o porto global, por ssru

O Centro Histórico do Porto é Património da Humanidade há 18 Anos!

Há muito que aderimos à moda da Globalização e a cidade vive, à semelhança do resto do Mundo globalizado, todos os seus fenómenos tangíveis, como é o caso da “Gentrificação”. No Centro Histórico do Porto deu-se o êxodo progressivo e inexorável dos seus habitantes para paulatinamente darem agora lugar a novos costumes e renovados usuários. Os problemas mais básicos de quem cá fica manter-se-ão.

Hoje acordamos com os nossos vizinhos a partirem para a periferia e constatamos que a cidade se transforma num castelo de “tasquedos” e “hosteles”, tal como nos anos 80 despertamos para o andar de baixo transformado em escritório e nos anos 90 vimos fechar o último cinema num demasiado “shopping”. Os antigos comerciantes são despejados e postos na rua com uma bagatela por indeminização, os prédios degradados são agora como nunca antes, viáveis à reabilitação patrimonial e os novos negócios abrem e fecham à velocidade da luz, porque são descartáveis como todos nós.

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o vale do tua, por ssru

O Porto não seria a melhor cidade do turismo europeu 2013 se não tivesse o Douro. Tudo o que se passa no rio e na região devia ser também responsabilidade da segunda cidade/região do país. E é por isso que a sentença de morte final da UNESCO, indiferente à destruição extrema praticada pela EDP sobre o rio Tua (a par do que está a suceder no rio Sabor), é um momento histórico no pior sentido. Representa a falência acéfala dos autarcas do Douro e do Norte, mas também dos burocratas políticos que na Comissão de Coordenação da Região Norte calaram e assinaram de cruz o que convinha ao governo da ocasião.(…)

Esta decisão é ainda reflexo do que representa o novo turismo do Douro – um turismo de cruzeiro, de passeata, premiadíssimo – mas à custa dos durienses ‘índios da Amazónia’: cuidem da paisagem a custo zero, para nós brindarmos com champanhe e baile à passagem do navio… Fica zero no Douro. Zero. É turismo canibal. E como os barcos não sobem o Tua ou o Sabor, é-lhes indiferente. Só que um património da humanidade é mais do que subir o rio. É uma memória, é um conjunto de factores que são assim há séculos e séculos. (…)

Em todo este processo das barragens houve a corajosa luta de algumas associações ambientalistas. E ouviu-se uma voz empresarial dissonante: a família Symington, líder mundial do vinho do Porto. Numa carta à UNESCO, Paul Symington alertou para as consequências ambientais da criação de dois lençóis de água no Tua e Sabor, que porão em causa o ambiente climático ancestral da região, e para o seu impacto nas vinhas. E afirmaram: “Qualquer projeto que danifique esta paisagem única irá comprometer o futuro de todos os envolvidos na produção de vinho e no trabalho associado à região”.

Há uma razão para isto: os Symington estão no Douro há mais de um século, vivem daquele delicado ecossistema. Vão lá continuar mesmo depois das infinitas autárquicas e seus caciques, dos Mexias presentes e futuros, de governos monárquicos, ditatoriais ou democráticos. É gente como eles que vai sofrer com a ganância e a destruição irreversível. Com decisões tomadas em gabinetes políticos ou financeiros por gente ‘fashion’, de plástico, rodeada de ar condicionado e alcatifas fofas. Um dia, isto explode nas ruas (como na Turquia ou no Brasil).

Daniel Deusdado, in “Porto/Douro – crime com nomes“, Opinião JN, 20 de junho de 2013

o manto negro, por ssru

O País vai ardendo aos poucos, infelizmente. Já não é só o Centro Histórico do Porto. O manto de cinzas não cobre apenas este Património da Humanidade, esta paisagem urbana sem igual, mas enche de negro outros Patrimónios Mundiais, outras naturezas de beleza desconcertante como o Parque Nacional da Peneda-Gerês, o nosso pulmão eleito de beleza ímpar, assim tão perdido e descontrolado, reduzido a nadas.

