o ano da cabra, por ssru

Começar um novo ano sem recordar aquele que terminou, é quase um pecado imoral. Para fazer isto de forma simples e sem grandes comentários socorremo-nos das melhores “imagens” que o Jornal Público nos oferece.

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“O ano visto por António Barreto: O início de nada”, por São José Almeida

“2014 não é o início de nada, porque não mostrou sinais de mudança, não trouxe ideias novas e acentuou sinais de crise da política, da crise da justiça, do aumento de corrupção, de diminuição de recursos económicos, de transferência do capital para o estrangeiro. Mostrou a desagregação, o disfuncionamento, a disrupção de alguns serviços públicos, como seja a educação”.

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É assim “uma época em que as pessoas não se reconhecem no sistema, as elites políticas não estão à altura de dar resposta”, em que, “além da degenerescência do sistema político, também há degenerescência do Estado de Direito”, defende Barreto. E em jeito de balanço, retrata: “Temos um ex-primeiro-ministro [José Sócrates] preso preventivamente com a opinião pública contra ele, um antigo ministro [Isaltino Morais] na segunda fase de prisão, um antigo secretário de Estado a cumprir pena [Oliveira e Costa], outro antigo ministro [Armando Vara] à espera de cumprir pena, um antigo secretário de Estado [José Penedos,] também à espera de cumprir pena, um antigo líder de um grupo parlamentar [Domingos Duarte Lima] à espera de cumprir pena, altos funcionários do Estado investigados e em prisão preventiva [no caso dos vistos gold]”.

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E, perante o seu próprio resumo, remata: “Não conheci, em tempos de paz, na história democrática, como isto. Há o caso italiano das Mãos Limpas, em que houve dois ou três ministros presos, mas em Itália os partidos ficaram de pantanas e o Partido Comunista e o Partido Democrata Cristão desapareceram.” Advertindo que há “em Portugal uma dimensão de corrupção que põe em causa o sistema”. Para mais quando “já tivemos antes os fenómenos do BPP, do BPN e o BCP, três histórias da elite financeira que agora acabam com o caso Espírito Santo – e nesta não é só a família que está em causa, há muito mais por trás disso, vamos ter novas prisões nas próximas semanas”, afirma o sociólogo.

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Com o mapa da corrupção sinalizado, conclui: “A crise é assim também do nosso capitalismo que não está à altura. Há dinheiro árabe, angolano e chinês. Não é por ser dinheiro estrangeiro a ocupar Portugal, o dinheiro não tem cheiro nem nacionalidade, mas são dinheiros frescos, que compram e não investem. Isto demonstra que o sistema económico português é frágil e que a elite económica é fragilíssima. Há uma crise política, há uma crise na justiça/ corrupção, há uma crise capitalista. Além de que 2014 é o ano da transferência de poderes e de inversão do peso dos direitos e do trabalho.”

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Sobre se “2015 será pior?”, Barreto apenas diz: “Vamos ver. Até agora as elites políticas e económicas não deram sinais de mudança, só deram sinais de querer ganhar eleições.” Sendo um ano eleitoral, Barreto considera que “pode ser um ano de marcar passo”. Lembrando que em 2013 “toda a elite do país não conseguiu travar o processo e fazer um acordo”, o sociólogo advoga que deviam ter decorrido eleições, pois “o que estamos a viver há um ano e o que vamos viver até Outubro será para acrescentar degradação”.

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Barreto clarifica que fala em “novo poder e não novo regime, porque as pessoas perguntam logo se o novo regime é democrático ou não, monárquico ou republicano”. Mas explica que a esse novo poder político “competiria recuperar o sistema político e o sistema constitucional, sem pôr em causa, antes preservando e protegendo a democracia, que é, na essência, a liberdade dos cidadãos”.

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E lembra que “a missão de um sistema constitucional é isso mesmo, preservar a liberdade dos cidadãos e a democracia”. A esse novo poder, defende, caberia “um longuíssimo trabalho de organizar o poder do Estado, os poderes periféricos de Estado, o corpus da Justiça, já que, remata: “O sistema judicial vive em auto gestão, tem que se rever o actual modo em que as decisões estão apenas nas mãos dos senhores juízes e dos senhores magistrados.”

a doutrina do medo, por ssru

Através do medo, os políticos conseguem que os povos se sacrifiquem e que paguem uma dívida que foi por eles próprios contraída. Em Portugal, tal como noutros países intervencionados pela troika, fecham-se escolas e hospitais, vendem-se empresas estratégicas, reduzem-se salários e reformas, retrocede-se civilizacionalmente para que os investidores alemães, franceses, ingleses e americanos não sofram com as suas más decisões ao emprestarem dinheiro aos banqueiros e seus amigos políticos corruptos. O dinheiro que sai do corpo dos portugueses vai inteirinho para pagar uma dívida que não foi contraída pelos cidadãos, nem sequer para proveito destes, mas antes para alimentar um sistema político criminoso que os espolia.

O vídeo que se segue sugere desde logo inúmeras questões que nenhum governante teve “testículos” para responder ao premiado jornalista alemão (quem melhor do que um alemão para nos esclarecer estas coisas?!) Harald Schumann, autor desta peça que sugerimos que vejam. Mas a primeira pergunta que gostaríamos de colocar é: “Como é possível que após as maiores manifestações de cidadania que Portugal já assistiu, tudo tivesse ficado na mesma, até o Governo ficou?”

os tempos difíceis, por ssru

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz / Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. / Eu não quero pagar depois de tudo o que dei / Não me fazem ver que fui eu que errei.

Não fui eu que gastei mais do que era para mim / Não fui eu que tirei, não fui eu que comi / Não fui eu que comprei, não fui eu que escondi / Quando estava a olhar não fui eu que fugi.

Não é essa a razão para me quererem moldar / Porque eu não me escolhi para a fila do pão / Este barco afundou houve alguém que o cegou / Não fui eu que o não vi.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz / Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. / Eu não quero pagar depois de tudo o que dei / Não me fazem ver que fui eu que errei.

Talvez do que não sei talvez do que não vi / Foi de mão para mão, mas não passou para mim / E perdeu-se a razão tudo bom se feriu / Foi mesquinha a canção desse amor a fingir.

Não me falem do fim se o caminho é mentir / Se quiseram entrar não souberam sair / Não fui eu quem falhou, não fui eu quem cegou / Já não sabem sair.

Eu não quero pagar por aquilo que não fiz / Não me fazem ver que a luta é pelo meu país. / Eu não quero pagar depois de tudo o que dei / Não me fazem ver que fui eu que errei.

Meu sonho é de armas e mar / Minha força é navegar / Meu Norte em contraluz / Meu fado é vento que leva e conduz.

Esta canção é muito simples. Não tem grandes metáforas, nem segundos sentidos. Escrevi-a para mim, porque um dia acordei e percebi que já há uns tempos que me sentia a sofrer as consequências de uma jogatana qualquer com a qual eu não tive nada a ver. Lembrei-me de quando estava na primária, quando um coleguinha qualquer lá na turma fazia uma tolice às escondidas e a professora dizia: se ninguém se acusa ficam todos de castigo! O coleguinha nunca se acusava… e ficávamos todos de castigo.

Esta canção não fala só de um coleguinha. Fala de muitos coleguinhas que ao longo de muitos anos fizeram muitas tolices. Coleguinhas por Portugal inteiro, em todas as áreas da sociedade, não só na política mas quase sempre debaixo da sua alçada. Esta música fala de desonestidade, de falta de respeito e amor pelo nosso país, o que quer dizer, pelo próximo. Mais nada. Tiago Bettencourt

“Tempos Difíceis”, o décimo romance de Charles Dickens escrito no ano de 1854, marca um período importante da sua obra, constituindo um ponto de viragem. É uma novela em três volumes e sendo uma obra de ideias, não se pode denominar propriamente um livro de combate. Com o seu enredo e descrições laboriosas apresenta um aspecto novo na sociedade provinciana inglesa do seu tempo, a luta entre o moderno e o antigo, através da burguesia e de pensamentos novos, como o Positivismo. As condições de trabalho eram terríveis; um operário era obrigado a trabalhar tanto quanto a sua constituição permitisse e as crianças eram levadas a um trabalho desgastante com o intuito de “tirá-las das ruas e das seduções que a vida mundana proporcionava”.

