o direito da antena, por ssru

O ano de 2014 ainda demorava a estar terminado (pelo menos mais dois meses) e, dos edifícios que a CESAP ocupa no Largo de São Domingos e na Rua de Mouzinho da Silveira, brotam umas antenas de telecomunicações.

Sejamos francos para reconhecer que não percebemos nada do assunto. Nada sabemos de “Infra-estruturas de Suporte de Estação de Radiocomunicação – Light BTS” ou quaisquer outras, “bases UMTS”, “descodificadores de sinal RRH’s”, armários técnicos e afins, nem mesmo qual a legislação de apoio para a instalação de tais equipamentos. O certo é que não sabendo, o melhor é procurar sabedoria, quer lendo sobre o assunto ou perguntando a quem sabe. Como imaginam, o resultado final não é muito animador e está à vista.

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A verdade é que a CESAP, ainda que desempenhando um papel importante como instituição residente no CHP, volta-e-meia tem sido capaz de nos decepcionar fortemente, pondo em causa a nossa empatia, numa relação amor/ódio. Aparte as estranhas obras que tem vindo a efectuar nos seus edifícios sem a necessária licença, que resultam em anormalidades como este esquisito longo terraço sobre o edifício para a Rua de Mouzinho da Silveira, onde deveria estar uma cobertura tradicional em telha, em vez disso, dizíamos, presenteia a cidade e o Património da Humanidade com umas incompreensíveis antenas. Sabemos que é difícil gerir uma instituição como esta e em tempos de crise, em que os alunos acabam por desistir dos cursos por falta de dinheiro para as propinas, ainda é mais penoso, mas venderem os princípios por uns trinta dinheiros que a VODAFONE paga de renda daquele espaço, contradiz até aquilo que apregoam como o ensino da arquitectura.

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Ao longo dos anos tem sido feito um esforço hercúleo por parte de alguns interessados para que o Centro Histórico se possa livrar dos aparelhos que pululam por todo o lado e para resistir à pressão que os operadores exercem – lembram-se dos cogumelos parabólicos que a TVCABO andou a espalhar há uns anos atrás! Daí que este caso inopinado ainda se perceba menos!

Até pode ser que existam mais antenas de radiocomunicação instaladas no CHP mas nós só nos lembramos da existência de duas ou três, cuja presença mais evidente nos incomoda: é o caso do mamarracho da Rua da Vitória, do estandarte do monte da Rua Chã, ou ainda do mastodonte no topo de um hotel na Batalha. A estes juntam-se agora os pirolitos da CESAP, o que nos leva a temer pelo futuro.

O futuro não nos sorri e a culpa não é nossa, pois a história, como de costume, tem contornos cabeludos: O Grupo Eurico Ferreira SA, em representação da VODAFONE inicia em 2011 um processo de autorização de instalação de uma Infra-estrutura de Suporte de Estação de Radiocomunicação; tanto insistiu que consegui convencer os técnicos da CMP e da DRCN com uma fotomontagem manhosa, onde pretenderam mostrar o reduzido impacte dos pirolitos; Ansiosos por se livrarem do assunto, aqueles técnicos aprovaram o processo sem nunca questionar da pertinência da existência de tais bicharocos ou sem a coragem necessária para aplicarem a legislação, nomeadamente aquela alínea do artigo que diz O pedido de autorização é indeferido quando: c) O justifiquem razões objectivas e fundamentadas relacionadas com a protecção do ambiente, do património cultural e da paisagem urbana ou rural.” (o sublinhado é nosso, claro)

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Coisa que para nós é bastante evidente, pois a classificação como Monumento Nacional é razão perfeitamente objectiva e fundamentada. Mas… e aqui é que está o tremor, se analisarem a fotomontagem e a compararem com a realidade podem até pensar que os técnicos licenciadores foram enganados. Trata-se de facto de uma aldrabice que sempre se soube que teria este desfecho. E provavelmente devem todos ter algum proveito nisso, pensaríamos nós, caso não fossemos uns meninos bem-comportados.