Homens grandes em lágrimas infantis, a soluçar nas mãos vazias o trabalho de uma vida; mulheres que gritam desvairadas, com ganas de raiva, a apontarem a mangueira do jardim para o inferno desigual, que lhes lavra atrás das casas; bombeiros e bombeiras empoleirados numa corda bamba, aguardando as ordens de “comandantes” que desconhecem e que os mandam para uma frente de guerra, apenas protegidos pela causa que abraçam, que os mata por vezes; aviões e helicópteros que sobrevoam as chamas mesmo ali, ao alcance das câmaras das televisões e que nos custam a todos muitos centos de euro à hora.

E ao fim do sétimo dia, poucos se perguntavam por que razão o Parque ainda estava a arder. Mesmo rasteirinho o fogo desbastava as encostas outrora verdes de encantar, cheias de vida. Tanto que se perde assim de repente, de uns dias para as noites… E o povo que acorre e corre em seu próprio auxílio, muitas vezes já não conta com mais ninguém. Os turistas mudam de paragens. Os emigrantes voltam para o segundo País. Os que ficam nem fazem contas ao prejuízo e recolhem os “trapos” para os erguer de novo. Os bombeiros voltam exaustos ao quartel à procura de um colo para repousar. E os políticos farão mais um discurso, mostrando que se preocupam e o quanto lhes custou interromperem as férias para poderem estar ali em frente às câmaras de televisão, inúteis…

Vodpod videos no longer available.

E quando julgávamos que tudo estaria perdido, que ninguém se daria ao incómodo de colocar o problema no seu devido lugar fazendo as perguntas certas, eis que o Jornal Público publica hoje um trabalho que merece todo o nosso respeito. E ainda têm tempo para fazer, não uma mas vinte perguntas, das quais salientamos as seguintes:

Quem manda no combate aos fogos? Em 2006, na sequência da nova lei de bases da Protecção Civil, foi criado o Sistema Integrado de Operações de Protecção e Socorro, que define as regras de articulação entre as várias entidades ligadas a esta área no teatro das operações. Introduziu-se assim a filosofia do comando único, que salvaguarda, contudo, a dependência hierárquica de cada organismo. Na Autoridade Nacional de Protecção Civil está o Comando Nacional de Operações de Socorro (o CNOS possui um comandante nacional, um segundo comandante e três adjuntos), que está no topo da hierarquia de comando das operações. A nível distrital existem os Comandos Distritais de Operações de Socorro, também com um comandante e um segundo comandante, responsável por este nível. Todos os anos o CNOS emite uma directiva operacional, que dá conta dos meios disponíveis em cada fase dos incêndios e do funcionamento do dispositivo. Mas quem comanda no combate de um fogo é o primeiro a lá chegar, sendo depois substituído normalmente por um comandante dos bombeiros locais. Os casos mais complexos são geridos pelos comandantes distritais ou por um responsável do CNOS. M.O.”

Há interessados nos incêndios? Muito se fala na gíria popular das redes criminosas ligadas ao fenómeno dos incêndios. Contudo, as alegadas máfias do fogo, ligadas à indústria da madeira, aos interesses imobiliários ou às empresas de meios aéreos, nunca foram detectadas nas investigações da Polícia Judiciária, que tem competência exclusiva para investigar os incêndios dolosos. Desde 1997 que o Instituto Superior de Polícia Judiciária e Ciências Criminais estuda os incendiários condenados e, a partir de 2000, os detidos pelas autoridades, tendo concluído que mais de 90 por cento são homens e a maioria tem mais de 36 anos. Na generalidade, fazem-no fruto de perturbações psíquicas ou por vingança. Desde que em Setembro de 2007 o Código Penal autonomizou o crime de incêndio florestal, a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais contabiliza vinte pessoas condenadas, 12 das quais foram consideradas inimputáveis e obrigadas a cumprir medidas de internamento em instituições psiquiátricas. “A opinião pública sobrestima fortemente as causas intencionais com objectivos económicos (que são insignificantes) e praticamente ignora as associadas a produção agro-pecuária, as realmente mais comuns”, nota Tiago Oliveira, engenheiro florestal, que fez parte da equipa que elaborou a proposta técnica do Plano Nacional de Prevenção e Protecção da Floresta contra Incêndios. M.O.”