“Tempos Difíceis” é uma obra imortal que representa um libelo contra ideias e preconceitos arraigados na sociedade, expondo uma visão de abusos, erros, egoísmos. Os problemas básicos de sobrevivência presentes neste romance vão além de qualquer período e garantem a necessidade de meditação, já que Dickens, com mão de mestre, construiu um enredo e personagens excepcionais, que o transformaram num dos maiores escritores da Literatura Mundial.

a “fábrica cretina”, por ssru

Da “Fábrica Cretina” saem todos os anos, resmas de exemplares “assemblados”, de imbecis altamente qualificados, cretinos para tomarem conta de nós e nos dizerem aquilo que devemos fazer das nossas vidas. O jornalista Miguel Carvalho, que estimamos e admiramos, tira-lhes tão bem o retrato!

Tenho para mim…14 DE ABRIL DE 2014 / MIGUEL

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…que deve haver por aí uma fábrica da pulhice humana, com moderna linha de montagem, onde se confeccionam exemplares feitos em série, de várias gerações e para diversificados sectores de negócio, à vontade do freguês. Ou é isto ou já são muitas conversas a ouvir amigos queixarem-se dos pulhas que lhes calharam em sorte no local de trabalho, na família, nos serviços. Escutam-se os lamentos e os pulhas parecem todos iguais, saídos da mesma casca. Ou aprenderam nas mesmas escolas ou foram feitos na mesma fábrica. E como se não bastasse, ainda procriam.

a crónica da crise, por ssru

As palavras que se seguem, foram ouvidas pela primeira vez a semana passada na Póvoa de Varzim, ditadas pela boca e na voz (trémula de início, mas sempre presente) do seu autor, o escritor João de Melo. Foram 15 minutos  longos que perdurarão para sempre enquanto a memória não nos abandonar à pior das sortes. Palavras que se insinuaram, instalaram-se sentadas no meio de nós, erguidas nos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma. Nada mais havendo a acrescentar, pedimos a todos que tenham a felicidade de as ler.

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“Viagem pela ideia da crise” – Opinião de João de Melo, in Público, 26 FEV 2014

Não sei há quantos anos ouço falar de crise – a ideológica, a religiosa, a sentimental, a artística, a literária; e também a social, a económica, a financeira, a laboral, a política, a mundial ou a universal. Uma crise sem paredes que circula entre todos os espaços em branco – esta espécie invasora que já não se detém no limiar de nenhuma fronteira; que não precisa de passaporte nem de santo e senha para entrar, insinuar-se, insurgir-se e instalar-se sentada no meio de nós, ou erguida no pavor sombrio dos nossos sonhos, na roupa, na pele, na alma (para quem ainda a possua ou nela creia, obviamente!).

Nenhuma ideia de felicidade nos pertence (seria no mínimo ridículo que um escritor ousasse confessar-se uma pessoa feliz). Nascemos portugueses, mas para sobreviver a um permanente e absoluto estado de crise, em Portugal. Aqui mesmo ao lado, em Paris, a cidade do exílio e dos mitos ideológicos de outrora, Jean-Paul Sartre morreu com as mesmas dúvidas que o levaram a inventar uma teoria para a angústia do homem moderno, à qual chamou “existencialismo”. Para mim, a única e verdadeira crise dá pelo nome de hiperidentidade – ao mesmo tempo individual e colectiva. Assistem-me portanto o direito e o dever de a invocar. Não sei que fazer de mim, do meu excesso de identidade. Sei muito bem quem sou, mas ignoro a minha missão e não sei em que morada deixei esquecida a chave do meu próximo destino.

Nenhuma possibilidade de se ser feliz em Portugal? Seja pelo facto de nada de bom ou de extremamente mau nos acontecer, seja porque em Portugal simplesmente já não acontece nada. Falamos pouco, mas ouvimos muito. Come-se mal, bebe-se melhor. O resto é uma chaga, uma deriva, um sentimento de que nada aqui nos pertence. Não sei quem veio de fora, nem por que motivo as coisas deixaram de ser nossas – mas voga por aí uma presença estranha, o rosto invisível e absoluto de um qualquer ocupante estrangeiro. Ele mudou o nome das coisas e a precisão doméstica dos nossos sítios. Tomou conta dos lugares públicos. Aquartelou-se nas casas, nas tribunas e nos templos. E agora impõe-nos uma ordem social e espiritual que nunca foi nossa: ou seja, uma religião sem princípios, a confraria da imoralidade, o coro, as matinas, as vésperas de um convento para as almas. E uma sabatina histórica que não nos deixa regras nem palavras. Mas se de facto não acontece nada, tudo porém se vai fazendo em nome de uma imensa maioria silenciosa, a mesma que dá sustento e legitimidade aos diques de que é feita a conjura, digo, a conjuntura do medo e do regime.

Hoje, em Portugal, é Deus quem parte e reparte com o Diabo, ficando este com a melhor parte. São populares e risonhos os amanuenses e os ditadores do país onde já não acontece nada. Basta-nos, para que isto ainda exista, haver lá no alto um cardeal primeiro-ministro, alguns bispos e curas nos ministérios e uns quantos noviços por secretários de Estado – mantendo-se assim a nossa ilusão acerca da existência do país. Bastam-lhe os lugares sentados no Parlamento e um talentoso orador a gritar ao povo; bastam-lhe dois escritores e meio para falar por todos; doze actores de teatro e cinema, dez polícias e um general, um maestro de batuta erguida ante as cinquenta e duas cabeças de uma orquestra, zero vírgula um arrependidos políticos confessos, dois vírgula zero seis professores e sindicalistas, três médicos e meio engenheiro, um cantor de fados e treze guarda-costas, um agricultor e oito industriais, um futebolista e três quartos de outro, um careca idoso e outro careca que ainda exibe o cartão jovem ou o título de novo empreendedor – e fica completo o comício.

Não posso nem devo queixar-me de um país que já não existe. Lamento tudo aquilo que aqui me cerca: este território de ocupação e de gente possuída, este novo “silêncio do mar” de que falou um dia o proscrito Vercors, e o tempo de agora que parece eterno enquanto dura, como diria o poeta Vinícius; o tempo em que, em silêncio oficial, vão morrendo (indignados, desgostosos) mulheres e homens de cultura, gente honrada que assistiu à nova invasão dos Hunos e à sua barbárie e que ainda assim permaneceu honrada. Vão-se os homens desta terra que em tudo deixou de valer a pena desde que sua alma se fez pequena. Vão-se os anéis e os dedos, os pomares e as vinhas, as searas de trigo e os pinhos, os pássaros e o milho – e calam-se pouco a pouco as vozes e os sinos. Já tudo foi dito e escrito, ó André Gide; mas, visto que a memória é tão breve, deve-se escrever e dizer tudo de novo. E aprender no vento os nomes de tudo aquilo que agora é e que dantes não estava aqui. Havia a agricultura e os campos, o canto e a lida (Fernando Pessoa), a poesia e o sonho, os barcos, as veredas e as sombras. Havia algo por que ainda fosse possível e preciso gritar. Não este silêncio e este sepulcro, nem este desmazelo prepotente, nem esta arte de que usam e abusam eles, os ocupantes, para nos fazerem calar a boca e ter paciência. O caso é que eu aprendi a revolução e a história na escola primária. Vivi-as no gesto largo dos heróis, colhi-as como as flores do mal e do vinho em Baudelaire. Não vim para assistir a isto de chegar uma gente sem idade nem memória de nada e obrigar-me a crer que tudo aquilo que vivi e amei não passou afinal de uma ficção ou de uma mentira. No meu tempo, havia livros escritos só para que os comessem os subalimentados do sonho, ó Natália Correia, e não esta gente que nos vira a cara, que cospe para o lado e diz entre dentes que a cultura é cega surda e muda como a pedra, como a “mula da cooperativa” (canção da ilha da Madeira, onde também vibram e morrem alguns dos sonhos que nos foram comuns).