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fotomontagem que a VODAFONE apresentou na CMP e que foi aprovada pelos serviços técnicos

o resgate urbano, por ssru

A proposta que agora vos colocamos, para além das sábias palavras de Carlos Romão, pretende alcançar a percepção do fim da orfandade dos portuenses em relação à sua cidade. Com a concretização deste projecto de Álvaro Siza, mais do que resgatar a Cividade com a costura urbana deste território fracturado, coloca-se a possibilidade de um autarca poder ficar para a história desta Cidade por um feito tão grandioso, quanto simples e lógico.

Mais do que resgatar o lugar, podemos reivindicar o espírito portuense dando aos seus cidadãos um edifício onde estes se revejam e se projectem, onde aprenderão a conhecer todos os cantos e histórias, a fazer sua a família portuense, a cuidar da arquitectura do Porto através dos séculos, a preservar os restos de eras passadas que nos sedimentam o orgulho no presente.

Com este projecto de Álvaro Siza e do edifício do Museu da Cidade do Porto poderemos um dia voltar a falar de Património, Identidade e Memória.

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 Álvaro Siza, Obras e Projectos – Requalificação da Avenida de D. Afonso Henriques – Carlos Romão, 25 de Novembro de 2014.

Foi em 1948 que se procedeu à demolição de uma parte importante do centro histórico do Porto para abrir uma ligação que permitisse a circulação rápida de automóveis entre a Praça de Almeida Garrett e a Ponte Luís I. Desapareceu assim o morro da Cividade e com ele os vestígios medievais do Corpo da Guarda. No seu lugar ficou, até aos nossos dias, um enorme rasgão a separar o casario da Sé das velhas casas que subsistem nas ruas do Loureiro, Chã, Cativo e na de Cimo de Vila, o caminho que conduzia a uma das portas da antiga muralha medieval. Houve dezenas de planos para suturar a ferida aberta mas, por incapacidade da cidade, nenhum foi executado. Neste filme, de 2001, Álvaro Siza Vieira apresenta o seu segundo projecto – o primeiro é de 1968 – para a Avenida de Afonso Henriques. Através dele percebemos melhor a perda patrimonial e a necessidade de recompor a morfologia daquela parte da cidade.

 Ouvimos dizer que não há dinheiro para nada e que tal projecto não só é de difícil realização como dispendioso. Na verdade, ainda nos dias de hoje, se percorrerem as notícias diárias, com ligeireza perceberão que para o vergonhoso eixo Mouzinho/Flores houve oito milhões, para as “renovadas” obras na Foz são mais uns quantos milhões, para a miserável Avenida da Boavista outros quanto terão sido gastos, para a incompreensível marginal até ao Freixo mais uns não sabemos o quê, etc., um interminável desperdício de meios. Não falta onde poupar, como por exemplo, na suposta instalação escultórica no início da Avenida e no “projecto lazer” que pretende “devolver uma praça à cidade” [qual?]. Tudo isto que, de certeza, deve estar a  custar um rico dinheirinho…

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os donos da rua, por ssru

As imagens que ilustram este artigo não são de há trinta anos atrás. Mas parecem! Há muito que não víamos as ruas da cidade assim cheias de vida, a remeter para a nossa infância e juventude. Tudo indica que a tradição ainda tem espaço e tempo para ser o que era.

Não sabemos se foram estas imagens que os eurocratas viram e que os deixou tão desvairados, a ponto de virem bater num Governo tão bom aluno, que até parece farsa daqueles tipos do faz-de-conta a querer fazer de conta que o próximo ano não é ano de eleições… Dizem eles:

“Com o novo aumento em 2014 [para €505], as perspectivas de transição para o emprego dos mais vulneráveis pode deteriorar-se numa altura em que o desemprego é ainda elevado, possivelmente agravando a já existente segmentação entre quem tem trabalho e quem não tem”

Com 505€ de remuneração, os índices de dignidade humana estão tão vulneráveis que as perspectivas para 2015 serão de uma maior clivagem entre ricos e pobres, independentemente de estes terem emprego ou não. O que continua a baralhar toda a gente é o facto da maioria dos smartphones topo de gama estarem com lista de espera para serem adquiridos. E quem diz isto diz outras coisas de topo!

