Arquivo da categoria 'não-património'

o não-património #4, por ssru

Há intervenções que nos chocam mais que outras, mesmo afastando do campo da opinião. O sentimento geral ou maioritário sobre determinada opção congrega em si uma avaliação que vai para além daquela feita pelos autores e pelos ‘autorizadores’ que tornaram possível um resultado desagradável.

Em centros históricos o espaço de manobra para resultados desagradáveis não devia existir!

Relembrando o que já dissemos sobre “propor melhor” [está intimamente ligado à capacidade de quem propõe, à qualidade da proposta e à qualificação de quem avalia. Para nós esta coisa de propor melhor é bastante complexa e tem muito que se lhe diga, principalmente quando constatamos uma mediocridade avassaladora em matéria de salvaguarda de património cultural…] tendo isto em mente, queremos mostrar – à semelhança do que fizemos nos artigos anteriores - alguns exemplos de não-património construído. 

E ainda, outros exemplos (poucos) de intervenções que não alteram o valor intrínseco do edificado e acrecentam alguma contemporaneidade, sendo esta uma forma de fazer cidade, sem que o modelo novo deva depor o anterior. Mesmo assim não nos devemos esquecer que é assim que o Porto tem vindo a ser ‘re-construído’, foi isso que no século XIX fizeram aos edifícios dos séculos anteriores.

Para isso voltamos à Rua da Vitória, via fabulosa que serpenteia e ondula como um dragão alado. O primeiro exemplo foi encomendado pela Electricidade do Norte ao arquitecto António Dias e data do início dos anos 90 do século XX.

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Mesmo que não percebam muito disto, como alguns de nós também não, estamos a falar do edifício semi-pintado de vermelho e com janelas gigantescas, sem telhado, que se vê da Sé na segunda foto (em baixo na imagem). Que tal a inserção urbana?

Com os exemplos seguintes pretendemos demonstrar que também é possível fazer uma intervenção contemporânea sem grande ruído.

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São dois edifícios quase em frente um do outro, desconhecemos os autores, os promotores e o ano da intervenção, o que também é sintomático do que dizemos.

De novo, um ‘modelito’ que por muito que nos esforcemos não temos imaginação suficiente para explicar a sua existência.

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Quem promoveu este trabalho em 1991 foi o CRUARB e o seu autor é o arquitecto Alberto Marcos. Segundo o livro de “Fichas de Obras de 25 anos de Reabilitação Urbana” trata-se de um edifício que alberga um equipamento colectivo e dois T2. Fantástico Porto.

Um pouco mais à frente o arquitecto Alberto Marcos, ao serviço do CRUARB, ainda nos brinda com mais uma obra desnecessária, em 2000.

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Se repararem no edifício antes das obras, o aumento introduzido arruinou completamente a sua escala, cujas proporções pareciam ser mais adequadas ao local onde se insere. Aumentar mais dois quartos num T2, o que significa um T4 sem garagem, é na nossa opinião desnecessário, principalmente quando se faz assim…

Mas por fim, o ‘melhor’ exemplo, que prova a ausência de fiscalização de um bem precioso como o Património da Humanidade. Já ninguém exige que se fiscalize a Cidade toda a todo o tempo. Mas o Centro Histórico!?

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Não sabemos bem como é possível porque tudo parece demasiado mau. Se é a tijoleira na parede a imitar granito, se sãos os caixilhos envernizados, se o aumento no telhado, se o fabuloso estendal, ou se são os tubos de queda… tudo isto existe.

Onde param os responsáveis pelos crimes contra o património de um Povo?

o não-património #3, por ssru

A Rua da Vitória é uma via singular, sem dúvida, bastante ’sui generis’. Para além disso também nos diz muito, toca-nos ao coração, bem como toda a Freguesia com o mesmo nome (que já de si é um nome fantástico), uma das que aglomera um grande número de património classificado monumental da Cidade.

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Comparando morfologicamente o actual traçado com a planta de 1892, verificamos que pouca coisa mudou. É quase uma ‘estrada’ rural, cheia de muros altos que guardam jardins e logradouros dos edifícios situados nas ruas contíguas.

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Um desses altos muros (que pertence à extinta FDZHP) possui uma das mais estonteantes paisagens urbanas, uma vista de cortar a respiração, digna de um Património da Humanidade. Durante a guerra civil portuguesa, serviu de ponto estratégico de defesa da Cidade às tropas de D. Pedro que combatiam o seu irmão D. Miguel – a Bataria da Vitória (na face do muro ainda encontramos algumas mossas provocadas pelas balas dos canhões miguelistas que disparavam do lado sul, de Gaia).

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Esta é uma das ruas do Porto de difícil acesso a uma viatura de emergência, certamente uma das 40 de que se falou nos ‘media’ recentemente, mas nem assim advogamos a destruição do património edificado para melhoria da circulação.