Uma breve história de logros. A história súbita, devassada e oprimida dos meus logros portugueses. De pouco adianta escrevê-la: ninguém ma leria, querido Eça de Queirós. Não devo sequer contá-la: não há quem ouça. Fosse eu um príncipe com orelhas de burro (ou burro com orelhas de príncipe) e com mãos ou patas abriria a terra, a única confidente portuguesa, para a ela contar a longa relação dos logros lusitanos. Quem sou eu, porém, para duvidar da evidência e mesmo da certeza, da versão oficial e do comunicado semanal do conselho de ministros, das notícias do bloqueio e daquele que foi eleito para não ter dúvidas – no país onde já um dia vi passar ciências sociais e humanas como a Filosofia, a Geografia, a Historiografia, a Literatura, a História Universal da Infâmia, Jorge Luis Borges, a ditadura, a guerra colonial, o golpe de estado, a revolução; neste mesmo país onde hoje já não se é nem se está vivo pelos próprios meios da inteligência e da vontade; onde pouco ou nada vale a pena, e cuja consciência nos dói – mas onde já nem a consciência disso vale a pena ou a paixão?

A crise é uma viagem pelo tempo acima – e esta a minha crónica dela. Penso-a e vivo-a com palavras. As sempre belas e amadas palavras. Amo-as tanto como às mulheres e às nuvens brancas que pairam sobre o azul plano e luminoso do mar. Porque eu gosto dos amores secretos que também a mim me escondem da evidência em pleno campo de batalha. Mas a minha guerra não defende o rei. Armei-me contra a crise que levou daqui a alma e trouxe consigo o exército estrangeiro. Atacar o ocupante, mandar prender o rei e o eleito na ilha mais distante de todas as ilhas, fora do coração do povo, para que um e outro vejam e provem deste mesmo exílio; e morram ambos, como nós morremos, do nosso desgosto de sabermos quem somos – e afinal termos perdido o navio do regresso a casa, à terra dos nossos pais, ao mar que um dia já foi só nosso e agora, definitivamente, não nos pertence.

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o doloso quociente, por ssru

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Ministra das Finanças dá bronca no Porto – in Jornal de Notícias, Política//25-01-2014

A MINISTRA das Finanças causou um profundo mal-estar quando, na passada terça-feira, sugeriu, perante duas ‘dezenas de empresários nortenhos, que a Associação Comercial do Porto se fundisse com a Associação de Comerciantes do Porto. Depois de Nuno Botelho, presidente da primeira, a ter acusado de “ignorância”, explicando-lhe que uma nada tem a ver com a outra, Maria Luís Albuquerque, já irritada, arranjou alternativa: então que se juntem a Associação de Comerciantes com a Associação Empresários de Portugal (AEP).

A ministra participava numa sessão de trabalho num hotel do Porto marcada pela Distrital do Porto do PSD. Já no final do encontro e à laia dos cortes que o país terá que continuar a fazer, considerou que o país tem associações a mais e que gasta com elas dinheiro a mais. A ACP não é subsidiada pelo Estado, por exemplo.

“Criou-se um clima de mal-estar por causa da ignorância da ministra”; disse um dos presentes ao JN. “É uma atitude reveladora do pior centralismo, uma falta de consideração pelo Porto”, acrescentou outro dos convidados. Antes, já a ministra deferira um violento ataque contra a Sociedade de Reabilitação Urbana, na senda da guerra que mantém com a Câmara do Porto. “O Estado não vai entregar nem mais um euro à SRU”, terá dito. Contactado pelo JN, Nuno Botelho, presidente da ACP, ficou-se por um “não confirmo nem desminto”. P. F.

Convidada pela distrital do PSD (?), a ministra das finanças conseguiu no Porto, provar tudo aquilo que dizemos acerca das qualidades políticas desta gente que nos desgoverna. A notícia acima (que só encontramos no JN em papel e no clip da ACP, curiosamente) revela uma governante cujo quociente de inteligência roça a ignorância pura, como também é doloso, uma vez que atinge um entranhado ressabiamento disparado em várias direcções. Conseguir, num dado momento da sua parda vida, confundir as diferentes instituições da Cidade e ainda atacar violentamente a única SRU que tem as contas bem feitas, é obra. E desrespeito…

A revelação mais importante a reter é que o comportamento do Governo em relação ao Porto é, ao mesmo tempo, premeditado e abstruso. Assim se percebe por actos vis como o aumento brutal das rendas nos bairros do IHRU e na recusa dos benefícios fiscais para imóveis classificados do Centro Histórico. Por quanto tempo mais teremos de carregar nos nossos ombros o peso do mal que grassa neste País?

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a vida enlatada, por ssru

A conclusão a que chegamos é que Portugal é um País que enferma de uma estupidez endémica! No mesmo dia podemos ler duas notícias tão diferentes mas tão intimamente ligadas, a começar por esta:

“Governo sorteia carros para quem pedir fatura”

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A ‘lotaria de faturas’ arranca em janeiro e, para já, vai sortear automóveis. O sorteio será semanal e destina-se a incentivar os consumidores a pedirem faturas com o seu número de contribuinte. (…) Para ficar habilitado tem que pedir para incluir o número de identificação fiscal no ‘recibo’. Todo o tipo de compras (em qualquer sector de atividade) são válidas e habilitam para o sorteio.

“Uma em cada 5 famílias deixou de comprar carne ou peixe por falta de dinheiro”

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Uma em cada cinco famílias portuguesas, mais precisamente 22,8%, inquiridas num estudo da Direcção-Geral da Saúde (DGS) admite não ter tido dinheiro para comprar alimentos como carne ou peixe nos últimos três meses de 2012. (…).O estudo da DGS acrescenta ainda que quase 30% dos agregados familiares confirmaram ter mudado de hábitos alimentares no período em análise, motivo pelo qual deixaram de comprar alimentos que consideram essenciais.

Abram alas para o enlatado da vida…

os ladrões do tempo, por ssru

Há quase dois séculos atrás, em 1819, Benjamin Constant apresentou aos seus pares, numa conferência memorável, o texto intitulado “Da Liberdade dos Antigos Comparada à dos Modernos”. Ali desvelaria algumas considerações que pretendia submeter ao julgamento dos restantes e que colocava em confronto a liberdade colectiva dos povos antigos, onde os cidadãos tinham um peso preponderante nas decisões políticas, mas cuja vida privada não controlavam; e por outro lado, a liberdade pessoal dos povos modernos, cujo indivíduo é dono da sua vontade mas cujo peso político é quase nulo. Do seu longo e profético texto detemo-nos em algumas conclusões:

“(…) O perigo da liberdade moderna está em que, absorvidos pelo gozo da independência privada e na busca de interesses particulares, renunciemos demasiado facilmente ao nosso direito de participar do poder político.

Os depositários da autoridade não deixam de exortar-nos a isso. Estão sempre dispostos a poupar-nos de toda a espécie de cuidados, excepto os de obedecer e de pagar! Eles nos dirão; “Qual é, no fundo, o objetivo de todos os vossos esforços, o motivo de vosso trabalho, o objeto de vossas esperanças? Não é a felicidade? Pois bem, essa felicidade, aceitai e nós nos encarregaremos dela.” Não, Senhores, não aceitemos. Por mais tocante que seja um interesse tão delicado, rogai à autoridade de permanecer em seus limites. Que ela se limite a ser justa; nós nos encarregaremos de ser felizes.(…)”

Dê-se o caso dos representantes desta nossa jovem Democracia, entenderem ser necessária uma expiação para que a Liberdade dos cidadãos deste País seja salva e, num futuro preferencialmente próximo, começarem a falar VERDADE e aí nós poderemos entender o rumo que estamos a dar às nossas vidas. A Verdade é, pois, o pilar fundamental da Justiça e com esta será possível sermos felizes.

Só uma Justiça de olhos bem abertos, permitirá que possamos perceber em que momento da nossa vida democrática nos tornamos num País de ladrões, de políticos profissionais sem escrúpulos, de decisores desqualificados… Pois, infelizmente o Tempo não está a nosso favor!