Existe legislação específica para o ordenamento florestal? Um dos problemas que repetidamente se associam ao drama florestal relaciona-se com o labirinto da legislação. Depois de vários anos de debate, a Assembleia da República aprovou em 1996 a Lei de Bases da Política Florestal, que, naturalmente, se tornou a matriz do ordenamento florestal português. Aí se previam dois níveis principais de intervenção: a escala regional e a escala da associação local de produtores. Para a primeira, foram lançados os Planos Regionais de Ordenamento Florestal (PROF), para as segundas as Zonas de Intervenção Florestal (ZIF), cuja aprovação estaria dependente de planos de acção nos quais se determinariam as regras básicas do ordenamento e da gestão desses espaços, incluindo medidas ao nível da prevenção dos fogos. Os PROF, porém, demoraram três anos a ser regulamentados e a sua publicação só aconteceu depois de 2006. As ZIF, por seu lado, tiveram enquadramento legal em 2005 (nove anos depois de previstas na lei de bases) e, entretanto, foram-se disseminando pelo território. Actualmente há 27 no Norte, 64 no Centro, 18 em Lisboa e Vale do Tejo, duas no Alentejo e 16 no Algarve. Mais crítico do que o seu número é a sua operacionalidade: na sua grande maioria, as ZIF continuam no papel, sem qualquer acção concreta ao nível do planeamento e ordenamento. Falta-lhes uma competência básica: a de poderem vender os produtos da exploração florestal. Sem este estímulo, “vai ser difícil obter os resultados que se esperavam das ZIF”, diz João Soares, agrónomo e ex-secretário de Estado das Florestas. M.C.”

Foto@LUSA

 

a chacota vidrada, por ssru

“Caros amigos, espero sinceramente que esteja a ficar também do vosso agrado. Cumprimentos. ”

Foi desta forma que o Pedro Lopes, do Hard Club, se dirigiu à SSRU, dando conta da fase dos trabalhos de aplicação do novo revestimento cerâmico nas paredes interiores do edifício do Mercado de Ferreira Borges, juntando as excelentes fotografias. Muito obrigados ao Pedro.

Recentemente tivemos a oportunidade de ver de perto este trabalho e está muito bem acabado, criando um efeito cénico bastante agradável: o azulejo vermelho ferro com o metal da estrutura no mesmo tom, evidenciando as diferenças das texturas e das formas dos elementos (num e noutro sentido).

A chacota (ou biscoito) executada manualmente, apresenta formas irregulares, eventualmente pequenas imperfeições ou alteração nas dimensões e é por ventura mais espessa que a normal chacota de azulejo industrial; o que não significa um material menos nobre, pelo contrário este é o material mais caro e a sua utilização está normalmente associada à execução de obras com motivos antigos ou necessariamente no restauro de obras antigas. É a base ideal para produzir obras de motivos rústicos ou estilo século XVII ou XVIII.

