a crise identitária, por ssru

“O bestiário vai às Cardosas”, Álvaro Domingues, 25 de Outubro de 2013.

(…) O sentido do colectivo, que no modelo europeu foi muito uma construção do Estado Social, do Estado Providência – no limite o Estado garantia o interesse colectivo – construía os interesses colectivos, legitimava os interesses colectivos, regulava os interesses colectivos e aquilo a que estamos a assistir é a uma desconstrução do Estado Social e a uma diluição do Estado Nação, em entidades como por exemplo a União Europeia, deixando o caminho livre a um liberalismo selvagem e à mão visível e invisível do Mercado. Portanto há aqui qualquer coisa que não se pode analisar isoladamente.
A crise do Estado na regulação dos bens colectivos e na definição dos bens colectivos, vai a par-e-passo com a legitimidade do Mercado e da mercantilização como instância que valida o facto de uma solução possa ser considerada boa ou ser considerada má.
A lógica de produção de informação e sua circulação, já não é como antes, uma lógica linear, isto é, o Estado através das suas instituições, a Universidade através dos seus investigadores, as instituições, as associações (fossem o que fossem) diziam o que é que era Património, mostravam as cartas, as declarações e tudo aquilo que supostamente e de uma forma clara explica isso e a informação circulava de uma forma de cima para baixo, da cultura cultivada, da cultura erudita para a popular. E a legitimação era produzida assim.
Hoje em dia é tudo ao contrário, há vários emissores da informação. Se nós, por exemplo, usarmos a Internet como fonte de consulta e de informação, vemos que são quase infinitas, é um universo em expansão, as instituições que produzem conhecimento sobre o assunto. E ao mesmo tempo que produzem informação e conhecimento, produzem formas de legitimar e de arguir aquilo que pensam.
E, portanto, a produção de informação transforma-se num novelo e as instâncias como o ICOMOS e outras, perderam o monopólio da legitimação acerca desses assuntos (isto em relação ao cidadão comum).
Isso cria um ambiente explosivo em termos de polémica faz com que as instituições (o IPPAR, o ICOMOS, ou qualquer uma que ela seja) fiquem muito fragilizadas na esfera pública, quando são discutidas estas questões porque a discussão é atravessada por múltiplos campos.
Porque aumentou a diversidade de actores que reclamam para si uma legitimidade acerca de “eu também posso, eu também quero dizer o que é o Centro Histórico, o que é que é mau, eu também quero julgar” e, portanto, todo este conjunto de paradoxos pode dar duas orientações completamente opostas: ou cria um ruído de fundo imenso – a chamada tagarelice – e desse ruído de fundo não sai nada que consensualize uma determinada atitude; ou então, do meio desse conjunto de actores e de vozes, sobretudo se elas forem aceleradas pelos media (no fim de contas é ouvido quem mais berra, que é quem tem mais atenção dos media) isso pode dar fenómenos de quase ditadura. Isto é, de repente um grupo social, um grupo de interesses, um conjunto de actores que faz parte desse tal colectivo, toma a palavra e diz qual é a questão dominante acerca desse assunto.
A crise de legitimação do Património, pela diversidade dos actores, pelas diversidades das formas de legitimação, só se pode combater dando o conteúdo que o Património tem como construção cultural, que é o conteúdo político. Para ele ter um conteúdo político é preciso definir num colectivo, formas de discussão e isso só se faz, não sendo cidadãos passivos e assistindo a coisas, mas fazendo coisas e discutindo. (…)
ICOMOS – “Porto Património Mundial: boas práticas em reabilitação urbana