Mas voltemos ao que interessa, a Baixa do Porto está animada, a fazer lembrar dias antigos. Já só faltam os milhares de habitantes que desapareceram, segundo as estatísticas dos dois últimos Censos, aí uns 25 a 30 mil. Isso é que era bonito de se ver!

donos-010nota a 31 de dezembro de 2014: ficamos muto felizes por termos inspirado a equipa camarária a desenvolver toda uma notícia para o portal Porto[.]Ponto (não, não é o blogue do David Pontes, apenas tem o mesmo nome).

o porto global, por ssru

O Centro Histórico do Porto é Património da Humanidade há 18 Anos!

Há muito que aderimos à moda da Globalização e a cidade vive, à semelhança do resto do Mundo globalizado, todos os seus fenómenos tangíveis, como é o caso da “Gentrificação”. No Centro Histórico do Porto deu-se o êxodo progressivo e inexorável dos seus habitantes para paulatinamente darem agora lugar a novos costumes e renovados usuários. Os problemas mais básicos de quem cá fica manter-se-ão.

Hoje acordamos com os nossos vizinhos a partirem para a periferia e constatamos que a cidade se transforma num castelo de “tasquedos” e “hosteles”, tal como nos anos 80 despertamos para o andar de baixo transformado em escritório e nos anos 90 vimos fechar o último cinema num demasiado “shopping”. Os antigos comerciantes são despejados e postos na rua com uma bagatela por indeminização, os prédios degradados são agora como nunca antes, viáveis à reabilitação patrimonial e os novos negócios abrem e fecham à velocidade da luz, porque são descartáveis como todos nós.

o porto do mundo, por ssru

O Centro Histórico do Porto é Património da Humanidade há 18 Anos!

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o morro da vitória | rui henriques

A cidade do Porto desenvolve-se sobre as colinas que dominam o estuário do rio Douro e forma uma paisagem urbana construída numa história já milenar em que a diversidade da arquitectura civil e religiosa testemunha o percurso de um Centro Histórico que remonta às épocas Romana, Medieval, Renascentista, Barroca e Neoclássica.

Construído sobre terrenos acidentados numa feliz articulação do traçado orgânico de arruamentos e casario com o rio referencial, o Centro Histórico adquire um valor panorâmico singular, reforçado na profusão de monumentos como a Sé Patriarcal, a Igreja de Santa Clara ou o edifício da Bolsa.

Classificado como Património Mundial desde 1996, o Centro Histórico do Porto encerra uma riqueza monumental e paisagística e capta a diversidade de soluções de concepção urbana das cidades da Europa Ocidental e Atlântico-Mediterrâneas da época medieval aos inícios da modernidade. (DGPC)

a bataria da vitória

a bataria da vitória | ssru

Esta é a breve descrição que consta do relatório da comissão que aprovou a inscrição do Centro Histórico do Porto na Lista de Sítios Património da Humanidade da UNESCO. Mas como vocês sabem, este lugar consegue ser muito mais do que isto. Esta é a nossa casa, estas são as nossas ruas e estes são os nossos bairros, este é o nosso porto do mundo.

Pedimos a colaboração de todos aqueles que quisessem enviar-nos o que sentem sobre o CHP, para assinalar a passagem do 18º ano da inclusão deste núcleo histórico no restrito grupo de Bens Comuns do Mundo. O que aqui vem é o reflexo daquilo que também nós sentimos. Um desperdício quase total, um desinteresse generalizado dos portuenses para os valores patrimoniais da sua própria cidade!

I

histéricos assentes no centro histórico, pânico por tudo o que supostamente crie emprego, forçosamente bom se criar emprego, ainda melhor se criar emprego! “bora lá criar emprego?”