A Majólica é uma técnica de produção vinda de Itália e introduzida na Península Ibérica em meados do século XVI. Não é simples clarificar a origem do termo; talvez uma locução italiana para Maiorca, porto de onde eram exportados os azulejos, ou uma metamorfose do termo Opera di Mallica usado desde o século XV para designar a mercadoria italiana exportada do porto de Málaga. O termo faiança, utilizado a partir do século XVII, tem origem no centro italiano Faenza onde era produzida esta cerâmica. A majólica veio revolucionar a produção do azulejo pois permite a pintura directa sobre a peça já cozida. Após a primeira cozedura é colocada sobre a placa um líquido espesso (branco opaco) à base de esmalte estanífero (estanho, óxido de chumbo, areia rica em quartzo, sal e soda) que vitrifica na segunda cozedura. O óxido de estanho oferece à superfície (vidrado) uma coloração branca translúcida na qual é possível aplicar directamente o pigmento solúvel de óxidos metálicos em cinco escalas de cor: azul cobalto, verde bronze, castanho manganésio, amarelo antimónio e vermelho ferro (que por ser de difícil aplicação pouco surge nos exemplos iniciais). Os pigmentos são imediatamente absorvidos, o que elimina qualquer possibilidade de correcção da pintura (designada decoração ao grande fogo). O azulejo é então colocado novamente no forno com temperatura mínima de 850°C revelando, só após a cozedura, as respectivas cores utilizadas. (ver excelente artigo na Wikipédia).

Se está bonito? Está! Se havia necessidade? Não, principalmente sem a autorização do senhorio!

Mas Pedro, a questão dos azulejos é menor comparada com a solução arquitectónica, essa sim, inviabilizando um espaço que se queria multifuncional e polivalente. E aquela empena toda do vizinho a olhar para nós…

a ‘hard’ realidade, por ssru

A dura realidade parece ter a sua confirmação pela ‘pena’ do próprio Hard Club, na pessoa do seu Director de Produção e nosso amigo, Pedro Lopes. Vamos lê-lo:

“Cara SSRU, Relativamente ao vosso artigo publicado em 31/07/2009 com o título “a tolerância zero#5”, cumpre-me informar o seguinte: dos 28 painéis que compõem o interior do Mercado Ferreira Borges, apenas 7 mantinham os azulejos originais do século XIX. Os restantes 21 painéis, executados aquando da recuperação do edifício em 1983, não possuíam qualquer valor patrimonial, conforme podem verificar na fotografia em anexo (imagem 1). Dos 5 painéis originais, e dado o avançado estado de degradação em que se encontravam (imagem 2), optou-se por preservar e salvaguardar algumas peças para identificação e registo (imagem 3).

Imagem 1 Imagem 2 Imagem 3

Ainda na sequência das indicações dadas pelo Departamento de Museus e Património Cultural da Câmara Municipal do Porto, estas peças, juntamente com o levantamento fotográfico efectuado, estarão confiadas ao Banco de Azulejos instalado junto da Casa Tait. A este propósito, posso ainda adiantar que os revestimentos cerâmicos que irão ser aplicados nos 263,2 m2 de paredes do interior do Mercado Ferreira Borges, não serão cinzentos, nem pretos, mas sim vermelhos com chacota e vidrado manual, e de dimensões variadas. As juntas serão tratadas com pasta de cimento branco e aditivo de cor a determinar através da aplicação de diferentes corantes num painel de ensaio. Se desejarem obter qualquer outra informação relativa ao processo de Recuperação e Adaptação do Mercado Ferreira Borges, estejam inteiramente à vontade para me contactar. Com os melhores cumprimentos, Pedro Lopes”

Obrigados Pedro. Ou seja, 25% dos painéis eram originais, os restantes 75% correspondiam à reposição em cópia feita pelo CRUARB aquando da remodelação a que o edifício foi sujeito em 1983, mantendo a IDENTIDADE do espaço, que lhe é proporcionada pela leitura das paredes revestidas com aquele tipo de azulejo, aquela estereotomia, aquelas cores, as dimensões das peças, etc. Com esse simples gesto o CRUARB manteve ainda (pelos vistos com alguma dificuldade) a MEMÓRIA do espaço, independentemente das funções que lhe foram atribuídas, diversas e diferentes das primitivas, funcionando ultimamente como espaço plurifuncional e não como mercado.