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Os veículos de emergência devem adaptar-se e  terem as dimensões adequadas para permitir uma rápida intervenção, para além dos meios passivos de resposta, e das acções de prevenção, que não se vêem. Porque por aqui não faltam casas em ruína para arder mais rapidamente, o lixo que vizinhos pouco civilizados atiram para as propriedades desertas… e automóveis, por todo o lado, a impedir a circulação!

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Estas imagens mostram, apesar do que dizem os responsáveis por esta cidade, que o Centro Histórico merece mais e melhor do que aquilo que tem!!!

o não-património #2, por ssru

Especialistas em Reabilitação Urbana Integrada consideram os ‘caprichos da arquitectura’ como um dos grandes problemas das intervenções no Centro Histórico do Porto. Sob o estigma de ‘que se tem de deixar uma marca’ os arquitectos, principalmente os mal-formados em História Urbana, projectam edifícios com reduzida utilidade ou marcadamente dissonantes, para satisfação do seu ego.

Ignoram que o maior desafio de um novo projecto em núcleos antigos deveria ser integrar de tal forma o edifício que este passasse despercebido a todos. Noutro local da Cidade provavelmente o impacto seria menos assustador.

Um desses exemplos é, na nossa opinião a Casa-Museu Guerra Junqueiro na Rua de D. Hugo, em clara oposição com a reabilitação feita na mesma rua para a Sede da Ordem dos Arquitectos, que embora se note a presença de um estilo de autor, este faz uma integração no edificado existente digna de nota.

Mas gostaríamos de voltar ao local do artigo anterior: o eixo Rua Escura/Rua da Bainharia/Rua dos Mercadores, para mostrarmos alguns exemplos de “não-património”.

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Estes dois exemplares datados de 1991 e 1987, respectivamente, são da autoria da Arq. Paula Silva – actual Directora do IPPAR, Direcção Regional do Porto – e promovidos pelo CRUARB.

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O conjunto representado nas duas fotos é da autoria de dois arquitectos, Arq. Alfredo Resende e Arq. António Moura. É datado de 1996 e o promotor foi a FDZHP [sem palavras].

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 Como vem sendo hábito deixamos o melhor para o final, uma obra da autoria do Arq. Alberto Marcos, datada de 1994 e promovida pela FDZHP.

Mesmo que este conceito seja gerador de alguma polémica, por haver correntes que defendem que ‘qualquer reabilitação é melhor que nada fazer’, acreditamos que por vezes, se fosse possível voltar atrás ou remover estes “elementos dissonantes”, o Centro Histórico ficaria certamente a ganhar.

O que mais assusta é que as mesmas pessoas que decidiam antes ainda o fazem agora, como é o caso do Arq. Rui Loza como administrador da Porto Vivo e da Arq. Paula Silva no IPPAR.

P.S. – datas, autorias e promotores in “Fichas de Obras – Cruarb 25 anos de reabilitação urbana”, 2000-2001

o ‘não-património’ #01, por ssru

A rubrica que aqui iniciamos, pretende demonstrar a carência de obras de reabilitação patrimonial, a ausência de cuidados, o vazio no património edificado do Centro Histórico.

Não podíamos ter começado por outro lado, apenas por aqui – Mercadores e Bainharia – que juntamente com a Rua Escura constituíam um dos eixos mais importantes da Cidade Medieval, ligando a zona ribeirinha e centro mercantil ao burgo episcopal e às principais vias medievais que saíam do Porto em direcção ao Minho, Douro e Trás-os-Montes, percorrendo por fora a muralha.

Foi uma das zonas mais ricas da cidade, onde os nobres, prelados e poderosos do Reino se instalavam quando se deslocavam ao Porto, rua de comerciantes e mercadores, zona de casas cuidadas, onde ainda podemos encontrar uma Casa-Torre.

Nós sabemos que tudo isto que dissemos até aqui significa ZERO para quem “cuidou” do Centro Histórico até hoje e para quem agora o diz que faz, que uma casa quinhentista (foto mercadores01) estar neste estado ou pior, é mais prédio menos prédio.

Ficam as imagens, não modificadas, da realidade…

   

Façamos a pergunta: como é isto possível, como podemos conviver com a nossa consciência, perante este espectáculo que não desaparece só porque as ruas ficam escondidas por Mouzinho ou S. João?

  

   

Falta referir que a quase totalidade destes edifícios e os restantes, nas mesmas condições, que aqui não figuram, são propriedade municipal ou de instituições públicas.


a cidade, por albano martins

Uma cidade pode ser apenas um rio, uma torre, uma rua com varandas de sal e gerânios de espuma.(...) Uma cidade pode ser um coração, um punho.

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