Quem se julga esta gente? | Nicolau Santos | Expresso, 2 de agosto de 2013

O caso BPN continua a queimar as mãos de muita gente. Tanto que, quando alguém que esteve ligado ao banco vai para um lugar público e tem de divulgar o seu curriculum, elimina cuidadosamente essa atividade do seu passado.

Foi isto que fez Rui Machete, foi isto que fez Franquelim Alves, passando aos jornalistas um atestado de incompetência e aos cidadãos, um atestado de estupidez.

Não está em causa a compra ou venda de ações de uma instituição bancária. Mas está em causa saber 1) se toda a gente podia comprar ações do BPN; 2) se toda a gente que comprou as viu recompradas pelo dobro ou pelo triplo do seu valor original; 3) se esses ganhos assentavam na atividade normal do banco.

Ora para quem não se lembra, o BPN não estava cotado em bolsa. Por isso, só comprava ações do banco quem a administração convidava para tal. Foi assim com Cavaco Silva, que comprou e vendeu ações do BPN tratando diretamente do assunto com o presidente da instituição, Oliveira Costa.

Depois, a compra de ações de ações pelo banco por valores muito superiores aos que as tinha vendido não resultava do livre funcionamento do mercado – mas de uma decisão da administração e, em particular, de Oliveira Costa.

Quer isto dizer que o presidente do BPN beneficiou quem quis – e beneficiou seguramente os seus amigos. Não por acaso, todos (ou a esmagadora maioria) os beneficiados com a venda de ações altamente valorizadas ou com vultuosos empréstimos não reembolsados são membros ou simpatizantes do PSD. E suponho que não é preciso dizer os nomes.

Por isso, se tudo fosse tão normal e transparente, Rui Machete não teria eliminado do seu curriculum as funções que ocupou no BPN. Por isso, também não devia ter dito que isto revelava a podridão da sociedade portuguesa.

É que se este caso revela alguma coisa é a podridão com que altas figuras do PSD ligadas ao Estado ganharam muito dinheiro com um banco fantasma que era liderado por um grupo de malfeitores.

E é esse dinheiro fácil que está agora a ser pago, com língua de palmo, por todos os contribuintes. Mais de 4 mil milhões de euros dos nossos impostos servem para pagar as mais-valias e os empréstimos não reembolsados que o BPN concedeu.

Por isso, seria de muito bom-tom que todos os que lucraram com o BPN se calassem e que não nos tentassem convencer que tudo foi limpo e transparente no dinheiro que ganharam. É que, como de costume, os senhores privatizaram os lucros. E deixaram para os contribuintes a socialização dos imensos prejuízos. Haja vergonha!

a semana lunar, por ssru

Do dia 3 ao dia 10 de Abril decorreu no Porto a “Semana da Reabilitação Urbana”, promovida pela Vida Económica e pela Promevi, com o apoio da Porto Vivo e da Câmara Municipal do Porto, que pretendeu ser “plena de eventos, que marque a agenda da cidade e do país. Um conjunto de iniciativas, tendo como palco as áreas e edifícios recuperados da cidade, atraindo profissionais e público em geral, residentes e visitantes, para destacar o impacto social da Reabilitação Urbana. Uma Semana da Reabilitação Urbana na agenda mediática do país, com uma forte comunicação e uma imagem unificada e marcante!”

Coincidindo com a semana lunar das comemorações do Mês Mundial da Astronomia, será de destacar a importância do efeito que o satélite terrestre tem sobre os pobres terráqueos. E por onde começar?

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  1. Pelas declarações estupidamente hipócritas deste executivo camarário ao afirmar que “pediu, em Dezembro, às principais instituições culturais da cidade e à empresa Fernando Sampaio para não colocarem mais cartazes anunciando os seus eventos na baixa e no centro histórico. Mas os cartazes não desapareceram e, em alguns locais, teimam mesmo em reaparecer depois de as paredes terem sido pintadas ou limpas por funcionários da autarquia. É estúpido porque não tem que pedir absolutamente nada, apenas cumprir a legislação e os regulamentos em vigor. Hipócrita, também, porque semanas antes do evento que hoje tratamos aparecem espalhados pela cidade e especialmente no CHP (onde os funcionários da autarquia nunca aparecem para pintar ou limpar) inúmeros cartazes a anunciar a “Semana da Reabilitação Urbana” num despropósito irónico e ridículo ao mesmo tempo.
  2. Pelas declarações do homem forte do IHRU, Vitor Reis, que gracejou numa conferência intitulada “As Empresas e a Regeneração Urbana – Oportunidades, Desafios e Financiamento” a seguinte frase epistemológica para gravar para a posteridade: “Às vezes questiono-me se a reabilitação urbana não é como os lobisomens: fala-se tanto, mas ninguém viu nenhum”. Reconhecido o efeito lunar, sobretudo a Lua Cheia, na espécie animal utilizada na parábola o que o Presidente do IHRU disse em palavras correntes é que no Porto é só paleio e pouco bago, é só milhões a desaparecer e nem inglês para os ver.
  3. Pelo Prémio Nacional da Reabilitação Urbana – assim mesmo com um “R” meio manco, aluado e de costas viradas para um “U” pasmado – atribuído durante um “jantar de gala” (‘dasssse?!) onde a brigada do reumático aparece misturada com meia dúzia de tias e tios da naftalina. O resultado final dos premiados é bem melhor que o lote de concorrentes que ficaram de fora (onde figura o Corpo da Guarda, credo!), mas feitas as contas, quantas é que são verdadeiramente as obras de reabilitação. É que o Palácio das Cardosas e o Passeio dos Clérigos são obras novas, quase a 100%.
  4. Pelo Espaço da Reabilitação Urbana, imagine-se, montado numa tenda, mas com design!!! Que fosse num dos muitos palácios abandonados da Baixa como o do Totta em Mouzinho da Silveira, ou num dos inúmeros edifícios abandonados do centro como o da UBP em Sampaio Bruno, ou na ex-sede de campanha do Cavaco ou do Nobre nos Aliados, isso sim é que é um espaço de reabilitação urbana. E para que serviu este espaço? Ah, para os parceiros que forneceram os materiais no “condomínio da cultura” instalado no “Edifício Garantia” poderem usufruir de uma contrapartida! Tem lógica.
  5. Pelas inúmeras conferências com discursos de conteúdos repetidos e ocos que nos trouxeram ao estado em que se encontra hoje a reabilitação urbana. Sempre a mesma conversa, sem visão nem inovação, experimentalismo bacoco de realidades despregadas da própria realidade vivida no terreno. Intervenções como as de Rui Rio, Gonçalo Gonçalves, Vítor Reis, Rui Quelhas, Vasco Peixoto de Freitas, Maria Geraldes, José Paixão, Padre Jardim e tantos outros (como aquele pessoal do Quarteirão das Cardosas), que nos dão uma perspectiva sobre aquilo que andamos aqui a fazer, o que nos falta afinal.
  6. Pelo anúncio da senhora ministra Cristas, aqui mesmo no Porto, de um (?) novo (?) programa de apoio chamado “Reabilitar para Arrendar”, cujos destinatários são os municípios e as SRU’s, num despropósito tolo de continuar a fornecer capital a quem tem desbaratado o pouco que existe, perpetuando o Estado como um gigante senhorio. Por outro lado isto contrasta com a posição do IHRU (que é da sua competência), de tal forma que este nem aprovou as contas da Porto Vivo, nem resolve a situação em que se encontra. Não é isto um múltiplo paradoxo?