Sobre a sua plurifuncionalidade muitas têm sido as vozes que dizem que o Mercado estava abandonado e não servia para nada, mas quem aqui vem sabe que isso é falso. Muitas eram as feiras, as exposições, as passagens de modelos, as mostras de design e muito mais que lá acontecia. Se o seu aproveitamento não era eficaz isso só é devido à CMP.

Para além das promessas (não cumpridas) de não mexer nas paredes do classificado edifício, não encontramos qualquer texto publicado onde fosse notória a intenção do promotor retirar os azulejos das paredes interiores do mercado, antevendo a presente situação.

E porquê retirar azulejos quando a proposta é… colocar azulejos? Vermelhos com chacota e vidrado manual e de dimensões variadas (?) ? Para nós não faz sentido e já sabem o que pensamos sobre o “propor melhor” (… está intimamente ligado à capacidade de quem propõe, à qualidade da proposta e à qualificação de quem avalia)!

Causou-nos má impressão que tivessem vindo a terreiro criticar o IGESPAR [Público 11-04-2009], sobre a sua demora em apreciar o projecto, pois sabemos que existem outras formas de resolver esse tipo de assunto, que não na praça pública. Aliás, se a CMP tivesse tido a preocupação de consultar aquele organismo da administração central antes de partir para o concurso, as garantias de rapidez na apreciação dos processos estavam asseguradas.

Na resposta do Pedro não é perceptível o momento em que a Divisão de Património Cultural foi chamada a dar indicações de recolha dos azulejos na Casa Tait, mas perante as circunstâncias somos impelidos a acreditar que o serviço camarário foi colocado perante um facto consumado e nessa evidência mais não fez que minimizar os danos. O que a ser correcto significa que não pediram autorização a ninguém, sobretudo ao proprietário, para avançar com a alteração! Acrescentamos que não nos parece ser prática corrente da Porto Vivo consultar os serviços camarários para os processos urbanísticos que tem a seu cargo, sobretudo por constituírem uma ‘areia na engrenagem’, o que explica terem sido ‘chamados’ para o Mercado, apenas por este ser de responsabilidade camarária.

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Não nos incomoda tanto se os vidros foram retirados (esperemos que não assim) porque sabemos pelas apresentações do projecto que não existe outra alternativa, vidro é vidro (mais ou menos!), nem reparamos se a cor dos metais é um vermelho mais aberto e brilhante que o anterior, mas… caramba, porquê deixar cair a nódoa neste pano, quando apenas 20% dos azulejos vai ficar ‘à vista’ com a implantação dos novos volumes?

Como dizia um grande artista português, não havia necessidade! Esperamos que tudo fique por aqui…

Contudo, estamos certos que saberão que nos encontram de pé, numa ovação geral ao vosso esforço e contribuição para o desenvolvimento do Centro Histórico do Porto.

as pontes suspensas, por ssru

Inaugurámos uma escultura, da autoria do arquitecto Eduardo Souto Moura, evocativa da tragédia da Ponte das Barcas, nas comemorações dos 200 anos das Invasões Francesas, aquelas mesmas em que, entre outras coisas, fomos espoliados dos melhores tesouros artísticos da época.

Mais a Nascente continuam os preparativos para as obras de conservação da Ponte Maria Pia, promovidas pela Refer. O protocolo assinado em 2004 (?) entre o Governo, as autarquias e a Refer continua a aguardar melhores dias, devido a (…) Dificuldades de diferente natureza não permitiram que se chegasse a um acordo entre as três partes envolvidas sobre o estudo prévio apresentado (…). O seu futuro continua uma incógnita para o grande público, para os portuenses e gaienses, precisamente aqueles a quem se devem os esclarecimentos. Se a isto juntarmos a habitual desresponsabilização sobre o destino do património classificado do País, facilmente imaginamos onde iremos chegar.