Diagnosticada a crise da Identidade, desta forma tão simples e esclarecida, é-nos fácil perceber a razão para que, por exemplo, os engenheiros do empreiteiro Lúcios (ou outros) apareçam a conferenciar por todo o lado na qualidade de peritos em reabilitação urbana. É coisa de génio!
Como se percebe tão bem agora, um grupo de actores (pouco dado a cultura e nada sensíveis) cheio de interesses e muito bem orquestrado, põe em marcha um plano ambicioso:
1. Parar tudo e todos aqueles que trabalhavam no Centro Histórico e o recuperavam, ainda que muito lentamente;
2. Nada fazer durante alguns anos, usufruindo da força incomensurável dos elementos, para que o Património (físico e humano) se degradasse acentuadamente;
3. Repetir desalmadamente torpes mentiras, até estas se tornarem verdade, questionando décadas de trabalho no terreno e a reputação de inúmeros técnicos experimentados;
4. Expor gratuitamente ao ridículo, o trabalho de entidades nacionais como o IPPAR e o ICOMOS, procurando com isso fragilizar o seu papel natural na defesa do Património Comum;
5. Apresentar a solução milagrosa sob a forma de uma “Sociedade de Reabilitação Urbana” isenta do sufrágio e fiscalização das populações e utentes do Centro Histórico, a partir da “estaca menos que zero”, abertamente ao serviço dos interesses particulares e imobiliários do grupo restrito;
6. Legitimar as estranhas opções de intervenção no território e as respectivas acções ditatoriais, com propaganda política e inexplicáveis “prémios nacionais”, organizados pelos media do grupo de interesses.

as pontes suspensas, por ssru

Inaugurámos uma escultura, da autoria do arquitecto Eduardo Souto Moura, evocativa da tragédia da Ponte das Barcas, nas comemorações dos 200 anos das Invasões Francesas, aquelas mesmas em que, entre outras coisas, fomos espoliados dos melhores tesouros artísticos da época.

Mais a Nascente continuam os preparativos para as obras de conservação da Ponte Maria Pia, promovidas pela Refer. O protocolo assinado em 2004 (?) entre o Governo, as autarquias e a Refer continua a aguardar melhores dias, devido a (…) Dificuldades de diferente natureza não permitiram que se chegasse a um acordo entre as três partes envolvidas sobre o estudo prévio apresentado (…). O seu futuro continua uma incógnita para o grande público, para os portuenses e gaienses, precisamente aqueles a quem se devem os esclarecimentos. Se a isto juntarmos a habitual desresponsabilização sobre o destino do património classificado do País, facilmente imaginamos onde iremos chegar.

Vista geral do Porto, a partir da Serra do Pilar - Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. in 'biblarte'

Vista geral do Porto, a partir da Serra do Pilar – Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. in ‘biblarte’

A Ponte Luiz I continua estoicamente a resistir a tudo, já quase lhe mudamos a face, o programa funcional, a carga que sobre ela assenta e alguns ainda a maltratam dizendo que é um mostrengo comparada com a Maria Pia. Mas a verdade é que nasceu de uma necessidade biológica de aproximar os dois povos das margens do Douro e tem-no conseguido da melhor forma possível ao longo destas décadas.

Em vagas, ouvimos falar em “ponte pedonal”, umas aqui e outras mais acolá, inspiradas por políticas e engenharias que não se inibem de gastar milhões dos bolsos de todos nós e cujo objectivo, traçado num Masterplan (ou seja, Plano Principal), é “(…) repercutir o turismo das caves sobre a margem portuense e ampliar a capacidade lúdica das duas margens do Douro. No documento, aponta-se, ainda, para o desenvolvimento de cais turísticos e a criação do comércio de qualidade elevada e de estabelecimentos de animação (…)”. Respirem, vocês leram bem! Desculpem, mas isto não conseguimos traduzir…

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Assim, no momento que o nosso primeiro inquérito atinge a bonita soma de 100 votos, consideramos oportuno lançar um segundo que ausculte a opinião de todos para a necessidade de uma travessia pedestre sobre o Douro e para o qual articulamos os seguintes parâmetros:

1 – as ribeiras não necessitam de uma travessia pedestre como forma de revitalização. Talvez o Parque da Cidade;

2 – a existir uma travessia pedestre sobre o Douro que seja pela Ponte Luiz I, aproveitando as extensões de espaço público de um e de outro lado que essa opção gera;

