não o seja, são eles próprios. E com a questão da “Ética” podem bem as suas límpidas consciências. Há sempre aquela máxima bem portuguesa do “antes eu, do que outro qualquer” (que mais tarde derivou no slogan publicitário a uma marca de leite: “se eu não gostar de mim, quem gostará!?”)

O jornalista explica que esta análise tem três objectivos: em primeiro lugar, “fornecer um conjunto de informações que permita aos leitores analisar se vale ou não a pena ser governante em Portugal”; depois, “mostrar a maneira como os políticos apresentam as suas declarações de rendimentos, encarando o cumprimento da lei com alguma leviandade”; e, por fim, “contribuir para que haja um debate sério sobre o regime de incompatibilidades e impedimentos de titulares de cargos políticos”.

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Incomodado por ter sido enfiado no mesmo saco preto que os restantes, Mira Amaral enviou a Azenha uma carta aberta onde desabafa que “(…) Infelizmente, a minha reforma não é de 18 000 euros como diz mas sim de 11 000 euros. Se não tivesse ido para a CGD, termeia reformado como Administrador do BPI com 10 000 euros, apenas menos 1 000 euros! Como vê, fui mais uma vítima duma especulação e de uma pulhice inqualificável desse senhor Bagão Félix. Ao contrário de outros, alguns referidos no livro, eu não conheci a banca e a energia depois do governo. Já lá estava antes. Ao contrário do que o inqualificável pulha Bagão Félix diz, a minha reforma, pelos factos que lhe expliquei, não é pornográfica mas serão pornográficas duas situações de dois amigos dele: a do jovem Paulo Teixeira Pinto que se reformou do BCP aos 49 anos, com cerca de 35 000 euros mês (!) tendo recebido de indemnização, ao que dizem, 10 milhões de euros. Só conheceu a banca depois do governo…; a de Vítor Martins, amigo do Bagão Félix que este colocou como Presidente da CGD, sem nunca antes ter trabalhado num banco, e que saiu de lá ao fim de um ano com 900 mil euros de indemnização, como o DN noticiou na altura!! (…) Não sou rico, sempre vivi do meu trabalho, não enriqueci com a passagem pela política, antes pelo contrário, mas obviamente que com o seu livro sou mais uma vez metido muito injustamente na classe dos que enriqueceram com a política. Cada dia que passa, mais me arrependo de lá ter passado. Não sou um político mas sim um quadro técnico que serviu transitoriamente o país em funções políticas (…)”

Para isto que agora vemos, o estado a que trouxeram o País e os sacrifícios que a maioria de nós suporta, tanto nos faz que sejam políticos/políticos, técnicos/políticos ou políticos/técnicos. Pelos vistos, o poeta ainda tem razão quando dizemos: “vale sempre a pena, desde que a [alma] remuneração não seja pequena.”

nota: 3.103.448,00 €, por ano e só para uma pessoa??? Para o presidente da EDP, e ainda diz que “todos gostaríamos de ver outras coisas mais positivas mas a austeridade é absolutamente indispensável num País que há varias décadas consome mais do que produz”.

o corte colossal, por ssru

Esta questão do corte da despesa do Estado é uma matéria muito complicada. Não se pode cortar às cegas, para não ficarmos sem os dedos que seguram os anéis (?não nos referimos àqueles da casa real que foram a uma exposição na Holanda e que não voltaram, nem se soube mais deles!) e, por outro lado, qualquer corte que se faça é uma ‘gota no oceano’.

Gostamos particularmente desta última desculpa: “uma gota no oceano”! Sabem bem que, normalmente, quem utiliza esta expressão ligada a cortes na despesa, é alguém que se vê directamente afectado por tal corte ou que poderá vir a ser. Com regularidade matemática trata-se de alguém que, habitualmente, vive em grande desafogo, viaja com classe, faz refeições requintadas e que faz questão de dar a entender que a crise é só para os outros.

Por exemplo, será a adjudicação directa que o Município do Porto fez à “B Mais Balonas – Comunicação Lda”, num contrato celebrado em 05-07-2011, com o preço contratual de 68.090,00 € (sessenta e oito mil e noventa euros) e o prazo de execução de 910 dias para a “Aquisição de serviços de concepção e pré-impressão da Revista Municipal da Câmara Municipal do Porto”, dizíamos, será isto uma gota no oceano? E se juntarmos a adjudicação directa da “Aquisição de serviços de distribuição da Revista Municipal da Câmara Municipal do Porto”, contratualizada pela CMP no mesmo dia 05-07-2011, à empresa “Mediapost, Distribuição Postal, S.A.”, pelo mesmo período de execução de 910 dias, pelo valor contratual de 70.070,00 €? Considerando o tempo de crise em que vivemos e as regras das prioridades, estas são duas gotas de água, ou já dá para encher um copo e matar a sede a alguém?

