é apenas um pouco tarde, por ssru

foto @ Leonel de Castro/Global Imagens

“A Poesia Vai Acabar”

“A poesia vai acabar, os poetas / vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros / (enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao / entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar / ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»    E a pergunta / afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler / toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça. / — Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —”

Manuel António Pina (1943-2012) Jornalista/Poeta/Escritor, in “Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde”, 1974.

«(…) Afinal, o que é que a poesia faz pelas pessoas? A poesia não passa de um certo uso das palavras. (…) As palavras faltam, fracassam, falam de mais. (…) Tudo é perecível, as pessoas mudam, mudam-se, envelhecem, morrem, e não sabemos “o que aconteceu”. (…) É uma despedida antecipada, precoce, na qual o poeta se transforma “em algo parecido” com os sonhos da infância, algo “da mesma substância”, imaterial e fugaz. (…) Vê a melancolia fazer-se tragédia, doenças, padecimentos e óbitos dos outros, anúncio da nossa condição. (…) “Não subi aos céus (nem era caso para isso) / mas desci aos infernos (e pela porta de serviço) “. (…) “Cheguei demasiadamente tarde/ e já todos se tinham ido embora, restavam papéis velhos, vidas mortas,/ identidade, sujidade, eternidade”. (…)»

Ler tudo e mais: http://expresso.sapo.pt/e-apenas-um-pouco-tarde=f761198#ixzz29moQJg7l

o preço da inércia, por ssru

“A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos.”

António Lobo Antunes, in Diário de Notícias, 18.11.2003

“A cultura nunca poderá ser um factor estratégico de mudança. Se é estratégia, não é cultura. Faz-se apelo à cultura como estratégia de mudança, tentando resolver a condição perturbadora do homem culto, munido de culpabilidade inconsciente, ou simplesmente isento da culpabilidade pelo sofrimento. Isso não é possível.

A cultura não se enquadra na totalidade política. Há um grave mal-entendido quanto a isso. A cultura não significa o conforto da neutralidade, a irónica graduação da expectativa, a ginástica do não-compromisso. Significa um enraizamento em si mesmo, que conserva no homem a faculdade de julgar.

Não é contrária à acção, mas é condição necessária para que a acção seja serena e útil, e não impaciente e desordenada. Não se trata de racismo espiritual; não se trata da pretensão de existir à parte da história política do mundo. É a intenção absolutamente necessária de ser livre, face aos acontecimentos, qualquer que seja a lógica que os liga.

A cultura é o que identifica um povo com a sua finalidade.”

Agustina Bessa-Luís, in ‘Dicionário Imperfeito”, 2008, Guimarães Editores, Lisboa.

a narrativa simples, por ssru

Este fim-de-semana não fomos a nenhuma manifestação de indignação, também por causa dos grandes substantivos abstractos, mas sobretudo porque depois do dia 12 de Março de 2011, apenas havia lugar para uma nova revolução, nada mais!

Vodpod videos no longer available.

António Lobo Antunes, que tanto admiramos, deu uma entrevista à RTP, convidando para sua casa a jornalista Fátima Campos Ferreira, 14 de Outubro de 2011.

“(…) Eu não consigo perdoar à classe politica e aos grandes grupos económicos aquilo que nos aconteceu. (…) Como é que as pessoas podem confiar, se as pessoas que nos falam não são confiáveis? Se o discurso delas muda constantemente? Se não são capazes de manter promessas e se a cultura para elas é apavorante? Porque é que há tanta novela? Porque é que há tanto programa mau? (…) Não sentia amor neles, nunca senti! E senti sempre que o amor era falso. (…) è como no tempo de Salazar, eram os grandes substantivos abstractos: Honra, Pátria, Glória… e por aí fora!

(…) Porque é que não queremos que as pessoas sejam cultas? (…) è evidente que um povo culto não aceita isto. (…) Quem está em crise são os Países onde a cultura é menos desenvolvida e foi menos apoiada. Isto é óbvio, é tão evidente!