3 – uma travessia para peões sobre o Cais da Estiva (e o Café do Cais) e sobre a Praça Sandeman é um desvario idiota que desconsidera o valor patrimonial e paisagístico em causa;

4 – muito menos sentido faz quando os argumentos são para poupar 5 minutos ou 400 metros a uma caminhada que se deseja contempladora e prazenteira (os turistas é que sabem);

5 – se pensarmos nas condições de segurança para uma travessia tão longa (imaginem a proposta por Pedro Balonas!), na altura necessária, nas condições climatéricas, na manutenção de tal estrutura…

6 – as cidades ribeirinhas necessitam de uma travessia rodoviária à cota baixa que solucione o problema do trânsito local, onde também se encaixem os TIR que se deslocam para as caves de Gaia;

Se colocarmos a equação na plataforma da necessidade poderemos obter uma visão do problema muito diferente. Essa mesma plataforma poderá possuir graus diferentes de hierarquia nas justificações encontradas.

Mas se a uma insuficiente opção funcional adicionarmos uma má localização, a vaidade e a auto-satisfação de políticos oportunistas, medíocres  e desfasados dos valores patrimonial e histórico da Cidade (descentrando até das figuras dos dois presidentes de câmara), poderemos estar a dar de bandeja, lugar a mais um gigantesco crime contra o património do Porto/Gaia e da Humanidade.

Contamos com a vossa atenção habitual para podermos chegar a conclusões que formem opiniões saudáveis. Basta votarem na coluna lateral. Até lá ficamos em suspenso…

a obsessão pelo supérfluo, por ssru

Os prémios Secil de arquitectura e engenharia, têm merecido por parte dos Media uma exposição considerável, sobretudo devido ao prestígio angariado ao longo de quase duas décadas, pelos montantes em causa e pelas obras e renome da maior parte dos vencedores.

Para além destes, a Secil estimula a participação dos alunos finalistas dos cursos de arquitectura e engenharia a apresentarem os seus trabalhos a concurso.

Surpreendeu-nos, contudo, a exposição mediática que a ponte para peões recebeu, desenhada por um jovem aluno de engenharia para a ribeira do Douro, ligando as duas margens. Talvez mesmo por ser para aquele local.

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Antes de continuarmos façamos um desvio para um artigo de ontem, no Jornal de Notícias, dando conta da inauguração em Março de uma escultura evocativa da tragédia da Ponte das Barcas, no âmbito das comemorações dos 200 anos das invasões francesas.

(…)No processo de concepção, Souto Moura recorda que idealizou uma instalação “mais proeminente”, mas o desenho final é mais “resguardado” para salvaguardar a navegação no Douro. Uma das preocupações foi que a escultura não interferisse na paisagem.(…)

Tendo em mente o que acabamos de ler vamos continuar dizendo que já em 2006, também uma ponte pedestre pênsil ganhou este prémio e localizava-se junto à Ponte Luiz I, onde sobram as ruínas da anterior ponte pênsil.

Para além desta (e de tantas mais), uma outra também apresentada na mesma ocasião e da qual se dizia (…)A nova ponte nascerá a 500 metros da Ponte D.Luís I, à cota baixa e a jusante da Praça da Ribeira, no Porto, e da Praça Sandeman, na marginal de Gaia, num local onde o leito do rio se torna mais largo, atingindo os 250 metros de largura.(…) [em termos estéticos esta ponte, de Adão da Fonseca, é de longe a melhor!]

No estudo que o arquitecto Pedro Balonas apresentou e com o qual ganhou o Concurso de Ideias da Frente Ribeirinha percebemos que: (…) O plano, que foi atribuído ao arquitecto portuense Pedro Balonas, vencedor do concurso público internacional lançado para o efeito, prevê também duas pontes, uma pedonal entre a zona da Alfândega e o extremo oeste do Cais de Gaia, e a outra que sairá para Gaia frente à Rua de D. Pedro V. Ambas têm como função principal aliviar os centros históricos de Porto e Gaia da pressão do tráfego automóvel de atravessamento do Douro. “Estas novas pontes serão à cota baixa, mas terão que possibilitar o trânsito dos navios de grande porte que agora circulam no rio, pelo que serão alinhadas, em termos de altura, com o tabuleiro inferior da ponte de D. Luís”, disse.(…) aqui!