Manuel António Pina, ainda o mês passado usou o seu habitualmente límpido e cortante artigo de opinião do JN, para falar sobre “as ‘gorduras’ da AR”, aquando do anuncio daquele órgão, “(…) pela voz da sua presidente, que o seu orçamento para 2012 prevê uma despesa de 95,5 milhões de euros, o que é, segundo Assunção Esteves, ” um corte notável”. E é. Com efeito, este ano, já com o país com a crise às costas, a AR gastará 130,5 milhões e, em 2010, gastou 50% mais: 196,5 milhões. (…) O que mal se compreende, a não ser pelo facto de não se tratar de dinheiro que sai do bolso dos administradores da AR, mas do dos contribuintes, é que, sendo afinal possível, sem prejuízo do funcionamento e luzimento da AR, poupar tantos milhões, por que motivo apenas agora (sob pressão da “troika” e como quem só depois de ver a casa em chamas é que corre a fazer o seguro contra incêndios) isso foi feito (…).” Então e isto poderá ser considerado um ‘balde de água fria’ no oceano, ou não?

Ficamos intrigados e gostaríamos de saber a partir de que ponto é que um corte na despesa pública, ou seja, do dinheiro dos nossos impostos e contribuições, deixa de contar como “uma gota no oceano” e passa a representar um acto de gestão responsável e digno da investidura dada pelos eleitores aos políticos e a todos aqueles que estes nomeiam para os tais “cargos de confiança” (não necessariamente de mérito).

Mas, quando julgávamos que a causa estava perdida, eis que o nosso autarca nº1, numa entrevista que premiou ao programa da RTP – “Portugal e o Futuro”, fez abanar os sinos do nosso adormecido córtex, quando ao minuto 8’:36’’, a jornalista Sandra Felgueiras pergunta: “…mas o aparelho do Estado também não cresceu demasiadamente, ou seja, é preciso impor tanto sacrifício aos Portugueses, quando para a maioria é do senso comum que bastaria olhar para o aparato, para o imobiliário do Governo, para o número de carros, para o número de motoristas e pensar que seria por aí, a primeira via para efectuar os cortes?”

“- É evidente, não é? Isso é evidente! Agora deixe-me lá dizer uma coisa: tudo isso que é realmente popular e que se deve fazer para dar o exemplo, eu concordo, é no entanto ‘uma gota de água’ naquilo que é a verdadeira e a grande despesa pública. Isso é importante, conta e é pedagógico. E dá o exemplo! Mas… quando nós fizemos estradas que não geram a receita que deviam gerar, quando nós deixamos que as empresas públicas, designadamente dos transportes, acumulem défices e passivos, uns atrás dos outros, é evidente que aquilo que agora nos aflige é esse défice monstruoso, é esse passivo monstruoso… e não tanto essas despesas correntes.”

foto @ sol.sapo.pt

E então, BANG!!! Não buscando originalidade ou vãs doutrinas, surge este nosso contributo, de endereçarmos ao Governo uma ideia que contribua para o corte colossal da despesa pública do Estado e para a popular e necessária pedagogia – que deve vir de cima – com o objectivo de acabar com os défices e os passivos, nomeadamente das empresas de transportes (bem como com o corte do nosso subsídio de Natal e afins). De uma só penada pretendemos que o Governo acabe com dois dos maiores escândalos nacionais (qualquer que seja a época, ou o ponto de vista), ou seja, as mordomias dos representantes do Estado e os dislates orçamentais das empresas de transportes: TROCAR A VIATURA OFICIAL DE USO PESSOAL POR PASSE DOS TRANSPORTES PÚBLICOS.