Tendo ainda em conta a importância da semana lunar na obstetrícia podemos afirmar que em matéria de reabilitação urbana no Porto “a montanha pariu um rato”.

a demissão já, por ssru

Este [governo] é um flagelo pessoal, familiar e social. É uma das experiências mais traumáticas que alguém pode ter. A melhor forma de afectar o [governo] no curto prazo, portanto, quanto mais cedo melhor, é criar as condições para a nossa recuperação económica, obviamente, demitindo-o. Sobretudo, depois de mais isto:

a liberdade na praça, por ssru

Vocês poderão perguntar, sem perceber, por que razão insistir em comparecer em manifestações populares, cujo dia seguinte se revela igual ao anterior. Tal como vocês são muitos os que se interrogam, mas na verdade nunca nada fica igual, após uma estrondosa prova de cidadania como aquela em que nós participámos. Acreditamos que um cidadão deve praticar a cidadania todos os dias da sua vida e não apenas de quatro em quatro anos, nos actos eleitorais. Só isto já faz valer a pena. Mas na verdade estamos fartos… deste desgoverno!

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Em Belém uma múmia paralítica emudece com frequência para que ninguém se lembre que tudo começou nas suas mãos manchadas; em São Bento um fantoche gesticula inalterados movimentos, à espera que alguém lhe mude a cassete; e a Troika entra e sai do País das estátuas, como se aqui dentro não vivessem pessoas, mas antes números, às vezes pares outras ímpares, à medida que vão morrendo de desgosto e fome e solidão e frio e sem medicamentos e sem esperança. Nesta frente nada mudou.

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Muitos comentadores de serviço, embora conscientes do valor da voz do Povo, desdobram-se em manobras de diversão, desviando as atenções para a armadilha dos números, terão sido mesmo o milhão e meio, tapando-se assim o sol com a peneira. Mas quem ganha o nosso prémio de maior talento, é uma deputada da Assembleia da República, que representa o Povo através dos votos que o Povo depositou no seu partido, dito democrático, uma vez que vivemos em democracia. Todos em pé, em filinha, mãos juntinhas num aplauso democrático para a senhora deputada do CDS-PP (parceiro governamental), a Dra. Teresa Caeiro:

Não vou e nunca iria a uma manifestação como a que se prepara para o dia 2 de Março de 2013. Citando Paulo Portas, “ninguém são de juízo dirá que tudo está bem”. É evidente que as coisas não estão bem: uma taxa de desemprego acima dos 17% é uma calamidade; a deterioração das condições económicas maior do que se previu; a consolidação orçamental está a ser mais lenta do que se pretendia; a crise é mais profunda do que esperado e a carga fiscal atingiu o limite do suportável pela classe média. Precisamos de mais tempo para diminuir o défice, de um período mais alargado para uma redução estrutural da despesa corrente e de maior tolerância para cumprir o programa que nos devolverá a soberania plena. Precisamos de aceleradores da economia sem entrar no despesismo que nos obrigou ao pedido de resgate. Temos de ter a lucidez de compreender que o Memorando de Entendimento deve ser ajustado às realidades com que nos vamos confrontando. E há que ter noção de que não é possível exigir o esforço tremendo pedido aos portugueses sem um mínimo de compreensão da população.

Dito isto, os “lixem-se” não representam a população portuguesa e não encontro no slogan simplista “que se lixe a troika” e no entoar do “Grândola” em todas as esquinas qualquer vislumbre de pensamento ou de propostas alternativas. Aposto que a maioria dos que se reúnem hoje não lutaram pela liberdade e pela democracia: receberam-na de bandeja e beneficiam – felizmente – dessas conquistas. Tomam-na como garantida, para sempre. Mas esquecem que a liberdade implica responsabilidade, nomeadamente o dever de contribuir de forma construtiva para que ela se perdure. E a democracia exerce-se nos actos eleitorais, de quatro em quatro anos. Seria interessante saber quantos dos que se “indignam” e mandam a troika lixar–se, exerceram este direito/dever nas últimas eleições.

A contestação faz parte da democracia, e ainda bem. Mas contestar por contestar não contribui para a solução dos problemas, nem dignifica a liberdade. As grandes concentrações de 15 de Setembro, transversais a toda a sociedade e faixas etárias, tinham uma mensagem precisa e concreta: não aceitamos uma redução dos nossos vencimentos para uma medida sem retorno perceptível. E tinham razão.

Já os que querem que “a troika se lixe” não apresentam uma única ideia. A não ser, claro… que se lixe tudo. E da pouca substância que se retira das forças políticas que os apoiam não há uma medida que não levasse o país à ruína, a uma desvalorização de mais de 80% do nosso PIB (leia-se das posses de cada um de nós) e a tornarmo-nos uns párias internacionais durante gerações e gerações.

Deixo umas perguntas, às senhoras e senhores que hoje estão num afã a pintar cartazes e a afinar as vozes: a um ano e meio do fim do programa de resgate é altura de romper tudo ou tentar cumprir a nossa parte para recuperar a nossa soberania? E preferem, hoje, estar em Portugal ou na Grécia? E preferem que se lixe a troika ou que se lixe Portugal?

Por Teresa Caeiro, publicado em 2 Mar 2013 – 03:10, em http://www.ionline.pt

Porque estamos em democracia, vamos lá responder à senhora deputada, partindo do pressuposto evidente que este governo já não tem o apoio popular há muito tempo e que as suas políticas têm de ser mudadas. Assim:

1. Ainda bem que reconhece que as coisas não estão bem, ficaram ainda piores depois desde governo ter entrado em funções. O desemprego acima dos 17% não é uma calamidade, é o fim da linha para muitos, principalmente para aqueles que se encontram numa idade cinzenta, a que os liberais chamam limbo, mas os democratas preferem apelidar de idade de ouro, de saberes adquiridos. Tem razão, aquilo que precisamos para resolver os problemas é de soberania. E de órgãos de soberania impermeáveis à corrupção e à ditadura do poder. Desde logo, precisamos de uma justiça que não se queixe de falta de meios para caçar os poderosos corruptos, mas que é diligente a tirar as casas e os empregos aos mais humildes. Sobretudo, será necessário reduzir as desigualdades que nos desunem e nos fazem sentir cidadãos de segunda, uma grande mole que trabalha e paga impostos e vota para que a senhora deputada continue a comer lagosta e lavagante nos restaurantes da Assembleia da República, a preços módicos.

2. O Povo que viu na rua no dia 2 de Março não representa a população, tem toda a razão. Aquela gente toda é a população portuguesa e com ela estava muita outra que ficou em casa ou no trabalho ou a estudar e não pôde lá estar. Aqueles todos que lá estiveram, que mandam lixar a troika e cantam as ‘grândolas’, são cidadãos que lutam pela liberdade e pela democracia – assim no singular, a menos que a senhora conheça mais que uma – e que se recusam a exercer o seu paradoxo de democracia que apenas se exerce nos actos eleitorais. Muitos até terão votado o suficiente no seu partido para que a senhora tenha sido eleita.

3. “Que se lixe a Troika” tem tudo a ver com o dito do senhor primeiro-ministro que mandou lixar as eleições e por implicação o Povo eleitor. Por isso se manda lixar o governo, os políticos como a senhora deputada e a Troika que antes da crise nos pagou umas indeminizações para destruirmos o nosso sistema produtivo e baixou os juros do crédito à habitação e nos transformou em apenas consumidores, menos problemáticos que cidadãos. Sabia ela que tudo faríamos para manter o nível de vida conquistado e venderíamos os nossos anéis ao desbarato às empresas e interesses financeiros que dão suporte à Troika. Por isso senhora deputada, a mensagem que não consegue ler da manifestação é esta: “Estamos fartos de vocês todos!”

4. E que raio de pergunta é essa “(…)preferem, hoje, estar em Portugal ou na Grécia?”. Cremos que é a senhora deputada que prefere não estar na Grécia, porque, ao que sabemos, os gregos andaram a acertar os passos dos políticos que os vilipendiaram. Queremos estar em Portugal e ser mais como os islandeses, que têm a coragem de lutar pelos seus direitos, formando assembleias populares, alterando a constituição a favor do Povo, condenando judicialmente os seus políticos, verdadeiros criminosos. Senhora deputada, saiba e repita aos seus colegas: que nenhuma tempestade dura para sempre, apenas é um pouco tarde para que tudo volte à normalidade! Portanto: “que se lixe a senhora deputada Teresa Caeiro, Viva Portugal”.