Um projecto de uma ponte para peões como aquele que ganhou o Prémio Secil Universidades 2008 e para o local indicado é simplesmente intolerável. Mesmo como exercício pedagógico deixa tudo a desejar uma vez que os pressupostos (expressos no texto que acompanha o desenho) se encontram mal fundamentados e de incompreensível aplicação à realidade. Por muito transparente (?) que esta ponte seja, localiza-se num conjunto paisagístico urbano que foi classificado como Património da Humanidade e em nada contribui, nem com a necessidade da sua existência, para o enriquecimento desse património. O que significa que, estando a mais, não faz falta.

Com algum risco enunciamos a nossa visão do problema e indicamos um caminho para a sua resolução. Com risco porque é tão fácil dizer disparates e acertar é sempre mais difícil.

Cremos que um dos principais problemas do Centro Histórico e do Porto, é sem dúvida o problema do trânsito e do excesso de automóveis numa cidade espartilhada e morfologicamente acidentada como esta.

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Muitas são as soluções para a cota alta, mas para a cota baixa existe apenas a tão velhinha ponte de ferro, cujo tabuleiro superior já mudou as suas funções. Acreditamos que está na hora do tabuleiro inferior da Ponte Luiz I passar a ser a nossa “ponte pedestre”. A circulação automóvel ficaria reduzida a veículos de emergência.

Só este facto revolucionaria toda a zona envolvente de um lado e do outro da actual ponte, acabando, finalmente, o conflito de trânsito existente do lado do Porto para entrar e sair do túnel da ribeira e para os lados de Gaia e Gondomar. As zonas para peões poderiam ser alargadas até à frente ribeirinha da Gustave Eiffel, uma vez que seria necessário apenas duas faixas de rodagem (vejam o passeio junto ao funicular, ridículo!), terminando com o entroncamento.

Em sua substituição necessitamos de uma nova ponte rodoviária à cota baixa, para que, com menos conflito e mais afastada do Centro Histórico, possa melhorar a circulação automóvel entre as duas margens. Assim, talvez fosse possível construir uma ponte de tal forma “esbelta e transparente” entre o cais da Alfândega e o estaleiro de construção de barcos rabelos no cais de Gaia, com cota suficiente para as actuais embarcações poderem passar.

Em alternativa às duas pontes à cota baixa (pedestre e rodoviária), previstas no último estudo aprovado de Pedro Balonas, julgamos ver resolvida a maioria dos problemas apenas com uma. Aliás, a localização de uma ponte rodoviária junto a Massarelos e a esta cota, nada resolve em relação ao CHP, como irá impedir a realização de saudosas regatas de navios veleiros que o Porto não vê há alguns anos, podendo chegar pelo menos até à Alfândega!

Estaríamos a transferir os problemas da Ponte Luiz I para aqui? Talvez. Mas temos habilitações e tecnologia para minimizar os estragos, mais do que em séculos anteriores.

Acreditamos que é em momentos de dificuldades que a racionalidade impõe que deixemos de lado equações supérfluas, diríamos até, delinquentes, mesmo que a tendência seja para que muitas cidades de Portugal já tenham a sua ‘ponte pedonal (?)’, o que lhes tem servido de pouco quando enumeramos a longa lista de verdadeiras carências básicas de que os cidadãos vão padecendo.

a evidente prova, por ssru

Uma manhã húmida e ventosa da passada semana surpreendeu-nos com este pequeno aparato, na Rua dos Caldeireiros. Resulta como o corolário do que dizíamos aqui, dois artigos atrás.