O Parque de Veículos do Estado, que ninguém sabe bem qual é em números, se 29.000 ou 30.000 unidades (embora exista uma entidade suprema criada para estas coisas), contribui colossalmente para a despesa pública, se considerarmos todos os custos associados, directos ou indirectos. Abrange desde o mais alto representante ao mais vulgar administrador, desde os órgãos de soberania, aos institutos e empresas públicas. E como em todas as situações de excessos, surgem ainda os casos caricatos como aquele envolto em mistério, de há precisamente um ano atrás, quando soubemos que, numa altura em que já nos pediam bastantes sacrifícios, o Governo português compra uma viatura Mercedes S450, que nos custou 134 mil euros e que “deverá ser usado pelo presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, na Cimeira da NATO, dias 19 e 20 de Novembro”. Perigosamente ridículo o caso dos gastos associados como aqueloutro do ano de 2010 em que “(…) os gestores públicos gastaram 576 mil euros em combustíveis no ano de 2010, segundo informação prestada pelas próprias empresas públicas à Direcção-Geral do Tesouro e Finanças. É uma média de 2500 euros em gasolina ou gasóleo por cada administrador, gasto num ano marcado pelas medidas de austeridade para equilibrar as contas públicas. Há mesmo casos de empresas em que o presidente apresentou 12 mil euros em despesas de combustíveis, mais do que as prestações de aluguer de alguns carros topo de gama ao serviço dos gestores estatais. Mas também nos pagamentos da Via Verde há lugar para facturas de 2300 euros.” Há ainda mais outro de personificação da estupidez em cúmulo, que é o caso dos carros blindados encomendados para a PSP e que chegaram depois da Cimeira da Nato onde efectuariam a primeira missão, não fosse o caso de terem chegado atrasados, gerando um imbróglio jurídico de 1 milhão de euros, tendo-se provado ainda “(…) que não havia razão para tanta pressa. O ajuste directo deve ser uma excepção, já que é um processo pouco transparente. O funcionamento normal do mercado é a única garantia para que o Estado realize o melhor negócio. (…)”

Pois é, o nosso processo ‘troikiano’ é muito simples: os senhores doutores e afins entregam os carrinhos; o Estado escolhe quais os veículos que quer manter ao serviço das instituições (não dos indivíduos); dos excedentes escolhe aqueles que quer enviar às forças de segurança e demais (pode ser que assim evite a vergonhosa espera por assistência policial); os restantes serão vendidos realizando capital; aos senhores directores e gestores e presidentes, o Governo disponibiliza um passe de transporte público, como o maravilhoso “ANDANTE”; os Srs. dão o pedagógico exemplo, realmente popular e com o qual o nosso autarca nº 1 concorda; com esse exemplo aumentam a utilização dos transportes públicos e diminuem o número de veículos nas estradas (com todo o beneficio associado); aumentam ainda os lucros das empresas de transportes que poderão aumentar as frotas e as linhas, em alternativa à redução do serviço; os Drs. e Eng.s chegam à instituição ou empresa e se necessitarem de sair em serviço utilizam o carro da CASA, salvaguardando possibilidade de poderem dar boleia uns aos outros, se se deslocarem para os mesmos lados ou para o mesmo destino e reunião; reduzem custos de combustível, de portagens, de manutenção dos veículos e das estradas, de estacionamento, de seguros, enfim… só vemos benefícios.

Antes de enviarmos esta ideia ao Governo queremos ouvir o que vocês têm a dizer. Por isso abrimos este artigo aos vossos (administrados) comentários. Falem, digam qualquer coisinha!!!

nota: a entrevista do Dr. Rui Rio teve ainda o condão de contribuir para nos retirar mais um pouco da nossa extrema ignorância, porque até àquele dia, pensávamos que a execução de estradas tinha como objectivo ligar lugares ou pontos do território português que dela necessitem. Afinal estávamos enganados, “são para gerar a receita que se espera que gerem!”

a primeira regra, por ssru

Caro Zé, perguntas se estamos contigo, mas não vais poder contar cOmigo, nem coMigo, ou comIgo, muito menos comiGo…