Vista geral do Porto, a partir da Serra do Pilar - Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. in 'biblarte'

Vista geral do Porto, a partir da Serra do Pilar – Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. in ‘biblarte’

A Ponte Luiz I continua estoicamente a resistir a tudo, já quase lhe mudamos a face, o programa funcional, a carga que sobre ela assenta e alguns ainda a maltratam dizendo que é um mostrengo comparada com a Maria Pia. Mas a verdade é que nasceu de uma necessidade biológica de aproximar os dois povos das margens do Douro e tem-no conseguido da melhor forma possível ao longo destas décadas.

Em vagas, ouvimos falar em “ponte pedonal”, umas aqui e outras mais acolá, inspiradas por políticas e engenharias que não se inibem de gastar milhões dos bolsos de todos nós e cujo objectivo, traçado num Masterplan (ou seja, Plano Principal), é “(…) repercutir o turismo das caves sobre a margem portuense e ampliar a capacidade lúdica das duas margens do Douro. No documento, aponta-se, ainda, para o desenvolvimento de cais turísticos e a criação do comércio de qualidade elevada e de estabelecimentos de animação (…)”. Respirem, vocês leram bem! Desculpem, mas isto não conseguimos traduzir…

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Assim, no momento que o nosso primeiro inquérito atinge a bonita soma de 100 votos, consideramos oportuno lançar um segundo que ausculte a opinião de todos para a necessidade de uma travessia pedestre sobre o Douro e para o qual articulamos os seguintes parâmetros:

1 – as ribeiras não necessitam de uma travessia pedestre como forma de revitalização. Talvez o Parque da Cidade;

2 – a existir uma travessia pedestre sobre o Douro que seja pela Ponte Luiz I, aproveitando as extensões de espaço público de um e de outro lado que essa opção gera;

3 – uma travessia para peões sobre o Cais da Estiva (e o Café do Cais) e sobre a Praça Sandeman é um desvario idiota que desconsidera o valor patrimonial e paisagístico em causa;

4 – muito menos sentido faz quando os argumentos são para poupar 5 minutos ou 400 metros a uma caminhada que se deseja contempladora e prazenteira (os turistas é que sabem);

5 – se pensarmos nas condições de segurança para uma travessia tão longa (imaginem a proposta por Pedro Balonas!), na altura necessária, nas condições climatéricas, na manutenção de tal estrutura…

6 – as cidades ribeirinhas necessitam de uma travessia rodoviária à cota baixa que solucione o problema do trânsito local, onde também se encaixem os TIR que se deslocam para as caves de Gaia;

Se colocarmos a equação na plataforma da necessidade poderemos obter uma visão do problema muito diferente. Essa mesma plataforma poderá possuir graus diferentes de hierarquia nas justificações encontradas.

Mas se a uma insuficiente opção funcional adicionarmos uma má localização, a vaidade e a auto-satisfação de políticos oportunistas, medíocres  e desfasados dos valores patrimonial e histórico da Cidade (descentrando até das figuras dos dois presidentes de câmara), poderemos estar a dar de bandeja, lugar a mais um gigantesco crime contra o património do Porto/Gaia e da Humanidade.

Contamos com a vossa atenção habitual para podermos chegar a conclusões que formem opiniões saudáveis. Basta votarem na coluna lateral. Até lá ficamos em suspenso…

a estação central, por ssru

Durante quase toda a segunda metade do século XIX, a cidade vive um momento de grande desenvolvimento económico, motivado pela notória concentração industrial e comercial. A isto corresponderá um galopante aumento da população e o Porto, tal como todas as cidades em acelerado processo de industrialização, verá agravados os problemas de alojamento da população operária.

A resposta surge na forma de uma nova estrutura habitacional, com a construção de pequenas casas no interior de quarteirões existentes, densamente organizadas, a que se chama “as ilhas”. Espalhar-se-ão um pouco por toda a cidade, mas sobretudo nas freguesias à volta do núcleo central, cujos principais agrupamentos se localizam nas Fontaínhas, S. Victor, Fontinha, Montebelo, Antas, Largo da Maternidade e Carvalhido. Esta localização está intimamente relacionada com a localização das grandes fábricas – tecelagens, curtumes, fundições, cortiça, louça, etc. – também estas interessadas nas infraestruturas de transportes entretanto melhoradas, tanto a via fluvial como o caminho de ferro.