O mau tempo, a incúria e milhentas coisas mais, deram-nos o pretexto para escrever este artigo, que serve de prova documental do que afirmámos acontecer com demasiada frequência no Centro Histórico do Porto. É apenas mais uma evidência de que aquilo que cai dos céus não é só chuva…

Nós até percebemos os nossos dirigentes em relação a esta matéria, não é nenhum terramoto que está para acontecer. A verdade é que nem foram eles que andaram a degradar os edifícios para agora lhes imputarmos qualquer tipo de culpa. Percebemos que não queiram provocar o pânico admitindo que de facto chovem parapeitos e caixilhos de alumínio, que entre outras coisas iria fazer aumentar os pedidos de indemnização. Vemos escrito por outras palavras que também “não querem espantar a caça” e dispersar os investimentos que possam surgir. Mas, é só isso que se pode fazer?

Já temos aqui nos vizinhos desta rua, os exemplos daquilo que se tem passado, prevendo-se um futuro tão ‘risonho’ como aquele que chegou à Rua do Clube Fluvial Portuense. Sem história e sem glória!

Para quem ainda não percebeu onde queremos chegar, bastará fazer um exercício relativamente simples: deve voltar a este local – Rua dos Caldeireiros – daqui a 6 meses e tirar uma fotografia. Guardá-la. Em seguida voltar passados 12 meses e depois dois anos, registando os momentos. Nessa altura, provavelmente uma luz brilhará e verá desvendado o segredo: “o porquê do estado em que o CHP se encontra”.

Desejamos imenso estar errados!!!

os pormenores que contam #2, por ssru

Este artigo é destinado às fachadas dos edifícios e aos adereços e adornos que aí encontramos, maior parte das vezes sem darmos conta à primeira vista.

Também não é por acaso que escolhemos a Rua das Flores, porque se a memória colectiva não for muito curta, certamente alguns se recordarão da vida que este rua possuía, das suas joalharias e ourivesarias, das suas casas de fazendas e confecções, dos seus palacetes e casas nobres. Lembramos de cá vir comprar as meias e as camisolas interiores mais baratas que noutro lado, as nossas alianças de casamento, as colchas das camas, etc…

Quem ama esta cidade e este Centro Histórico é capaz de sentir um nó na garganta quando percorre a Rua das Flores, de tão maltratada que está: a maioria dos edifícios perdeu a entrada das habitações; agora a maioria encontra-se devoluta com a perda de negócios dos comerciantes; a ‘modernice’ dos revestimentos sobretudo do rés-do-chão, quer sejam licenciados ou não; o automóvel (como em todo o lado) a tomar conta do espaço público de uma forma implacável; o pavimento que não é substituído ou reparado há quatro décadas…

O primeiro exemplo revela-nos um dos poucos comerciantes de ourivesaria que ainda resiste, sobrevivendo até um dia. Na sua fachada possui um candeeiro “a atirar para o rústico”. O segundo já foi uma importante casa comercial e embora ocupado, evidencia grande desgaste e degradação. Esta fachada é simples e de bom gosto e no cunhal tem pequenas montras (que já não abrem por causa da ferrugem).

Estes dois edifícios encontram-se praticamente em frente um do outro. Ambos em bom estado de conservação, profusamente decorados com vasos de flores. O primeiro carrega o simbolismo religioso num nicho e pouco mais. O segundo tem holofotes, candeeiros rústicos, vasos pendurados nas grades das janelas e… encimado por uma gigantesca parabólica.

Estes exemplos são bem comuns. Os andares superiores quase vazios, muitos sem entrada, à espera que o negócio feche. Mas enquanto isso não acontece, o primeiro pintou todo o rés-do-chão a vermelho e dourado ‘bombeiro’ e de tal forma entusiasmado, pintou ainda a parte inferior da varanda em granito [espectáculo]. O segundo tem tantos holofotes (?) e está tão fechado e vazio. Estas coisas serão licenciáveis.