É que a primeira regra, a primeira regra Zé, é poder confiar. Poder confiar! E nós já não confiamos em ti, Zé. Tudo fizemos para que não existisse CRISE no nosso País, demos o nosso melhor contributo, as melhores horas do nosso tempo de qualidade que eram dos nossos filhos, os melhores anos da nossa vida que nos tornaram uns desvalidos de meia idade, a grande parte do resultado do nosso esforço que se foi em impostos e mais impostos. Chegamos à casa dos quarenta anos no topo da nossa carreira, no máximo da nossa exuberância, altamente qualificados e com experiência acumulada durante os últimos vinte anos (sim, a maioria de nós já trabalhou durante o curso) e longe de pensarmos que o melhor que conseguimos é um contrato a prazo, que se renova se nos “portarmos bem”, se não fizermos muitas “ondas”. Vemos o nosso poder de compra regredir décadas enquanto a inflação aumenta vertiginosamente. Assistimos a uma Justiça vergonhosa que parece favorecer os que pagam os defensores mais caros e mais mediáticos. Aqueles que são consultados para darem pareceres jurídicos e fazerem projectos de lei que depois aproveitam para lucro próprio. Vemos que nomeaste para teu representante na Capital, o pai da pior opção económica e social de sempre – o Rendimento Social de Inserção – enquanto trabalhamos para a manteres. E um Poder Autárquico que gasta mais em cantores populares do que em infraestruturas que facilitem a vidas das comunidades. Substituem administradores pagando indemnizações astronómicas que não sabemos contar. Inventam Institutos e Fundações onde existem mais administradores e quadros executivos que trabalhadores efectivos. A Oposição diz-nos que o presidente da TAP ganha por mês 420.000,00 €, mas nós não acreditamos… não, não é verdade!? Pagamos os PEC’s, as SCUTS, os aviões fretados para os camaradas passearem, dois sistemas educativos – o público e o privado, dois sistemas de saúde – público e privado, o IVA, o IRS, o IRC, o IMI, o IMT, a segurança social que não existe, um simplex que não existe… Tudo em nome de uma distribuição justa dos sacrifícios. JUSTA?  E que justiça há no Diplomagate, Universidadegate, CasadaMãegate, CasaPiagate, CovadaBeiragate, Relatóriogate, TVIgate, Sobreirosgate, FreePortgate, Varagate, LusoPontegate, Autoestradasgate, ParqueEscolargate, Sucateirosgate, PPP’sgate, BPPgate, BPNgate.

Gostávamos de poder confiar, mas hoje a gasolina ultrapassou o 1,60 euro… Zé.

video soberbo da BandexVideos – “Mentiras”, via Aventar

o que nos falta afinal? por ssru

Se o que faz falta é outro Salazar, existe Rui Rio, por Ana Sá Lopes, em 04 de Março de 2011, ionline.

Rui Rio proclamou que a justiça “está pior do que no tempo da ditadura”. Quando se pensava que não podia ir mais longe, foi.
A nostalgia da ditadura é um monstro difuso na sociedade portuguesa e atravessa todos os estratos sociais. O que é evidente na chamada “conversa de taxista” – aquele invariável “o que fazia falta era outro Salazar” que quase todos nós já ouvimos mais de 25 vezes – surge em formas mais refinadas, mas não menos obscenas, nos discursos das elites. O incrível apego nacional ao mantra “isto está cada vez pior” torna quase óbvio que o período “melhor” fosse a ditadura ou, vá lá, os primeiros anos da Revolução, em que não havia nem água nem luz em boa parte do país, para não falar de hospitais decentes nem das estradas do professor Cavaco. Recentemente, um estudo, “As escolhas dos portugueses e o Projecto Farol”, atribuiu um número redondo a esta estranha categoria de disfunção com a realidade. Quase metade dos portugueses (46 por cento) acha que se vivia melhor antes do 25 de Abril. Belmiro de Azevedo, membro da comissão executiva do Projecto Farol, sugere razões para estes números assustadores: “Além de os portugueses estarem mal informados sobre o grau de desenvolvimento do país nas últimas décadas, conclui-se também que desconfiam dos poderes instituídos, apontam o Estado como figura central no desenvolvimento do país e sentem-se desconfortáveis com a globalização.
Ora este é o eleitorado com que um político com ambições tem de contar: os dois únicos políticos nacionais que conseguiram maiorias absolutas foram incansáveis na exploração desse tema. Cavaco Silva sempre recusou – à saciedade e ao absurdo – assumir-se como “um político”, à imagem e semelhança da técnica de Salazar. José Sócrates, que não se podia dar a esse luxo devido à ascensão no seio do aparelho socialista, usou e abusou dos argumentos da “autoridade” quase ditatorial.
Mas existe um terceiro político que está a fazer o seu caminho discreto para adquirir as devidas credenciais de “possível Salazar dos tempos modernos”, categoria essencial para a ascensão no imaginário da nação. Chama-se Rui Rio, é presidente da Câmara do Porto, tem inegáveis qualidades e defeitos e é um herdeiro natural do cavaquismo. Ontem Rio proclamou que “a justiça em Portugal está pior do que nos tempos da ditadura”, ao que parece descontando “os julgamentos políticos”. E quando se pensava que Rui Rio não poderia ir mais longe, foi: “Se não fossem os políticos, era fácil resolver o problema.”
O cargo de líder do PSD não está vago, mas a qualquer momento pode ficar. E se o que faz falta é outro Salazar, Rui Rio reúne as condições necessárias ao bem da nação.
Alguns de nós, poucos pelos vistos, sabem quem é Rui Rio. Muitos perguntam ainda porque razão Francisco Assis não teve a coragem e ousadia de expor aquilo que sabia sobre o seu rival candidato à presidência da câmara, algo que o remeteria a um merecido ostracismo – donde provavelmente sairia rapidamente, dada a qualidade da memória dos portugueses – escondendo-se naquilo a que ‘embrulhou’ com a “ética política”, ou coisa assim…
Aos poucos RR vai cedendo ao nervoso miudinho das matilhas de “moços e moças” que o rodeiam, prontos para o assalto, para destituir a ‘escumalha que lá está’, como se fossem muito melhores e diferentes em vez de seiva do mesmo tronco. Aos poucos o discurso politico deixa de ter um carácter municipal, alargando-se progressivamente, mais depressa ou devagar conforme a necessidade, ao âmbito nacional. O que esperas Pedro???
Temos a certeza que não faltara no País quem vote em Rui Rio: uns pelo seu RIGOR e SERIEDADE; outros, talvez a maioria, por aquilo que fez ao Futebol Clube do Porto e a Pinto da Costa (como se este não se estivesse a borrifar para aquilo que ele fez ou pensa). Como bom vendedor que é (em referência ao património da cidade) certamente conseguirá vender, mais uma vez, a sua imagem impoluta a quem o quiser!