II

fachadas ao alto e fé em deus, encham-me aí duas dúzias de quarteirões de betão armado, “olhá jessica fresquiiiiiiiiiiiinha”, é pra hoje, é pra hoje ó freguesa, anda hoje à roda o crime das cardosas

III

a imagem, oh a imagem: tudo pela imagem, nada contra a imagem para a economia deles, mesmo que ainda e sempre mau para a economia destes,

a sopa dos pobres servida na rua claro é um fenómeno do lusco-fusco porque é melhor para a imagem

IV

tragédia da rua das flores, street-artists flores na lapela, reciclagem para função pública, artes decorativas oh yeah, mais vale uma parede bem pintada que um edifício bem reconstruído

V

mui nobre e sempre leal, cidadania e boas famílias, independente dos dependentes, criticar é que era bom,” então e a imagem, filho? “…então e a imagem da cidade? Olha que isso não é bom para a imagem da cidade, temos que dar uma boa imagem da cidade! troika ou turistas começa tudo por tê e vai tudo dar ao mesmo no que à imagem diz respeito

VI

auto – prémios, selfie – galardões e água benta, cada um pega os que quer, cardosas crime com galardão imobiliário, ponto

VII

os rankings e o rancor, país do melhor povo do mundo, cidade do melhor centro histórico, melhor arquitectura, melhores arquitectos, melhor faculdade, melhor emigração forçada, melhor desperdício de recursos, melhor fuga de arquitectos afinal, tão bons que nem aguentámos ser tão bons, melhor desperdício de tempo, melhor desperdício de presente, de futuro, de dinheiro, eu sei lá, é tudo tão bom

VIII

reabilita low-cost filho, reabilita, olha que nem sempre arranjas mão-de-obra de graça, materiais à borla e terreno a custo zero

IX

bicicletas de montra, na montra e às portas da montra das lojas atraem turistas -tipo-gourmet

impossível andar em duas rodas nesta montanha russa que é o porto, diz a vox-populi em cada eleição ,”mas só se não fores turista”, eles conseguem sempre, vá lá saber-se como nós é que não

X

“Touristic buses don´t fit in the narrow streets of the historical center”, objectivo de vida será ter tudo e ao mesmo tempo: barcos cruzeiro, sightseeing buses, os hotéis, o disney colonial park. O jogo do Monopoly a cores e ao vivo! Esperaste tu duas horas pelo 703 da STCP agora vendida a alguém, enquanto passaram 10 sightseeing buses e desesperado entraste num: “era prá areosa fáxabor!” “ excuse-me, but areosa´s not in tha histerical center. Please, mister, must gett off this bus!” E foste para casa a praguejar á moda do porto em cada vírgula.

XI

contas feitas, casa desarrumada, praça da batalha à moda do porto, menos dois cinemas, mais quatro hotéis dá quase conta certa: para já está 4:2, muito hotel para pouca uva

cada quatro hotéis, cada posto de trabalho low cost, contratos para quê? direitos são maus para a economia, e , oh, precisamos tanto de novos-bancos, esquece essa merda.

XII

centro histórico do porto em geral, cidade do porto em particular, sem ponto: reabilitem-no porra! e electrifique-se as escadas da lello, instale-se elevadores na torre dos clérigos.” Então esse nasoni, tão bom arquitecto e não pensa nestas coisas?” do turismo e assim? olhá imagem, pá!

Pedro Figueiredo, arquitecto

rua da fonte taurina | anónimo

Continuamos receptivos aos vossos contributos, esperando contar com os sentimentos (sejam eles quais forem) de todos vocês sobre o CHP, todos nós portanto, mas de uma forma muito simples. Pedimos a todos que enviem uma palavra, frase, poema, discurso (?), fotografia, vídeo, música, desenho, etc., o que acharem bem.