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o povo ainda sereno, por ssru

O Primeiro-Ministro da Bulgária demitiu-se recentemente dizendo, “não participarei num Governo quando a polícia bate no povo e quando as ameaças de protestos substituem o debate político”, motivado pela escalada da violência nas manifestações contra a austeridade e aumento dos preços. Mas em Portugal tudo é diferente, existindo mesmo uma forte corrente filosófica que advoga que a cidadania só se deve manifestar no acto eleitoral, tendo que suportar até lá um qualquer defectível governo, como o actual. Dizem-nos que está no nosso ADN sermos assim, serenos e que as lutas, a existirem, devem ser travadas com cravos e abraços. Bardamerda!

Numa notícia de Maio de 2011 (quase dois anos), a TVI24 dava conta que nos últimos 11 anos o Estado português tinha sido condenado 13 vezes pelo TEDH, por violação do direito à liberdade de expressão dos seus cidadãos.

«Essencialmente os casos são à volta de condenações de jornalistas ou políticos à volta de críticas políticas e de expressões violentas e contundentes utilizadas, como aldrabão ou grotesco». «São expressões que os tribunais portugueses consideraram que deviam criminalizar, mas que o TEDH considerou que no âmbito do debate político e sendo sobre figuras públicas estavam protegidos pela liberdade de expressão», explicou Francisco Teixeira da Mota. «A liberdade de expressão não é um direito só individual, mas um direito de uma sociedade democrática, onde é preciso que haja liberdade de expressão e de opinião. Uma pessoa só pode ter uma opinião livre e esclarecida se ouvir muitas outras opiniões», sublinhou o advogado.

Vem isto a propósito, precisamente, da transformação de um protesto popular em forma cantada, numa suposta violação da liberdade de expressão de um ministro, o Relvas. Ou de qualquer outro membro do Governo. Já Paulo Portas disse há dias, a “Grândola, Vila Morena” sempre se cantou. E à falta de melhor “Parva que sou”, a grandolada, como ousaram chamar aos cânticos, serve na perfeição ao propósito de protestar contra quem tanto nos agride das mais variadas formas, a começar com a sua própria existência.

Na nossa infância decorávamos o refrão não só desta canção mas de tantas outras: como a “Somos Livres (Uma Gaivota)” de Ermelinda Duarte, gostamos especialmente do último verso [Somos um povo / que cerra fileiras, / parte à conquista / do pão e da paz. / Somos livres, somos livres, / não voltaremos atrás.]; ou como a “Jornada” de José Gomes Ferreira [Vozes ao alto! Vozes ao alto! / Unidos como os dedos da mão! / Havemos de chegar ao fim da estrada, / ao Sol desta canção!], tudo isto entoava nas paredes da escola, nos recreios, nos caminhos da nossa casa.

O Dr. Rui Moreira (ainda se lembram dele, certo?) escreveu há uns meses uma crónica no JN, que intitulou de “Os Linchadores”, projectando a sua destilada visão cataclísmica para o futuro da democracia caso continue a “intolerância” dos manifestantes, ou seja, caso os cidadãos se proponham a manifestar a sua revolta, o profundo desespero e a maior das indignações, que têm o direito de exteriorizar. Vejamos (atentem à semântica! Por favor leiam o texto na íntegra e se forem frágeis do estômago é melhor tomar já um protector):

Para gáudio de alguns abutres que empunham microfones, e de algumas hienas, cujo riso equivale a uma ameaça, passou a ser moda insultar os dirigentes políticos. Hoje, são os que estão no Governo que são vilipendiados. Amanhã, serão os seus sucessores que, defendendo ideias diferentes, estarão à mercê dos necrófagos. Os agentes de segurança têm sempre de suportar todo o género de provocações, sem merecerem, sequer, um agradecimento daqueles que protegem.

(…) Este é um país de linchadores que se infiltram na multidão ordeira para perturbar a ordem pública e para agredir polícias. De jornalistas que esquecem os princípios éticos e o código deontológico da sua profissão. De governantes que não têm sentido de Estado e transportam para o poder os seus ódios de estimação.

Em Novembro do ano passado (5 semanas depois da crónica anterior), cinco mil polícias gritaram “gatunos, gatunos” em frente ao Parlamento, manifestando-se contra as medidas de austeridade, cantando o “Hino Nacional” e, imagine-se, a “Grândola, Vila Morena”. Na escadaria em frente à Assembleia da República, a proteger a democracia e os democratas, encontravam-se os seus colegas, elementos das equipas de intervenção rápida da PSP.

Não são só os polícias que contradizem o Dr. Rui Moreira, pois também alguns jornalistas, em sentido oposto, se mostram predispostos para o contrariar. Foi o caso de Henrique Monteiro e de Henrique Raposo, ambos jornalistas e comentadores do Expresso que nas suas habituais crónicas abordaram o assunto da falta de democracia, da liberdade de expressão do ministro, do fascismo da grandolada (?), do exercício deste tipo de democracia apenas no acto eleitoral, etc. Tal como o Dr. Rui Moreira, há ainda muita gente que não percebeu a razão dos protestos, uma vez que tais iniciativas colidem com o sentido da vidinha privilegiada que usufruem e com o desconhecimento do grau de privação que a grande maioria do povo português, cada vez menos silenciosa, tem que aguentar diariamente. Para vos explicar o fundamental do protesto poderíamos ler alguns artigos do Texto Fundamental, a começar pelo artigo 1º [Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária], mas isso iria maçar-vos em demasia.

Lamentavelmente, ainda não perceberam que os protestos apenas pretendem reafirmar a nossa vontade para que desapareçam de vez os linchadores deste sereno povo e reivindicar o nosso “direito ao silêncio”?

manife

nota a 2 de Março de 2013: Num dos parágrafos da sua crónica no JN, o Dr. Rui Moreira ensaia a defesa de Armando Vara por este ter sido confrontado, em pleno átrio de um tribunal, por um cidadão/herói que ousou demonstrar a sua repugnância perante a cadastrada personagem.

Ousássemos todos e a política deste País seria bem diferente. Não tenhas medo Rui Moreira!

o carro alegórico, por ssru

O encanto e a beleza paisagística desta cidade, sobretudo do Centro Histórico do Porto, onde nasceu, são reconhecidos e admirados em todo o mundo. De tal forma que em 1996, como todos se recordam, atingiu a inscrição na lista da UNESCO como Património da Humanidade e, incrivelmente, o tem mantido, apesar de tanta degradação física, económica e social de que resulta um incompreensível êxodo demográfico. Para quem não tem presente estes foram os critérios que justificaram a sua inscrição:

“O Comité decidiu inscrever o imóvel indicado com base no critério cultural (iv) considerando que o local tem um valor universal excepcional como o tecido urbano e seus muitos edifícios históricos, testemunho notável para o desenvolvimento ao longo dos últimos milhares de anos de uma cidade europeia que olha para fora, para o oeste, por suas ligações culturais e comerciais.”

são nicolau vista do morro da sé

Apesar de tão inconfundível valor patrimonial, sempre aparece quem considere que tanto é muito pouco e decida acrescentar mais alguns adjectivos, pintar o quadro de um colorido do mais pitoresco “very typical”, contando até com o absurdo e o dissonante, para potenciar essa necessidade de diferença. Para nós são apenas os valores locais que se perderam.

Aproveitando a quadra carnavalesca, que ninguém nos levará a mal, façamos uma breve resenha dos “carros alegóricos” que circulam nas nossas ruas e no nosso Douro para ilustrarmos o postal de hoje. Assim, temos logo à partida o barco rabelo e o carro eléctrico que há muito perderam a sua função principal e que agora se dedicam apenas ao turista que nos visita.

rabelo

electrico

A modernidade trouxe-nos uma versão importada dos “double deck bus” ingleses, em diferentes cores e versões (com capota ou descapotável), veículo que facilmente assimilamos pois fazem-nos lembrar épocas anteriores em que serviam para transportar os nossos pais para o trabalho.

yellowline

redline

Com a “Disneyficação” das nossas ruas, vieram os trenzinhos mágicos que fazem percursos entre a cota alta da Sé e a cota baixa das caves de Vinho do Porto, infelizmente, quase sempre vazios, o que descompensa o transtorno que causam no trânsito.