o estado imobilizado, por ssru

Os caros leitores que deram atenção ao artigo anterior, que contém a crónica JN de Tiago Azevedo Fernandes, certamente estarão conscientes que não faltarão exemplos da forma como este País tem sido governado ao longo dos, digamos, últimos trinta anos (excluindo portanto, os primeiros 6 anos do período pós 25 de Abril, para haver aqui uma folga justa). A nós não nos interessam as cores nem as ideologias, mas embora sendo apartidários somos intrinsecamente políticos como quaisquer outros seres humanos. Por isso, no computo geral a apreciação que fazemos dá razão à voz do Povo (leram bem, POVO!), ou seja: “a política portuguesa é uma fraude e nós somos indecentemente enganados”.

Tantos são os assuntos a necessitarem urgente transparência e este que vos trazemos pela escrita de um excelente profissional e amigo, Gonçalo Nascimento Rodrigues do blog “Out of the Box“, é mais um “copy>paste”, que merece ser republicado, para que não restem dúvidas que os cidadãos deste País não são quem os políticos pensam e que está certamente na hora de mudarem de vida. Quem sabe não estaremos a perder excelentes pasteleiros ou cozinheiros de pizzas. Estamos a precisar de novos ares…

Estado Português gasta ou ganha com Imobiliário?, Gonçalo Nascimento Rodrigues, 01 de Setembro de 2010.

Hoje gostaria de vos falar de uma notícia que saiu no Jornal Expresso no passado fim-de-semana, sobre vendas de património do Estado. Ao que parece, o Estado tem vindo a alienar património imobiliário por si ocupado, passando a pagar rendas. Até aqui, parece-me tudo normal, ou seja, o Estado está a efectuar operações de sale & leaseback de imóveis que ocupa, algo que me parece lógico. O Estado, para mim, não devet ser proprietário imobiliário de escritórios e serviços que ocupe, deve antes ser arrendatário e passar a posição de proprietário para investidores.
Uma operação de
sale & leaseback caracteriza-se pela venda de um imóvel, propriedade do vendedor, passando este para a posição de arrendatário desse mesmo imóvel. Pela venda, o proprietário recebe um valor acordado com o comprador, passando a pagar uma dada renda por um determinado período contratual.
Para o proprietário, trata-se de uma operação normal de financiamento da sua actividade com os seus próprios activos imobiliários, sendo uma operação bastante usual e até benéfica nos tempos que correm, de escassez de crédito bancário.
Sobre a forma como estas operações deverão ser estruturadas, da parte de proprietários e investidores, fica para uma outra oportunidade.
A notícia chamou-me a atenção para 2 aspectos: primeiro, ao que parece o Estado está a alienar património à Estamo, uma empresa do Grupo Parpública, detida pelo Estado. Parece-me estranho, vender imóveis a si próprio. Quem paga então? Mais estranho ainda é que o Estado passou a pagar rendas. Rendas! Não havendo um cash-flow líquido positivo nas contas do Estado (a mim, pessoalmente, pouco me interessa se é Estado ou universo empresarial do Estado, se é orçamento ou desorçamentação), passa então a haver um cash-outflow pelo pagamento de rendas? Quem ganha com isto? O Estado vende um imóvel, não recebe nada por ele (ou recebendo, tem de se endividar para o pagar) e ainda fica a pagar uma renda?!
Mais estranho ainda são as condições financeiras da venda. O artigo apresenta alguns exemplos em que a yield dos negócios rondou os 8%. Oito por cento?! Mas quem é que este Governo Socialista quer enganar?!

