a boa vizinhança, por ssru

Gostaríamos de dedicar o nosso ducentésimo artigo aos bons vizinhos e à boa vizinhança. Um conjunto de bons vizinhos forma uma fantástica vizinhança e por vezes, à distância da família legítima, tornam-se tão íntimos e imprescindíveis como se fossem nossos parentes. Hoje, tirando um ranhoso ou outro, podemos considerar que temos uma boa vizinhança para criar os nossos filhos. A vida no Centro Histórico não é fácil e as relações têm que ser regadas todos os dias para não murcharem e adubadas constantemente para não se transmutarem em algo monstruoso.

A Dona Emília, por exemplo, teve uma altura que nos deu imenso trabalho. Era bom-dia e boa-tarde, como vai a vizinha com este frio ou com este calor, as coisas iam rolando. Pela morte da Amália, passou a ouvir fados de manhã à noite em altos berros e, se nos primeiros dias se conseguiu suportar, pelo amor que temos ao fado, com o tempo a coisa transformou-se num inferno e já vomitávamos aqueles sons pelos ouvidos. A nossa primeira ideia foi responder com a mesma moeda, mas o Bob Dylan e o Jeff Buckley não estavam a surtir o efeito desejado. Quando finalmente parecia que a Valquíria de Wagner começava a resultar, encontramos a Dona Emília na drogaria e metendo conversa mais alongada, explicamos-lhe os efeitos colaterais que as doses massivas de Amália estavam a fazer em nós e nas nossas crianças. “ Ó menina, porque é que não disse há mais tempo, carago!” Quando precisamos de fazer um recado mais demorado é ela que nos “deita uns olhinhos nos miúdos”. Em troca recebe os nossos mimos e algumas ajudas com o preenchimento do IRS “por umas rendas de umas casinhas”.

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É com agrado que constatamos que a Porto Vivo percebe a importância deste conceito da “Boa Vizinhança” e o pratica com os seus vizinhos, contrariando o carácter institucional frio com que se revestiu. Espantou-nos que uma destas manhãs de sábado, que dedicamos às compras no comércio tradicional e ao passeio pelo CHP, tenhamos visto um quadro que parecia ser enternecedor: o vizinho montou um andaime e colocou os azulejos que faltavam na fachada desde que ela se instalou ali no número 212 da Rua de Mouzinho da Silveira.

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Agrada-nos que a SRU tenha conseguido passar por cima do facto do vizinho ter feito obras ilegais mesmo debaixo do seu nariz – diga-se em abono da verdade que o prédio, embora inacabado, ficou muito melhor do que estava, não havia era a necessidade! – e tenha aproveitado a oportunidade, já que ele estava com a mão na massa, para resolver o seu problema e rematar tão abstruso semblante.

é pena os azulejos serem diferentes dos de cima e de lado

é pena os azulejos serem diferentes dos de cima e de lado

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Se julgávamos que podia tratar-se de um caso isolado, eis que o actual Homem-Forte da Porto Vivo e Vereador da Câmara de Gondomar, o Sr. Engenheiro Rui Quelhas – que anda a fazer obras ilegais num prédio à saída do Túnel da Ribeira – nos dá uma lição de boa vizinhança ao utilizar o prédio vizinho como auxiliar aos trabalhos que está a desenvolver. Não temos certezas absolutas, mas os sinais indicam que se está a fazer uma utilização do prédio ao lado: tem um cadeado e um aloquete novos na porta, apesar de este estar destelhado/desabitado; tem um cabo eléctrico a passar pelas janelas do primeiro andar e que é recente (por confronto de fotos); e esse cabo parece descer as escadas e ligar a um quadro eléctrico (?) fechado com um aloquete novo, etc. Queremos muito estar enganados mas tudo indica que se está a utilizar o prédio do vizinho, mas se este não tem conhecimento, esta utilização pode ter um nome muito feio.

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Pouco adianta depois clamar por transparência e meter os pés-pelas-mãos em justificações esfarrapadas, se os factos contrariam tudo o que se diz. A boa vizinhança clama por transparência e bondade. Sim, bondade!

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o lapso do tempo, por ssru

Um administrador desta sociedade precisou de um incentivo à reabilitação e nós instituímos um fundo especial chamado forro dos bolsos, donde tirámos a quantia necessária para adquirir “o apocalipse dos trabalhadores”, de valter hugo mãe, edição da Alfaguara, de 2008.

a maria da graça entristecia-se. chamava o portugal para o seu colo e passava uma hora a fazer nada senão esfregar-lhe o pêlo lentamente, absorta, sem sequer pensar em nada de muito concreto. punha-se ali meio escondida pelos estendais e não chamava a quitéria, não fosse ela estar de alegrias com o seu jovem amor e estragar-lhe a noite. o portugal, pobre bicho, emagrecia um pouco, talvez triste também, e não lhe dizia nada. não esperava que um cão desatasse a falar, mas reconhecia-lhe nos olhos um pacto tão definido de fidelidade que parecia possível que um dia abrisse a boca para lhe dizer algo. e ela ficava ternamente com o pequeno cão no colo com essa paciência de quem esperava uma voz importante. uma palavra que a salvaria para sempre e que, obviamente, estaria para ser descoberta nas meditações que passaria a fazer cada vez com mais frequência. ela perguntava, tens pulgas, não quero que andes para aí com os cães da vizinhança, que são todos uns sujos e ainda te ferram. o animal, que era mesmo uma nica de corpo, parecia fungar um pouco. ela via-lhe o pêlo castanho, muito perfeito para esconder parasitas, e imaginava milhares de pulgas ali aos saltos. que cidadania, dizia ela, haverias de ser um belo país, a coçar e a coçar e só haverias de fazer ferida. sorria. pensava pouco no escasso dinheiro que ia recebendo. com duas ou três horas de trabalho por dia não teria as condições que tivera ao tempo do maldito, que lhe entregava certinha todos os meses a parte substancial do rendimento dela. o portugal andava por ali a emagrecer talvez de não gostar dos restos que eram resto de pouca coisa. e ela mandava-o para a casa da quitéria a ver se a miséria não dava ao animal, que não teria culpa de nada e era lamentável que se finasse de fome pelos cantos. encarava o cão e pensava que um dia lhe haveria de faltar. vou faltar-te, pensava, e talvez morras de fome por mim como morro de fome por aquele maldito. o portugal por vezes pressentia aqueles pensamentos e latia, ela dizia-lhe, cala-te, palerma, onde é que já se viu um país a ladrar. punha-lhe a mão no focinho, fechava-lhe a boca, o cão divertia-se e julgava que brincavam e o perigo estaria afastado. ela distraía-se também, como um modo cruel que a tristeza tivesse de a animar de vez em quando, para a deitar ainda mais abaixo de seguida.