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Pelo meio temos alegorias mais ou menos estáticas e revivalistas como a importação do velhinho táxi inglês, para ajudar o comércio, ou vanguardistas e elitistas, a rivalizar com os peões e os transportes públicos, como os americanos “segway”.

taxi

segway

Mas agora, finalmente, acabadinho de chegar directamente da Tailândia, sob os inúmeros flashes dos lobotizados meios de comunicação social, senhoras e senhores: o “TUK TUK”.

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Eléctrico, diga-se… Azul. Branco também!

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Por favor, não comecem já a dizer mal de nós e a chamar-nos quadrados e retrógrados, porque (espantem-se) nós queremos mais! Não vemos sequer uma razão plausível para pararmos por aqui. Vejam, o nosso amigo dos barcos já trouxe o iate da Rainha de Inglaterra.

queen

Pois que traga também um barco do Rio Mississípi com casino lá dentro, ou uma jangada de canas do Lago Titicaca, ou ainda, sim, porque não, uma romântica gôndola veneziana.

river boat

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reed boat

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gondola

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O outro senhor dos tuk tuk esqueceu-se, imperdoavelmente ou talvez não, de importar um espectacular e ecológico veículo como o ilustre “rickshaw”, ou qualquer outro daqueles lados do oriente extremo.

rickshaw

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cestos

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Pois nós, ssru, temos vontade de instalar no CHP o melhor daquilo que é nosso: o cesto de vime da Ilha da Madeira (com as brasileiras incluídas). Já estabelecemos dois magníficos percursos, um em cada um dos morros da cidade: 1º. Aproveitando as potencialidades do pavimento em cubos de granito cerrados e lisinhos, recentemente instalados nas obras do eixo Mouzinho/Flores (que em dias de chuva dão muito jeito) começamos na rua pedonal dos Caldeireiros, seguimos pela futura rua pedonal das Flores, continuamos na nova rua pedonal de Sousa Viterbo e pela rua pedonal da Alfândega chegamos ao Largo do Terreiro. 2º. O outro percurso inicia-se na famosa e “poeirenta” rua pedonal Escura, segue pela rua pedonal e tortuosa da Bainharia, logo a seguir pela rua pedonal dos Mercadores (saltando o Túnel a meio) e chegamos à Praça da Ribeira, que a maioria das pessoas não conhece porque lá tem um cubo de bronze no meio. Que dizem, genial?

Em último caso temos sempre esta solução infalível!!!

camelos

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o preço da inércia, por ssru

“A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes, in Diário de Notícias, 18.11.2003

“A cultura nunca poderá ser um factor estratégico de mudança. Se é estratégia, não é cultura. Faz-se apelo à cultura como estratégia de mudança, tentando resolver a condição perturbadora do homem culto, munido de culpabilidade inconsciente, ou simplesmente isento da culpabilidade pelo sofrimento. Isso não é possível.

A cultura não se enquadra na totalidade política. Há um grave mal-entendido quanto a isso. A cultura não significa o conforto da neutralidade, a irónica graduação da expectativa, a ginástica do não-compromisso. Significa um enraizamento em si mesmo, que conserva no homem a faculdade de julgar.

Não é contrária à acção, mas é condição necessária para que a acção seja serena e útil, e não impaciente e desordenada. Não se trata de racismo espiritual; não se trata da pretensão de existir à parte da história política do mundo. É a intenção absolutamente necessária de ser livre, face aos acontecimentos, qualquer que seja a lógica que os liga.

A cultura é o que identifica um povo com a sua finalidade.”

Agustina Bessa-Luís, in ‘Dicionário Imperfeito”, 2008, Guimarães Editores, Lisboa.

é impensável desistir, por ssru

Um homem entrou na sala onde discursava a ministra da agricultura e atirou-lhe um ovo, gritando “aldrabões”. Sim, são todos uns miseráveis aldrabões, que vivem alarvemente melhor do que o resto dos cidadãos. Ontem foi o dia dos portugueses perceberem que já chega de desigualdades nos sacrifícios que nos pedem para sairmos da crise. Crise que insistem em atribuir aos cidadãos por estes terem vivido anos a fio acima das suas posses, quando sempre foram eles – políticos merdosos – que usufruíram e ostentaram uma riqueza que não lhes pertence. E os governos castigam os trabalhadores porque temem que os “Donos de Portugal” os castiguem! Vão-se foder!!!

As espadas, 11 Setembro 2012 | 23:32, Pedro Santos Guerreiro – psg@negocios.pt

O Governo estragou tudo. Tudo. Estragou a estabilidade política, a paz social, estragou aquilo que entre a revolta e o pasmo agregava o país: o sentido de que tínhamos de sair disto juntos. Sairemos disto separados? Hoje não é dia de escrever com penas, é dia de escrever de soqueira.

Passos Coelho, Gaspar e Borges estiveram fechados em salas tempo de mais. Esqueceram-se que cá fora há pessoas. Pessoas de verdade, de carne, osso, pessoas com dúvidas, dívidas, família, pessoas com expectativas, esperanças, pessoas com futuro, pessoas com decência. Pessoas que cumpriram. Este Governo prometeu falar sempre verdade. Mas para falar verdade é preciso conhecer a verdade. A verdade destas pessoas. Quando o primeiro-ministro pedir agora para irmos à luta, quem correrá às trincheiras?

Não é a derrapagem do défice que mata a união que faz deste um território, um país. É a cegueira das medidas para corrigi-lo. É a indignidade. O desdém. A insensibilidade. Será que não percebem que o pacote de austeridade agora anunciado mata algo mais que a economia, que as finanças, que os mercados – mata a força para levantar, estudar, trabalhar, pagar impostos, para constituir uma sociedade?

O Governo falhou as previsões, afinal a economia não vai contrair 4% em dois anos, mas 6% em três anos. O Governo fracassou no objectivo de redução do défice orçamental. Felizmente, ganhámos um ano. Mas não é uma ajuda da troika a Portugal, é uma ajuda da troika à própria troika, co-responsável por este falhanço. Uma ajuda da troika seria outra coisa: seria baixar a taxa de juro cobrada a Portugal. Se neste momento países como a Alemanha se financiam a taxas próximas de 0%, por que razão nos cobram quase 4%?

Mais um ano para reduzir o défice é também mais um ano de austeridade. E sem mais dinheiro, o que supõe que regressaremos aos mercados em 2013, o que será facilitado pela intervenção do BCE. Mas “regressar aos mercados” não é um objectivo político nem uma forma de mobilizar um país. São os fins, não os meios, que nos movem.

Sucede que até este objectivo o Governo pode ter estragado. Só Pedro Passos Coelho parece não ter percebido que, enquanto entoava a Nini, uma crise política eclodia. A nossa imagem externa junto dos mercados, que é uma justa obstinação deste Governo, está assente em três ou quatro estacas – e duas delas são a estabilidade política e a paz social. Sem elas, até os juros sobem. E também aqui o Governo estragou tudo. Tudo.

Os acordos entre partidos da coligação e o PS, e entre o Governo e a UGT, têm um valor inestimável. Que o diga Espanha, que os não tem. Mas não só está anunciado um aumento brutal de impostos e de corte de salários públicos e pensões, como se inventou esta aberração a destempo da alteração da taxa social única, que promove uma transferência maciça de riqueza dos trabalhadores para as empresas. Sem precedentes. Nem apoiantes.

Isto não é só mais do mesmo, isto é mal do mesmo. O dinheiro que os portugueses vão perder em 2013 dá para pintar o céu de cinzento. O IRS vai aumentar para toda a gente, através de uma capciosa redução dos escalões e do novo tecto às deduções fiscais; os proprietários pagarão mais IMI pelos imóveis reavaliados, os pensionistas são esmifrados, os funcionários públicos são execrados. É em cima de tudo isto que surge o aumento da TSU para os trabalhadores.