telmo quadros | https://incartoons.wordpress.com/

clérigos | telmo quadros, https://incartoons.wordpress.com/

os deficientes cívicos, por ssru

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Ao longo destes artigos temos vindo a falar-vos, por diversas vezes, sobre a necessidade de mudança de comportamentos, dos pequenos gestos que possam gerar uma maior sinergia cívica, que sirvam de modelo para que outros indivíduos (mais distraídos) se sintam impelidos a imitar, promovendo assim um mundo melhor, uma comunidade mais justa e feliz. Há muito que vos falamos da nossa querida 9ª Esquadra da PSP do Porto, o quanto gostamos daquele cantinho, da proximidade que nos transmite segurança, da facilidade em lá chegar, da forma como sempre fomos bem tratados quando preciso, enfim, é a esquadra do nosso bairro e pronto. Já a vimos degradada e suja, com xixi pelos cantos, mal-amanhada na outra esquina de cima, assim-assim na de baixo e agora está mais bonita, finalmente, depois das obras de reparação do pavimento que lhe faz de cobertura e que estancaram as infiltrações que a desfeavam, transformada que está numa esquadra do século XXI. A Esquadra do Infante, o peso que este nome tem!

No entanto, há pelo menos uma década que registamos que o estacionamento das viaturas de serviço é feito de qualquer maneira, ostensivamente sobre as passadeiras ou sobre os passeios. Isto sem que se perceba que estejam em emergência, como por vezes alguns agentes correm a justificar (o injustificável) querendo atenuar o mal causado. E ele é bastante…

No mês de Agosto, por exemplo, verificou-se uma enchente de turistas na cidade, quer estrangeiros ou nacionais e mesmo assim não houve hora do dia – manhã, almoço, tarde ou noite – em que não se registasse em fotografia o que acabamos de afirmar. A nossa inquietude atingiu um ponto tal que estivemos quase a bater à porta do chefe da esquadra (que conhecemos bem) a pedir-lhe que fizesse algo que alterasse a situação. Só este mau aspecto causado perante os nossos visitantes é motivo suficiente para que alguma coisa se mude. Impossível será não acrescentarmos mencionando os nossos concidadãos com mobilidade reduzida ou pormos de parte o facto de estarmos a falar de uma força policial que deveria zelar pelo bem-estar e segurança pública! Mas que raio!

Vivemos na angústia de parecer que este assunto apenas nos aflige a nós os quatro e que, no limite, apenas conseguimos arrancar um gracejo. Exprimimos o queixume aos nossos amigos, tentando juntos encontrar uma solução viável, quando as reacções foram do tipo: “…também o que é que vocês queriam…, que eles se multassem a eles próprios?” Afinal ninguém se interessa. Afinal poderá não existir uma luz ao fundo do túnel.

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Resta-nos apelar ao Senhor Comandante Francisco Bagina, do Comando Metropolitano do Porto (cujo mandato tem sido irrepreensível), para que possa falar com os seus agentes e sensibilizá-los para uma mudança de atitude que não dói nada. Se for necessário que institua uma espécie de multa a favor da comunidade e que crie um curso de formação cívica para melhorar o comportamento dos senhores polícias, que tão gravosamente desrespeitam o cidadão que devem proteger. Mas não um curso como aqueles para onde os tribunais portugueses enviam os senhores condutores embriagados ou demasiado apressados, pois esses são uma desgraça nacional. Uma coisa à séria, que envolva toda a comunidade.

Divididos entre o orgulho nas nossas forças de segurança e a vergonha destas deficiências cívicas, aqui nos prostramos…

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o branqueamento irreversível, por ssru

vista aérea do porto dos anos trinta do século xx, anterior ás grandes destruições @ foto beleza

vista aérea do porto nos anos trinta do século xx, anterior ás grandes destruições @ foto beleza

Afinal, onde é que nós íamos? Ah, aqui está, repescada do baú, uma crónica de Hélder Pacheco publicada pelo JN há cerca de dois anos atrás, da qual queremos apenas reter o conteúdo pois não estamos nada interessados que fiquem a pensar que temos algo contra a pessoa. Na imagem abaixo encontram todo o texto mas o extracto que fazemos é suficiente para perceberem a importância da distância que os cronistas da história da cidade devem manter entre a escrita e o estômago [aviso: alteramos a apresentação gráfica da crónica de uma para três colunas por se adequar melhor à imagem deste blog, mas não mexemos no texto! Ele é todo original]:

“E avançou agora com a inauguração da Praça das Cardosas, cereja no coração do bolo desta reabilitação exemplar daquele quarteirão, cuja audácia exige coragem e perseverança, como a cidade há muito não via. Talvez desde João de Almada, quando a Praça da Ribeira, a Rua de S. João e S. Domingos foram rasgadas. Desde que Pinto Bessa avançou com Mouzinho da Silveira e a Rua Nova da Alfândega. Desde que a Câmara da “Lista da Cidade” lançou as bases da 1ª República e concretizou a Avenida Central que o Porto não assistia ao aparecimento de obra tão essencial ao seu Renascimento, tão susceptível de promover dinâmicas sociais e comerciais que transformem a Reabilitação da Urbe de aspiração em imperativo.”

Hélder Pacheco tem razão quando diz que esta é uma obra irreversível, para vergonha de todos os portugueses, quiçá da Humanidade. Atrevemo-nos até a afirmar que Rui Rio e a sua gestão autárquica representarão, no contar da história deste Povo, uma catástrofe com verosimilhanças próximas das provocadas pelas tropas de Napoleão quando as Invasões Francesas atingiram o Porto e Soult, Duque da Dalmácia, incendiou e varreu a cidade para a morte nas barcas, há pouco mais de 200 anos. Qualquer dia ainda ouvimos alguém dizer que no tempo de Salazar é que era bom! [ironia]

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O “poder instituído” procurará sempre, tal como no passado, uma forma de branquear as suas actuações. Assim, nada melhor do que inventar um “Prémio Nacional de Reabilitação Urbana” para credibilizar os recentes “tsunamis”, premiando as intervenções catastróficas que dizimam os Centros Históricos classificados, que no caso do Porto se encontra inscrito na “Lista do Património da Humanidade”. Bastará olhar para a lista dos premiados para perceber quantos daqueles se podem considerar verdadeiras reabilitações patrimoniais, tal como as convenções internacionais, que Portugal assinou, assim o reconhecem. Reparem como os autores desta escandalosa intervenção nas Cardosas, foram duplamente premiados com o excelente trabalho [ironia] desenvolvido no Mercado do Bom Sucesso, quer ao nível patrimonial, cultural, social ou económico. Significa isto que quem está errado somos nós, que não percebemos o “irreversível Renascimento do Porto”.

Sabemos que esta turba de medíocres que decide as nossas vidas, é preguiçosa e nem sequer se dá ao trabalho de investigar seja lá o que for, mas bastará levantarem os olhos e verem estes dois exemplos, lado a lado, no mesmo Quarteirão Prioritário:

– do vosso lado direito um trabalho realizado por uma equipa de jovens e dedicados arquitectos que, relendo o edifício do século XIX e mantendo ao máximo a sua autenticidade, souberam proteger o investimento do cliente particular;

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– do vosso lado esquerdo uma pseudo-reabilitação com traços artísticos indeterminados, projectado por uma “velha” equipa do sistema, após uma destruição quase total dos edifícios existentes (com pormenores de limitada inteligência como fazer um túnel que desemboca contra um muro de granito) e que reinterpreta de uma forma mordaz os cheios e os vazios, as varandas, os elementos estéticos, etc. fruto de um investimento apenas comparável à profundidade do parque de estacionamento cavado no interior do quarteirão – ou seja, Fundo e pago por todos nós.

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Nada justifica tal opção de ignorância tamanha, mas ainda assim seria possível encontrar alguns argumentos caso a destruição que aqui teve lugar, resultasse num edifício singular como a Estação de S. Bento ou a Casa da Música. Mas não, é irreversível! Agora, restam-vos apenas os nossos “perdigotos da maledicência”.