Se o Estado Português tem feito emissões de dívida a 10 e 15 anos sempre abaixo dos 5%, porque é que está a financiar-se a 8% com o seu património imobiliário? Não acredito que o Estado Português não consiga estruturar uma operação financeira com algum do seu património imobiliário a investidores qualificados por yields inferiores a 8%. Perdoem-me mas não acredito! E se o problema é perder a propriedade (justificação que encontro para vender à esfera empresarial do Estado), então que mantenham uma opção de recompra.
A minha pergunta é: Qual é o interesse em perder tanto dinheiro com operações destas? Quem ganha com isto, afinal?
Isto não me parece ser lá muito bom negócio (imobiliário)!

a cadeira presidencial, por ssru

Os leitores deste sítio já se habituaram a que, de quando em vez, tenham que aturar uns “copy>paste” a que não resistimos. São artigos e escritos de pessoas que têm uma capacidade inata para colocar em palavras aquilo que verbalizamos ou sentimos, ou como referimos antes “(…) que a melhor forma de nos fazermos perceber seria podermos colocar em palavras aquilo que a maioria das pessoas pensa ou sente. Exemplificar uma situação, clarificá-la, torna tudo mais simples, o que nem sempre é assim tão fácil conseguir(…)”. Desta feita cabe a Tiago Azevedo Fernandes, autor do blog “A Baixa do Porto” nos deliciar com uma crónica cheia de humor e razão, que assinou na coluna que regularmente escreve no Jornal de Notícias.

Não queremos acrescentar muito mais, a não ser a lembrança dos preparativos de uma entrevista que Cavaco Silva deu à RTP, cujos serviços noticiosos abriam com dúvidas tão ‘importantes’ como “qual a cadeira que o Presidente irá usar (?)”, querendo isto remeter-nos, vá lá a gente saber porquê, para mais uma semelhança com o ‘dito cujo’ que caiu da cadeira. Assim, numa altura em que se começam a perfilar com maior nervosismo os apoios de direita, com sublinhado nosso, aqui fica:

foto retirada de video RTP

Meu caro Aníbal, por Tiago Azevedo Fernandes, no Jornal de Notícias 2010-08-26

Com a sabedoria da respeitável idade de 13 anos, passo os dias a meditar repousando na travesseira à janela. Arrependo-me de não ter actuado mais cedo, nos meus tempos de juventude. A situação do país é grave e tu não tens ajudado o suficiente. Observo o meu mundo com atenção, possuo o distanciamento conveniente para ver as consequências daquilo que fazes e, principalmente, daquilo que não fazes.

Não basta seres bem intencionado para o exercício das tuas funções ter um efeito positivo. Entre as causas dos problemas nacionais está a maneira como a tua geração pensou que bastaria entregar a Política a um pequeno número de pessoas “credíveis” para haver desenvolvimento sólido. Vindo de uma tradição salazarista, o país quis ser comandado pelo Estado. Só que a sociedade civil não funciona bem quando é comandada.

Repara como eu não me deixo dominar nem sequer pelas pessoas aqui de casa, de quem tanto gosto. Isso não impede uma relação muito feliz. Por um lado tenho acesso de qualidade aos serviços indispensáveis – comida e água fresca à disposição, cuidados de saúde quando necessário, habitação confortável, mimos em doses maciças; por outro respeito as regras de convivência, não provoco despesa excessiva, cumpro com grande produtividade a minha missão de dar alegria e bom ambiente à família. Cada um no seu lugar.

Grande parte da tua geração nunca vai compreender que o que está errado não é uma medida ou outra do Governo, é mesmo a forma como se governa. Aquelas pessoas têm de ser substituídas para deixar o país respirar melhor. Por isso a maneira mais construtiva de terminares o teu mandato é apressares essa mudança no parlamento e, por fim, não te recandidatares. Faz como eu: aprende a gozar o conforto de uma mantinha fofa. Aceita os cumprimentos da FM, uma gata portuense.