Alternativas? Havia. Ter começado a reduzir as “gorduras” que o Governo anunciou ontem que vai começar a estudar para cortar em 2014 (!). Mesmo uma repetição do imposto extraordinário de IRS que levasse meio subsídio de Natal, tirando menos dinheiro aos trabalhadores e gerando mais receita ao Estado, seria mais aceitável. O aumento da TSU é uma provocação. É ordenhar vacas magras como se fossem leiteiras.

Poucos políticos têm posto os interesses do país à frente dos seus. Desde 2008 que tem sido uma demência. Teixeira dos Santos aumentou então os funcionários públicos para ganhar as eleições em 2009. Cavaco Silva devia ter obrigado a um Governo de coligação depois dessas eleições. José Sócrates jamais deveria ter negociado o PEC IV sem incluir o PSD. O PSD não devia ter tombado o Governo. E assim se sucedem os erros em que sacrificam o país para não perderem a face, as eleições ou a briga de ocasião. O que vai agora o PS fazer? E Paulo Portas? E o Presidente da República, vai continuar a furtar-se ao papel para que foi eleito?

João Proença foi das poucas pessoas que pôs o interesse do país à frente do seu, quando fez a UGT assinar um acordo para a legislação laboral que, obviamente, lhe custaria a concórdia entre os sindicalistas. Até Proença foi agora traído. Com o erro brutal da TSU, de que até meio PSD e o Banco de Portugal discordam. Sim: erro brutal.

É pouco importante que Passos Coelho não tenha percebido que começou a cair na sexta-feira. É impensável que lance o país numa crise política. É imperdoável que não perceba que matou a esperança a milhares de pessoas. Ontem foi o dia em que muitos portugueses começaram a tomar decisões definitivas para as suas vidas, seja emigrar, vender o que têm, partir para outra. Ou o pior de tudo: desistir.

Foi isto que o Governo estragou. Estragou a crença de que esta austeridade era medonha e ruinosa, mas servia um propósito gregário de que resultaria uma possibilidade pessoal. Não foi a austeridade que nos falhou, foi a política que levou ao corte de salários transferidos para as empresas, foi a política fraca, foi a política cega, foi a política de Passos Coelho, Gaspar e Borges, foi a política que não é política.

Esta guerra não é para perder. Assim ela será perdida. Não há mais sangue para derramar. E onde havia soldados já só estão as espadas.”

os donos de portugal, por ssru

Lemos tantas críticas negativas (propaganda e ausência de contraditório, por exemplo) e muitas achegas sobre o conteúdo deste video, que decidimos verificar as razões para tanto alarido. Perceber porque é que os patrões do sector não transaccionável dominam a economia nacional, ao ponto de substituírem os governos de Portugal, é tarefa que se mostra bastante facilitada. Descobrir a razão para este trabalho de Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas, ter sido emitido na RTP2 na madrugada de 24 e 25 de Abril, em vez de um horário nobre, às claras, é que ficou muito mais difícil.

o esplendor de portugal, por ssru

foto @ Diário de Notícias

Preocupados com a vidinha que se avoluma no tapete de nossa casa, temos tudo em cima da mesa e nada pronto, nada que se veja dito e, no entanto… tudo permanece igual como uma matriz.

A nossa paixão incondicional por António já nos deixou horas de leituras para trás da almofada, mas hoje ao acordar concordamos todos que estamos perante um texto terreno, como um fato feito à nossa medida, que arrasta pelo chão os nossos ensaios de um mundo novo…

O Dr. António de facto esqueceu-se de Cavaco, ou talvez não se quisermos que assim seja. A confiança é a palavra-chave, dizia o presidente de buliqueime em Trás-os-Montes, logo ali, terra de gente que ainda usa a palavra com as cores da Honra, cuspe selado com o aperto de mãos. Raios o partam! “Não há de facto País altamente desenvolvido que não reconheça o valor do mérito e o valor do talento”. Matasse o cinismo… e estávamos hoje em eleições!

foto @ Expresso

Nação valente e imortal”,

de António Lobo Antunes – 8:40, Quinta-feira, 12 de Abril de 2012.

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.

Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.

Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.

Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.

Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.

Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.

Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

o risco sistémico, por ssru

“Na Suíça, ao contrário de Portugal, não há reformas de luxo. Para evitar a ruína da Segurança Social, o governo helvético fixou que o máximo que um suíço pode receber de reforma são 1700 euros. E assim, sobra dinheiro para distribuir pelas pensões mais baixas.” Programa Hoje-RTP2, Reformas na Suíça – 2010-11-10 10:40:07.

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O primeiro-ministro italiano, recém-nomeado, decidiu prescindir do seu ordenado dando assim um claro exemplo de sacrifício perante a humilhante crise económica em que a Itália se vê mergulhada, tal como a restante Europa. Podemos contestar a inocuidade da opção, podemos alegar que, se o fez, é porque não precisava, mas a mensagem que Mario Monti pretendia transmitir tem um carácter específico e um público seleccionado. Ao anunciar ao país a adopção de um novo plano de austeridade, disse: “No momento em que exigimos sacrifícios a todos os cidadãos, parece-me ser meu dever renunciar ao meu salário”. Com esta atitude expôs-se a ele ou aos seus colegas italianos a uma situação confrangedora?

Em Portugal já houve alguns casos parecidos, como aquele que foi tratado como pitoresco pelos seus pares, de um deputado da Assembleia da República, dos lados de Aveiro, que ousou pretender devolver uma qualquer percentagem ou subsídio a que tinha direito e que considerava excessivo. Ao saber-se pela comunicação social, fez-se o devido alarido e tratou-se de seguida do respectivo enterro politico, como se fosse um mero fantoche exibicionista.

Mas a “grande lata” dos helvéticos ultrapassa toda a razão, senão vejamos: “(…) Garantir uma reforma com dignidade, ou seja, com casa, com uma boa alimentação, com cuidados de saúde e até algum dinheiro para gastar, em vez de premiar com reformas de milhares de euros quem já ganhou muito durante toda a vida. (…) Nas pessoas que educaram crianças, há bonificações de taxa educativa, que são rendimentos efectivos. Esse é o primeiro elemento que irá permitir calcular a reforma e dar rendimentos a uma pessoa, mesmo que não tenha trabalhado (…)” por razões familiares. Sobretudo não existem acumulações de reformas.

Depois do artigo anterior sobre esta triste matéria, somos chegados à pergunta seguinte: e em Portugal? Será que os nossos políticos estão com medo do risco sistémico que tal medida implicaria nas suas tristes vidinhas de morgados? Porque razão esta notícia não percorreu os principais noticiários deste alegre país-à-beira-mar-plantado? Terá sido para evitar o contágio? Esta notícia merece a vossa atenção até ao final.

a narrativa simples, por ssru

Este fim-de-semana não fomos a nenhuma manifestação de indignação, também por causa dos grandes substantivos abstractos, mas sobretudo porque depois do dia 12 de Março de 2011, apenas havia lugar para uma nova revolução, nada mais!

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António Lobo Antunes, que tanto admiramos, deu uma entrevista à RTP, convidando para sua casa a jornalista Fátima Campos Ferreira, 14 de Outubro de 2011.

“(…) Eu não consigo perdoar à classe politica e aos grandes grupos económicos aquilo que nos aconteceu. (…) Como é que as pessoas podem confiar, se as pessoas que nos falam não são confiáveis? Se o discurso delas muda constantemente? Se não são capazes de manter promessas e se a cultura para elas é apavorante? Porque é que há tanta novela? Porque é que há tanto programa mau? (…) Não sentia amor neles, nunca senti! E senti sempre que o amor era falso. (…) è como no tempo de Salazar, eram os grandes substantivos abstractos: Honra, Pátria, Glória… e por aí fora!

(…) Porque é que não queremos que as pessoas sejam cultas? (…) è evidente que um povo culto não aceita isto. (…) Quem está em crise são os Países onde a cultura é menos desenvolvida e foi menos apoiada. Isto é óbvio, é tão evidente!

(…) E as pessoas, a maneira como elas beijam as crianças!? Não sinto neles nenhuma vontade genuína, do coração, em beijar criancinhas.(…)”

“… ai Lurdes, Lurdes, o que foi aquilo?”