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A Estação de S. Bento surge no início do século passado como um dos pontos de chegada da população migrante, vinda do interior rural, atraída pelo desenvolvimento industrial e comercial da Cidade do Porto.

A extensão do caminho de ferro ao centro da cidade e a construção da Estação de S. Bento remeterão definitivamente o centro urbano para uma área que desde o século XVIII se encontrava predestinada – a Praça Nova das Hortas/a Praça de D. Pedro/a Praça da Liberdade – provocando a descaracterização do burgo medieval, fazendo incidir sobre aquele local a iniciativa renovadora das primeiras Câmaras.

A beleza e imponência do edifício da estação serão as únicas atenuantes para tão grave esforço que a cidade ainda, após tantas décadas e tantas intervenções, parece não ter conseguido compensar. A obra do arquitecto Marques da Silva é uma peça requintada de arquitectura, construída, porém, à custa de um interessante convento e de parte das ruas do Loureiro e da Madeira.

A cidade sempre assistiu a uma certa euforia na apresentação de projectos inovadores, a maior parte das vezes percebendo-se uma acentuada dificuldade de concretização. As grandes obras deste período, a par do governo central (ex: estação de S. Bento), também são atribuídas à iniciativa privada (Bairro do Comércio do Porto).

Este pequeno enquadramento histórico, com esta vertente específica, vem a pretexto das notícias (por ex: [1] [2]) que surgiram ultimamente sobre a proposta de intervenção na estação e que (é sempre tão pouca a informação!) já motivou um parecer ou opinião do IPPAR e dos serviços camarários. Os locais de discussão não existem, a apresentação pública de ideias não faz parte dos planos dos nossos dirigentes e, como sempre, apenas um punhado de pessoas se permite discutir o tema, como é o caso da Baixa do Porto e particularmente nas preocupações de Teófilo M.

A velocidade e a forma como se cristalizam os disparates é tal que a nossa capacidade de reacção, já de si diminuída, nada pode para contrariar a irreversibilidade com que se dispõe do Bem Comum.

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É verdade, a estação, as ruas em redor, os passeios, os candeeiros que nos iluminam, SÃO NOSSOS. Razão pela qual deveríamos ser consultados e não apenas remetidos à resignação e aceitação de decisões elaboradas por pessoas cujas capacidades desconhecemos. A ter em conta a veia mercantilista que percorre a nossa classe política é fácil temer por dias negros, a juntar a tantos outros da história da cidade. Oportunidades desperdiçadas.

A nossa pontaria não se centra mais no conjunto edificado, mas diverge para o espaço envolvente da estação, cuja ferida provocada no tecido urbano ainda não se encontra sarada. Somos em crer que qualquer solução preconizada para este espaço da cidade deveria ter em conta o carácter histórico e urbano como forma de encontrar a melhor solução possível.

Consideramos ainda, que é tempo de compensar a população da Sé e do Centro Histórico pelo esforço que lhes foi induzido, olhar à sua volta e procurar responder às suas maiores necessidades, que muitas vezes passam por coisas simples: como um campo de jogos para os miúdos poderem brincar livremente; ou um pavilhão, uma vez que chove imenso durante o ano; um auditório ou apenas uma sala polivalente para as associações locais (as poucas que ainda subsistem) fazerem as suas peças de teatro ou os seus concertos… coisa pouca para empresas que se fartam de ganhar dinheiro com o Esforço Comum, oportunidade única para mostrarem algum Serviço Público.

Pelo meio estamos certos que não deixarão de ganhar uns trocos, umas moedas de ouro… é que estamos fartos de vendilhões neste Templo!