Este primeiro prédio cujo espaço comercial entretanto fechou (?!) em vez de vasos tem um aparelho de ar condicionado na varanda. É um daqueles casos que bem podia emparcelar com o vizinho do lado uma vez que é estreito, já perdeu o acesso aos pisos superiores, e o seu vizinho do lado direito é em tudo simétrico, como um bom exemplar do século XIX deve ser. No entanto, no projecto de Documento Estratégico da Porto Vivo isso é ignorado, obrigando antes o vizinho a juntar-se ao prédio do seu lado direito, com o qual nada mais tem que o ligue. Quem será o cérebro por detrás de uma decisão destas. O segundo caso, em frente do anterior, exibe o tão famoso estendal carregado de roupinha e ao lado, a não menos famosa, parabólica da TVcabo.

Este exemplar é bastante interessante, isto é, falta pintar as paredes, esmaltar os restantes caixilhos com madeira à vista, tirar aqueles vasinhos ‘ao dependuro’ que só ficam mal e por fim retirar aquele reclame ignóbil, junto com os holofotes e tudo. O último caso é uma pérola que guardamos para vocês todos que nos lêem. Se souberem explicar o que se passa com a fachada deste edifício, nós agradecemos antecipadamente.

os pormenores que contam #01, por ssru

Numa alegoria cinematográfica a filmes ‘western’ apresentamos alguns pequenos pormenores, cujo impacte numa edificação é deveras intenso e que poucas pessoas parecem dar importância.

Sabemos que a Câmara Municipal do Porto deixou de ter uma fiscalização digna desse nome, quanto mais uma que seja sensível a este tipo de assunto e da parte da Porto Vivo, a ter em conta alguns exemplos já anteriormente referidos, nada se poderá esperar de alguns dos técnicos desenquadrados da realidade local e de outros que tinham a responsabilidade de saber fazer (porque transitaram do CRUARB) mas que continuam a cometer os mesmos erros, com a agravante de ambos possuírem um problema de degradação cada vez maior… uma verdadeira ‘cowboiada’.

Assim, vejamos estas caixilharias:

O BOM

 O n.º 49 da Rua da Reboleira é um excelente exemplo de uma primorosa reabilitação, do cuidado depositado em cada pormenor. É o caso desta porta de entrada, de tom escuro como é tradicional. Nos andares superiores optou-se por manter a mesma cor, algo que talvez pudesse ter sido mudado para cores mais claras ou o branco nos painéis que abrem e o aro escuro.

O MAU

Por contraste com o anterior, ao n.º 19 da mesma rua não lhe bastava as obras terem sido feitas ilegalmente, mas também tinham que ser deste calibre indescritível… quase sem palavras, sufocante! Isto é Património da Humanidade?!

O FEIO

A qualidade dos caixilhos dos pisos superiores (tirando um descontrolo no desenho da bandeira) não foi suficiente para se reflectir na entrada do nº 73 da Rua do Infante D. Henrique, que merecia um melhor desenho de porta, ainda piorado porque foi envernizada, com ‘madeira à vista’, quando deveria ser esmaltada com cor escura.

E O VILÃO

Este edifício da Rua do Infante D. Henrique, onde estava a Lusitânia Seguros, foi um dos primeiros do Quarteirão do Infante a ser licenciado pela SRU. Assim de longe ele “até está bestial”, mas ao perto podemos dizer que – não falando das lajes em betão, daquele último piso com um revestimento a ‘imitar’ chapa enferrujada mas que é mesmo cimento ondulado pintado e da reposição dos vãos do rés-do-chão em placagem com aresta cortada a 45 graus a imitar uma moldura tradicional de granito (?) – aqueles caixilhos têm todos um ‘postiguinho’ em cada folha, o que lhe dá um ar de aldrabão. Podemos compreender o ‘para quê’, não percebemos o ‘porquê’?

Quando todos falham – até o IPPAR – podemos contar com quem?

É que a proporção, na realidade, é muito maior do que 3 para 1…!!!