(…) E as pessoas, a maneira como elas beijam as crianças!? Não sinto neles nenhuma vontade genuína, do coração, em beijar criancinhas.(…)”

“… ai Lurdes, Lurdes, o que foi aquilo?”

os livros no jardim, por ssru

Quando há um ano atrás sugerimos a realização da Feira do Livro nos jardins da Cordoaria (contrariando os argumentos daqueles que nos acusam de só criticarmos sem propor), sabíamos que a sua implementação não seria imediata. Nada muda assim tão rápido, sobretudo se os responsáveis pela sua instalação não se derem ao trabalho e à grandeza de mudarem de opinião. O que nem sempre é fácil, senão atente-se ao que Rui Rio declarou após a sua descida pela Avenida, na inauguração: “(…) A Feira do Livro na Avenida dos Aliados ajuda a reabilitar a Baixa da cidade”, salientou Rui Rio, acrescentando: “ajuda no que a cidade tem de maior valor que é esta zona nobre da cidade. Também a configuração que a Avenida dos Aliados tem agora permite que a Feira do Livro se realize aqui (…)”Ainda que reconhecendo as nossas limitações mentais, não conseguimos entender porque razão a feira “ajuda a reabilitar a Baixa, no que a cidade tem de maior valor” (?) e que outra zona nobre da Baixa, como os jardins da Cordoaria, não o possa fazer, com benefícios exponencialmente melhores.

Para lá de todos os pontos negativos que enumerámos no artigo anterior, gostaríamos de pegar no interesse que o Dr. Rui Rio demonstrou pelo Turismo da cidade e frisar que:

– os turistas comentam que a avenida parece um terminal enfeitado de contentores, para o qual contribui o facto de estarem fechados para dentro;

– eles não se deslocam à cidade pela feira do livro, mas pela sua festa maior – o S. João – que tem sido paulatinamente desprezada e maltratada por este executivo, numa clara demonstração de incultura popular (daí talvez as iniciativas privadas!?);

– são escassos os turistas que vemos todos os dias a deambular pela feira, o que significa que os utentes somos nós, que mais depressa estamos no jardim a ler um livro numa sombra, do que na avenida a arder de calor;

– a coincidência de calendários deveria fazer perceber que as prioridades se encontram trocadas, pois na festa ‘mayor’ da cidade a avenida encontra-se ainda em estaleiro da desmontagem dos contentores.

Para os utentes, a instalação feita este ano veio ainda agravar as más condições do ano passado, uma vez que a mobilidade foi premeditadamente prejudicada:

1. O auditório tapa totalmente a visibilidade da passagem de peões da Praça da Liberdade, aos automobilistas;

2. A passadeira seguinte, a de Sampaio Bruno, tem uma ‘muralha’ tão próxima que parece impossível tamanha tolice;

3. O espaço que sobra entre os contentores e as vias de trânsito é bem menor e está ocupado com outro tipo de contentores, os do lixo;

4. É precisamente para este espaço mencionado antes, que desaguam as saídas de emergência dos “mega-editores”, que em caso de sinistro dá para antever a catástrofe, dada a falta de condições e a velocidade dos automóveis que circulam nas vias adjacentes;

o valor de uma saída de emergência, para certos indivíduos...

5. O estacionamento selvagem diariamente efectuado junto à feira não ajuda à segurança e mobilidade dos peões, mas eis que, ao fundo se vê um carro da polícia, acabadinho de passar e nada fazer.

Não sabemos como é que se decidem estas coisas, quem impõe e quem cede, quem oferece ou quem recebe em troca, pelo que não imaginamos se o Jardim da Cordoaria e a Praça que o liga à Reitoria, alguma vez foram uma opção válida para quem decide. A verdade é que, em nossa opinião, a Cordoaria parece ter tudo para resultar. Quanto mais não fosse, só pelo facto da avenida ser um braseiro em dias de sol, por todas as suas superfícies graníticas reflectirem de forma acentuada o calor e as árvores jovens não servirem para quase nada.

Como, para já, apenas podemos lamentar, juntamos ao lamento estas duas citações que estão gravadas num contentor da feira, na esperança de nos podermos refrear ou, antes, que nos libertemos definitivamente desta caixa de Pandora onde vivemos.

o porto em ruínas, por ssru

Está a decorrer no Palácio das Artes, Largo de S. Domingos, uma exposição colectiva – artistlevel.org – onde se inclui o trabalho de Gastão de Brito e Silva, que poderão conhecer com maior profundidade no blogue Ruin’arte. Numa entrevista recente ao Porto24, o Gastão refere: “O Porto é uma cidade magnífica. Tem uma arquitectura pela qual tenho uma admiração muito mais profunda do que tenho pela de Lisboa. Mas não há uma única rua que não tenha uma ruína”. Até dia 24 de Abril.

Nós, que acompanhamos este trabalho quase desde o primeiro artigo do Ruin’arte, entendemos a beleza plástica da sua obra como uma traição aos nossos sentidos. É a cantiga de embalar de uma tágide que nos inebria e nos faz admirar o objecto degradado e ainda espantoso, cuja ruína pretendemos combater, resgatando-o. Obrigados ao Gastão.